O Conceito Além do Aplicativo - A Uber revolucionou nossa forma de transporte. Hoje, diversas empresas em áreas distintas — do iFood à 99 e Airbnb — consolidaram um modelo que, tal qual a Gillette ou a Bic, tornou-se sinônimo do produto. A "Uberização" da economia é um modelo em que prestadores de serviço e consumidores se conectam de forma direta, intermediados somente pelas plataformas digitais.
Como todo sistema possui pontos positivos e negativos. Seus entusiastas elogiam a agilidade, o trabalho sob demanda e a autonomia do trabalhador. Seus críticos questionam a precarização, a transferência de riscos para o indivíduo e a ausência de garantias trabalhistas.
O Paradoxo da Mão de Obra - Isso tem gerado um paradoxo: Há muita gente precisando trabalhar, mas estão sobrando vagas de empregos formais que pagam até 2 salários mínimos, mas que dão pouca flexibilidade de horário aos trabalhadores. Por quê? Porque nesta faixa de remuneração o trabalhador prefere fazer entregas de bicicleta ou moto pela maior flexibilidade e autonomia de horários que a uberização proporciona, já que a remuneração é similar...
Com isso, profissões fundamentais que dependem de formação prática, como ajudantes de pedreiros, marceneiros, operadores de roçadeiras, enfim, operários rurais e da construção civil, estão ficando sem novos profissionais no mercado. A lógica de mercado é implacável: "se pagar bem, tem quem faça". No futuro, isso poderá forçar uma melhoria salarial nessas categorias, mas hoje, o cenário é de escassez crítica de mão de obra na construção civil e no campo, mas também em lanchonetes, ajudantes de cozinha, comércio de bairro...
O Desafio do Produtor Familiar - Se na mão de obra a uberização compete com o produtor, na comercialização ela pode ser sua maior aliada. O agricultor familiar ainda é refém de uma cadeia produtiva longa: ele entrega seu produto ao dono do caminhão, que leva ao Ceasa, que revende para outro transportador, até chegar ao mercadinho da cidade e, finalmente, ao consumidor.
O desafio central para as agtechs reside em 'desintermediar' essa jornada. Ao criar pontas tecnológicas que conectam o campo diretamente ao varejo ou ao consumidor final, devolvemos a margem de lucro para quem de fato assume o risco da terra.
Além da venda, a uberização abre portas para a infraestrutura compartilhada. E que tal alugarmos horas de tratores ou debulhadeiras, ou de transporte de safra, ou colheitadeiras, para nos atender exatamente no que e pelo tempo que precisamos, sem ter que imobilizar capital? Por que não uberizar isso, pensando no produtor, independentemente do tamanho de sua propriedade? Permitir a livre concorrência e a agilidade de forma universal, é o grande salto que o agro brasileiro precisa dar para transferir renda ao pequeno produtor.
Uma Nova Era de Remuneração - Fazer a uberização do agro com responsabilidade pode nos colocar em uma nova era. Nossos pequenos produtores sabem produzir como poucos no mundo, mas muitas vezes não possuem as ferramentas para comercializar de forma estratégica.
Encurtar a distância entre o campo e a mesa não é apenas uma inovação tecnológica, é o caminho para otimizar lucros e garantir a sobrevivência de quem alimenta o país.
Um forte abraço.