O péssimo IDH
Existem, no mundo, desde 1990, duas medidas importantes para classificar a realidade socioeconômica dos diferentes países: o PIB e o IDH. O primeiro, conhecido como Produto Interno Bruto, mede a riqueza formal gerada no interior de um país, pelos residentes –sejam nativos ou estrangeiros- num determinado período de tempo. Ele é muito usado e aceito por órgãos como o FMI e o Banco Mundial, fato que o caracteriza como um indicador neoliberal (para usar a terminologia atual). Nesse índice o Brasil está muito bem colocado, devendo mesmo ocupar a 6ª posição mundial ao término de 2011 caso seu PIB feche o ano em US$ 2,4 trilhões, segundo estimativas existentes. Todavia, tal indicador tem um problema central: ele mede particularmente o crescimento da economia (a geração de riqueza), porém, está longe de refletir o desenvolvimento deste mesmo país (o qual deve ser medido igualmente pelo uso desta riqueza na melhoria do bem-estar, da qualidade de vida, da sociedade que o gerou).
Consciente desta lacuna, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) criou outro índice, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), o qual é mais completo e classifica os países do mundo conforme, não somente a geração de riqueza, mas particularmente conforme a infraestrutura existente no que tange à melhoria da qualidade de vida dos cidadãos habitantes do país. Ou seja, o IDH reflete o estágio de desenvolvimento do país, embora ainda venha sofrendo ajustes.
O péssimo IDH (II)
Pois no que diz respeito ao desenvolvimento, o Brasil, conforme o último IDH anunciado nesta semana, se encontra na 84ª posição mundial, dentre 187 países analisados. Nosso indicador é de 0,718 (quanto mais perto de um, mais desenvolvido é o país) e ainda é considerado tecnicamente como IDH elevado.
Todavia, ficamos abaixo de países como o Peru, a Venezuela, o Líbano, o Cazaquistão e a Líbia, por exemplo. Não poderia ser diferente num país onde a burocracia e a corrupção são imensas, onde as reformas do Estado não saem; e o custo deste mesmo Estado é enorme, sem retorno eficiente aos cidadãos, e onde a sociedade aprendeu e desenvolveu o “jeitinho” de viver, procurando sempre tirar vantagem em tudo em prol do individual e não do coletivo. Assim, dificilmente se avança. Aliás, desde 1990, nossa melhor posição não passou do 60º lugar.
Embora os indicadores mostrem que temos avançado, desde 2000, numa média de 0,69% a cada ano no IDH, boa parte dos demais países têm feito melhor e avançam mais, nos rebaixando na classificação geral. E um dos elementos mais contundentes sobre aonde as coisas vão mal, segundo o PNUD, é exatamente a educação, rubrica em que ficamos no 113º lugar mundial. Ou seja, não basta apenas crescer, aumentando o PIB, se não arrumarmos a casa, começando pela eliminação da corrupção e da ineficiência estatal, para transformar tal riqueza em real desenvolvimento à Nação brasileira. E, por enquanto, o governo continua falando mais do que realmente fazendo algo de concreto e eficiente nesta direção.
E as ONGs?
O recente escândalo no Ministério dos Esportes (mais um!!), trouxe à tona o papel das Organizações Não-Governamentais no país. Particularmente, tive um contato mais direto com as chamadas ONGs quando cheguei na França em 1984, para realizar meu doutorado. Naquele época, a Europa já estava tomada pela febre das ONGs.
A primeira coisa que me chamou atenção foi o fato de que, no geral, o financiamento das mesmas dependia muito do Estado. Ou seja, as mesmas não eram exatamente “não-governamentais”. A segunda coisa observada foi que o Estado francês, assim como os demais europeus, realizava um rígido controle sobre o funcionamento das mesmas. Em terceiro lugar, as mesmas, que se espalhavam pelo mundo com o intuito de “auxiliar ao desenvolvimento dos países mais pobres”, seguidamente trabalhavam com um viés errôneo sobre a realidade local e acabavam propondo ações sem objetividade para os nativos destes países. Em quarto lugar, muitos grupos organizaram as ONGs para defender interesses específicos da política dos países financiadores, sob pretexto de desenvolvimento social, salvar o meio ambiente, proteger as florestas e assim por diante.
Aliás, aqui no Brasil temos inúmeros exemplos de ONGs estrangeiras que se instalaram com tais objetivos. As mesmas aproveitaram-se da ingenuidade, da falta de informação de parte da sociedade e mesmo do legítimo desejo dos cidadãos locais em melhorar o desenvolvimento do país, para conduzirem suas ações. Enfim, pude observar que havia ONGs com importantes e sérios objetivos, com um trabalho correto e digno, assim como havia ONGs com interesses escusos, muitas vezes sustentas pelo próprio Estado. O estouro da crise das ONGs no Brasil, desta forma, não pode ser visto como novidade. O problema é que a impressão que fica é de que todas as ONGs nacionais se encontram em posição de corrupção. Talvez seja a maioria, porém, não todas.
E isso requer um trabalho eficiente do Estado para esclarecer a sociedade sobre “quem é quem” nesse contexto. O problema é que muitas ONGs têm, na direção, membros do próprio governo, onde a corrupção tem corrido solta (nos últimos 10 anos, apenas na esfera pública nacional, foram roubados do povo brasileiro nada menos do que R$ 750 bilhões via corrupção). E aí, salvo um trabalho investigativo da imprensa, não há interesse em esclarecer o que realmente fazem as ONGs no Brasil, quem elas representam e para onde se direciona o dinheiro público a elas destinado, quando é o caso.
