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O suíno e a Rússia


Argemiro Luís Brum
O comércio internacional, desde Adam Smith, em 1776, passou a ser visto como uma possibilidade interessante de ganhos para as diferentes Nações. Todos ganham com tal comércio, na lógica de que uma Nação deve se especializar naquilo em que for mais competitiva e, a partir disso, realizar trocas comerciais por produtos de outros países, os quais ela não possui competitividade. Ou seja, a população de cada Nação teria acesso aos bens de que necessita, com os preços mais baixos possíveis, com ganhos tecnológicos constantes, motivados pela concorrência. Para viabilizar na prática essa teoria, aperfeiçoada por diversos outros economistas, tais como Ricardo, Hecksher, Ohlin e mesmo Marx no seu tempo, o mundo estruturou, a partir do final da 2ª Guerra Mundial, a entidade supranacional chamada de Acordo Geral de Comércio e Tarifas (GATT), substituído, a partir de janeiro de 1995 pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Hoje, tal Organização conta com 153 países membros, dentre eles o Brasil. No entanto, a Rússia ainda não faz parte da OMC e vem pleiteando, há longo tempo, seu ingresso na mesma. O conflito comercial em torno das carnes brasileiras vendidas à Rússia entra nesse contexto. Especificamente no caso do suíno, o Brasil, que aumentou consideravelmente suas vendas globais desta carne, passando de 36 mil toneladas em 1995 para cerca de 600 mil toneladas atualmente, tem na Rússia um comprador anual ao redor de 60% desse volume. Ou seja, somos muito dependentes do mercado russo.

O suíno e a Rússia (II)

Ocorre que semanas antes do anúncio do bloqueio russo às nossas carnes, que deveria ter iniciado efetivamente nesse dia 15/06/2011, o vice-presidente da República do Brasil, em visita à Rússia, teria apresentado certas condições para o apoio brasileiro ao ingresso russo na OMC. Mal assessorado pelo Itamaraty, que teria enviado pessoal despreparado para acompanhá-lo, o vice-presidente entrou numa seara que não domina e descontentou, na forma, ao governo russo. Em represália, a Rússia teria agido lá onde mais atinge o Brasil: no comércio de carnes, bloqueando as importações sob a alegação de problemas sanitários. Uma clara barreira não-tarifária, infundada na maioria de seus pontos, porém, que vem causando estragos econômicos importantes. Como a Rússia ainda não faz parte da OMC, a solução do conflito passa por um acerto apenas entre os dois países. Se o Brasil for eficiente desta vez, isso pode ser resolvido já em julho ou, infelizmente, se estender por mais tempo. Em segundo lugar, o bloqueio do mercado russo provoca um recuo importante nos preços recebidos pelos criadores brasileiros, num momento em que a queda dos mesmos já havia iniciado. Isso porque o mercado interno não tem como absorver toda a carne que passa a sobrar. Além disso, o varejo não estaria repassando os menores preços aos consumidores, especialmente na carne suína. Resultado disso tudo, os produtores integrados do sul brasileiro viram os preços do quilo vivo do suíno recuar de R$ 2,10 para R$ 1,60, configurando mais uma crise nessa cadeia produtiva.              
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