Todo mundo sabe que fazer dívidas é entrar em um processo de risco o qual, sem bom gerenciamento, pode levar à falência das pessoas, das empresas e a quebra dos Estados. Esta situação se agrava particularmente quando a economia funciona com inflação sob controle, pois não se pode mais transferir aos preços, aos salários e aos impostos o custo da dívida.
Dito de outra forma, em países com hiperinflação, trabalhar com o dinheiro dos outros pode ser vantajoso. Em países com inflação sob controle, porém, e com juros elevados (caso do Brasil), pode ser um desastre. Nesse sentido, após 16 anos de estabilização econômica, e após um excesso de crédito disponibilizado de qualquer forma no mercado interno, em função da crise mundial iniciada em 2007, as instituições brasileiras começam a reagir ao problema do endividamento da sociedade.
Os bancos, o comércio e o próprio governo, embora tardiamente, se dão conta de que geramos sim um consumo desenfreado sustentado por forte endividamento que está levando muitas pessoas e empresas à inadimplência. No fundo, estimulou-se o consumo sem responsabilidade nos últimos anos, num contexto onde falta conhecimento quanto à gestão do dinheiro que se ganha, onde a tendência maior é gastar mais do que se tem, procurando empurrar para diante a dívida, fato que gera uma “bola de neve” impagável.
Um dos setores que mais sofre com isso no país é o agrícola, por exemplo. Diferentes estudos recentemente divulgados indicam o problema e apontam, como solução, aumentar a educação escolar e familiar em relação às questões financeiras. Não era sem tempo!
Afinal, temos um grande número de jovens que antes mesmo de iniciar sua vida profissional já se encontram endividados e inviabilizados economicamente.
O perigo do endividamento (II)
Mas o problema se encontra igualmente junto a quem oferece facilidades de crédito sem controle, gerando bolhas de consumo que levam a crises. É o caso de bancos, financeiras, comércio e o próprio Estado como se viu nestes últimos dois anos.
No Brasil, a concessão de crédito a pessoas físicas passou de R$ 138 bilhões em 2005 para R$ 300 bilhões em 2009. Ora, a oferta de crédito, no longo prazo, é positiva se a sociedade sabe usá-lo, o que não é exatamente ainda o caso da maioria dos brasileiros.
Assim, as pessoas entram no chamado ciclo do endividamento: “...recebem oferta de crédito fácil, se deixam levar pela mesma, usam o dinheiro de forma descontrolada, e acabam não podendo mais pagar as dívidas”. E as famílias de classe média no país são as mais ameaçadas pelo problema. A facilidade para que o seu consumo aumente vem alavancando a economia, porém, se está criando uma bolha de endividamento para os próximos anos. Aquilo que chamamos de “crise dentro da crise”!
O cidadão, segundo as pesquisas, está se endividando mais cedo e de forma irresponsável, particularmente com as facilidades do cartão de crédito e do cheque especial, justamente os dois mecanismos que cobram os maiores juros anuais no país (entre 130% e 230% em média, diante de uma inflação anual ao redor de 4,8% no momento).
As pessoas devem aprender que uma das regras básicas é nunca fazer dívidas contando com uma renda futura incerta. Outra regra é poupar sempre o que for possível, sabendo-se o que se deseja no futuro. Todo o jovem que gasta hoje mais do que recebe (os adolescentes das classes A e B gastam 14% a mais do que ganham com mesada ou salário) está dilapidando o dinheiro da família e comprometendo estruturalmente o seu futuro.
Com o agravante de que é a faixa de idade entre 15 e 24 anos que mais sofre com o desemprego no país (cf. Ipea).