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O preço da soja e o dólar


Argemiro Luís Brum
A significativa desvalorização do Real nestes últimos dois meses alcançou a 20,9% ao passar de R$ 1,53 no dia 25/07 para R$ 1,85 no dia 21/09, com tendência a continuar por mais alguns dias. Assim, rápida e surpreendentemente a moeda estadunidense se reforça, chegando muito perto de sua paridade de poder de compra ideal, que seria de R$ 1,90 considerando o mês de janeiro de 1999, quando o Brasil adotou o sistema de câmbio flutuante. Tal movimento traz uma série de conseqüências!

Embora desejado e necessário, a rapidez da desvalorização não permite esperar bons presságios. A mesma significa que o capital especulativo, ao sair de países emergentes como o Brasil, e buscar refúgio no dólar e no ouro (moeda e commodity de reserva, em períodos de crise aguda) começa a detectar pelo menos duas futuras situações: a crise internacional vai piorar e não é seguro manter muitos ativos em países ainda de risco; o Brasil, com as últimas mudanças, estaria fragilizando sua capacidade de enfrentamento da crise, confirmando ser ainda um país de risco razoável e que pode sofrer mais intensamente o que vem pela frente em termos da crise mundial. Além disso, uma ação concertada dos principais bancos centrais do mundo, decidida há poucas semanas, teria iniciado um processo de compra de dólares, puxando para cima novamente a moeda dos EUA.

O preço da soja e o dólar (II)

Na prática, o setor exportador, finalmente, passa a respirar melhor, recuperando parcialmente seus ganhos cambiais, porém, o setor importador perde. Nesse último caso, os produtos importados, em dois meses, já estão quase 21% mais caros. Esse fato pressionará rapidamente a inflação interna e obrigará o Copom a rever sua posição de continuar a reduzir a Selic. Paralelamente, os preços das commodities no mercado mundial recuam fortemente, comprovando que não é a oferta e demanda que comanda esse mercado nos últimos anos, e sim o jogo do capital especulativo e sua relação com o valor do dólar.

Um dólar mais forte reduz o preço destas mercadorias em dólares no mercado mundial e vice-versa. No caso específico da soja, a média gaúcha fechou esta terceira semana de setembro em R$ 44,54/saco no balcão. Tal preço só foi possível porque houve esta importante desvalorização do Real. Isso porque a soja, em Chicago, desde o dia 31/08 perdeu US$ 1,29/bushel. Dito de outra maneira, em menos de um mês perdeu 8,9% de seu valor.

O farelo de soja em Chicago perdeu 10,8% e o óleo de soja 6% (o milho perdeu 10,2% e o trigo 12,6% no período). Nestas condições de Chicago, se o câmbio no Brasil tivesse ficado ao redor de R$ 1,60 por dólar, o preço atual da soja, no balcão, não estaria mais do que R$ 39,50/saco, salvo se as empresas compradoras reduzissem suas margens de ganho, repassando-as aos produtores. Ou seja, se antes era Chicago que sustentava os preços da soja, agora é o câmbio. A questão é: até quanto a desvalorização do Real irá neste momento? Estamos diante de um movimento duradouro de recomposição cambial? É muito cedo para dizer, porém, ainda não parece ser o caso.


E os automóveis irão aumentar de preço

Com a frase de que as montadoras nacionais, diante do aumento de 30 pontos percentuais no IPI dos automóveis importados, “não podem garantir que os preços não aumentarão nos próximos meses”, para os carros fabricados no Brasil, os empresários informam aquilo que já se sabia. Ou seja, o aumento no imposto, aplicado pelo governo, é uma forma de proteger as montadoras que estão no Brasil (todas elas transnacionais). Tal proteção desfavorece ao consumidor que, com o tempo, deverá pagar mais caro pelo veículo feito no Brasil, pois as montadoras locais tenderão a equiparar seus preços aos novos preços dos importados.

Para o governo, além de ser uma medida arrecadatória, mesmo que diminua a compra de importados, igualmente é uma forma de frear o consumo de automóveis diante da falta de infraestrutura decente para com eles se andar. Com isso, a produção local deverá manter preços baixos enquanto tiver estoques e depois irá aumentar os preços, vender menos, produzir menos e empregar menos. Paralelamente, o governo terá que se explicar perante a OMC, se os países exportadores atingidos pela medida brasileira reclamarem, pois não havia problemas de déficit na balança comercial nacional. Pelo contrário, o saldo positivo, no momento, é maior neste ano do que em igual período do ano passado. Assim, para a população brasileira o aumento do IPI sobre os veículos importados é um “tiro no pé”, pois extremamente negativo. Aliás, a teoria da economia internacional explica muito bem os efeitos nefastos de ações protecionistas, especialmente em favor de setores oligopolizados como é o nosso setor automobilístico.

E o problema é que tal medida irá até o final de 2012. Esse testemunho de incompetência gerencial, tanto do Estado como dos empresários do setor, fica cristalizado na informação de que o custo de produção de um carro no Brasil é 60% maior do que na China, considerando automóveis 1.3 e 1.5. No México, o custo é de apenas 20% maior do que no país asiático. Uma carga altíssima de impostos, para sustentar um Estado inchado e com péssimos serviços, associada a uma capacidade produtiva privada que só melhora diante da concorrência externa, são as verdadeiras razões dessas diferenças de preços. Protegendo a incompetência com o aumento do IPI sobre os importados o Estado brasileiro apenas piora as coisas para os cidadãos e toma um caminho contrário ao que o país precisa.
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