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Os Sistemas de Manejo Orgânico no Vale do São Francisco


Tâmara Cláudia de Araújo Gomes

A importância do uso da matéria orgânica na agricultura é amplamente conhecida, mesmo entre pessoas alheias ao ambiente agronômico. Sua relevância, no entanto, está sendo mais destacada com o reconhecimento da agricultura orgânica como um caminho rumo a tão desejada sustentabilidade dos sistemas agrícolas.

No mundo inteiro há um forte movimento no sentido do estabelecimento de uma agricultura que conserve o solo e o meio ambiente e que resulte em produtos livres de agroquímicos. Por esse motivo, o agronegócio orgânico está em alta e, uma vez que os produtos orgânicos são diferenciados, estes têm alcançado melhores preços que os produtos convencionais. Embora as produtividades físicas no sistema convencional, muitas vezes, sejam mais altas que nos cultivos orgânicos, de um modo geral, a lucratividade destes últimos é maior. Em média, os produtos orgânicos têm alcançado preços 40% mais altos.

Nos últimos anos, a demanda por esses produtos tem crescido tanto que supera, de longe, a oferta. A agricultura orgânica movimenta, no mundo, cerca de US$ 40 bilhões ao ano. A tendência de crescimento do mercado de produtos orgânicos para o ano de 2000 nos EUA é de 25 a 30 % e de 40% na Europa. A Comunidade Européia é vista como um mercado de alto potencial para produtos específicos da agropecuária brasileira, crescentemente exigindo qualidade, ausência de agrotóxicos e condições de produção que sejam por ela consideradas ambiental, sanitária e socialmente corretas.

No Brasil, observa-se a mesma tendência. Os insumos biológicos voltados para uso em sistemas de cultivo orgânico no Brasil já movimentam somas superiores a US$ 60 milhões ao ano. Segundo dados da Associação de Agricultura Orgânica de São Paulo, o crescimento do consumo de produtos orgânicos no Estado, foi de 10% em 1997, 24% em 1998 e 30% em 1999. Em pesquisa recentemente realizada na cidade de São Paulo, observou-se que 61% dos consumidores de produtos orgânicos entrevistados, compram, freqüentemente, também produtos convencionais por falta da opção de um similar orgânico. Essa dificuldade é mais aguda, principalmente, no caso de frutas de mesa. Mesmo a nível internacional, tal fato se repete, abrindo um espaço mercadológico significativo para as frutas do Vale do São Francisco que venham a ser produzidas de acordo com os padrões orgânicos.

No entanto, o estabelecimento de uma agricultura mais sustentável, com todas as suas incertezas e complexidades, implica em mudanças tecnológicas, as quais devem ser específicas para a região, pois dependem das condições de clima e solo locais. No ambiente semi-árido, onde a pouca disponibilidade de chuvas limita o desenvolvimento vegetal e, consequentemente, a produção e o retorno de resíduos vegetais para o solo, o estabelecimento bem sucedido da agricultura orgânica dependerá da adequação, ajuste e desenvolvimento de técnicas orgânicas de manejo do solo e culturas. O manejo de materiais orgânicos se destaca face a dificuldade da manutenção de teores adequados de matéria orgânica nos nossos solos agrícolas, principalmente, naqueles de textura mais arenosa. A vida do solo, o equilíbrio dos ecossistemas e a diversificação são alguns dos elementos que devem ser repensados. A eficiência técnica e econômica dos diversos insumos alternativos e biológicos para uso em sistemas orgânicos hoje disponíveis na região, também necessitam ser testados. Comparativamente, são desconhecidos os seus efeitos sobre os diferentes tipos de solo, planta e lucratividade do sistema. Certamente, alguns desses insumos são potencialmente mais promissores.

Neste contexto, as instituições de pesquisa, têm grande responsabilidade quanto ao embasamento técnico da agricultura orgânica no sentido de viabilizá-la sob aspectos agronômicos e econômicos. A agricultura orgânica hoje constitui um dos projetos estratégicos da Embrapa a nível nacional. Embora a Embrapa Semi-Árido venha há algum tempo desenvolvendo linhas de pesquisa compatíveis com a agricultura orgânica e integrada (controle biológico de pragas e doenças, uso de leguminosas, etc.) face à crescente demanda, serão desenvolvidos esforços mais intensos de forma a se propiciar o embasamento técnico-científico necessário. A filosofia geral da pesquisa será a de desenvolver soluções domésticas apropriadas para os problemas da produção orgânica, adaptando tecnologias de outras regiões ou criando-as. Algumas práticas agrícolas mais favoráveis ao meio ambiente, que já existem no Brasil, necessitam de modificações muito pequenas para que se possa alcançar o padrão orgânico

O produtor que quer preservar o ambiente e ainda ter lucro de seu trabalho está mais dependente do conhecimento científico e da inovação que o agricultor comum. Por esse motivo, além de aspectos relativos a economicidade do sistema, é social e ambientalmente desejável que a eficiência física da agricultura orgânica atinja bons índices de produtividade, de forma a se conseguir a sua hegemonia técnico-produtiva e a credibilidade dos agricultores locais. Ainda há muito caminho pela frente para a agricultura orgânica, o que reforça a ênfase na pesquisa agroecológica e extensão rural voltadas para esse tipo de produção.

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