Existem, no mundo, desde 1990, duas medidas importantes para classificar a realidade socioeconômica dos diferentes países: o PIB e o IDH. O primeiro, conhecido como Produto Interno Bruto, mede a riqueza formal gerada no interior de um país, pelos residentes –sejam nativos ou estrangeiros- num determinado período de tempo. Ele é muito usado e aceito por órgãos como o FMI e o Banco Mundial, fato que o caracteriza como um indicador neoliberal (para usar a terminologia atual). Nesse índice o Brasil está muito bem colocado, devendo mesmo ocupar a 6ª posição mundial ao término de 2011 caso seu PIB feche o ano em US$ 2,4 trilhões, segundo estimativas existentes. Todavia, tal indicador tem um problema central: ele mede particularmente o crescimento da economia (a geração de riqueza), porém, está longe de refletir o desenvolvimento deste mesmo país (o qual deve ser medido igualmente pelo uso desta riqueza na melhoria do bem-estar, da qualidade de vida, da sociedade que o gerou).
Consciente desta lacuna, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) criou outro índice, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), o qual é mais completo e classifica os países do mundo conforme, não somente a geração de riqueza, mas particularmente conforme a infraestrutura existente no que tange à melhoria da qualidade de vida dos cidadãos habitantes do país. Ou seja, o IDH reflete o estágio de desenvolvimento do país, embora ainda venha sofrendo ajustes.
O péssimo IDH (II)
Pois no que diz respeito ao desenvolvimento, o Brasil, conforme o último IDH anunciado nesta semana, se encontra na 84ª posição mundial, dentre 187 países analisados. Nosso indicador é de 0,718 (quanto mais perto de um, mais desenvolvido é o país) e ainda é considerado tecnicamente como IDH elevado.
Todavia, ficamos abaixo de países como o Peru, a Venezuela, o Líbano, o Cazaquistão e a Líbia, por exemplo. Não poderia ser diferente num país onde a burocracia e a corrupção são imensas, onde as reformas do Estado não saem; e o custo deste mesmo Estado é enorme, sem retorno eficiente aos cidadãos, e onde a sociedade aprendeu e desenvolveu o “jeitinho” de viver, procurando sempre tirar vantagem em tudo em prol do individual e não do coletivo. Assim, dificilmente se avança. Aliás, desde 1990, nossa melhor posição não passou do 60º lugar.
Embora os indicadores mostrem que temos avançado, desde 2000, numa média de 0,69% a cada ano no IDH, boa parte dos demais países têm feito melhor e avançam mais, nos rebaixando na classificação geral. E um dos elementos mais contundentes sobre aonde as coisas vão mal, segundo o PNUD, é exatamente a educação, rubrica em que ficamos no 113º lugar mundial. Ou seja, não basta apenas crescer, aumentando o PIB, se não arrumarmos a casa, começando pela eliminação da corrupção e da ineficiência estatal, para transformar tal riqueza em real desenvolvimento à Nação brasileira. E, por enquanto, o governo continua falando mais do que realmente fazendo algo de concreto e eficiente nesta direção.
E as ONGs?
O recente escândalo no Ministério dos Esportes (mais um!!), trouxe à tona o papel das Organizações Não-Governamentais no país. Particularmente, tive um contato mais direto com as chamadas ONGs quando cheguei na França em 1984, para realizar meu doutorado. Naquele época, a Europa já estava tomada pela febre das ONGs.
A primeira coisa que me chamou atenção foi o fato de que, no geral, o financiamento das mesmas dependia muito do Estado. Ou seja, as mesmas não eram exatamente “não-governamentais”. A segunda coisa observada foi que o Estado francês, assim como os demais europeus, realizava um rígido controle sobre o funcionamento das mesmas. Em terceiro lugar, as mesmas, que se espalhavam pelo mundo com o intuito de “auxiliar ao desenvolvimento dos países mais pobres”, seguidamente trabalhavam com um viés errôneo sobre a realidade local e acabavam propondo ações sem objetividade para os nativos destes países. Em quarto lugar, muitos grupos organizaram as ONGs para defender interesses específicos da política dos países financiadores, sob pretexto de desenvolvimento social, salvar o meio ambiente, proteger as florestas e assim por diante.
Aliás, aqui no Brasil temos inúmeros exemplos de ONGs estrangeiras que se instalaram com tais objetivos. As mesmas aproveitaram-se da ingenuidade, da falta de informação de parte da sociedade e mesmo do legítimo desejo dos cidadãos locais em melhorar o desenvolvimento do país, para conduzirem suas ações. Enfim, pude observar que havia ONGs com importantes e sérios objetivos, com um trabalho correto e digno, assim como havia ONGs com interesses escusos, muitas vezes sustentas pelo próprio Estado. O estouro da crise das ONGs no Brasil, desta forma, não pode ser visto como novidade. O problema é que a impressão que fica é de que todas as ONGs nacionais se encontram em posição de corrupção. Talvez seja a maioria, porém, não todas.
E isso requer um trabalho eficiente do Estado para esclarecer a sociedade sobre “quem é quem” nesse contexto. O problema é que muitas ONGs têm, na direção, membros do próprio governo, onde a corrupção tem corrido solta (nos últimos 10 anos, apenas na esfera pública nacional, foram roubados do povo brasileiro nada menos do que R$ 750 bilhões via corrupção). E aí, salvo um trabalho investigativo da imprensa, não há interesse em esclarecer o que realmente fazem as ONGs no Brasil, quem elas representam e para onde se direciona o dinheiro público a elas destinado, quando é o caso.