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Tendências 10/08/2011


Argemiro Luís Brum

Crise mundial, medidas cambiais e a bolsa

O governo dos EUA conseguiu, na última hora, aprovação do Congresso para elevar o teto do seu endividamento público. O mesmo, agora, deverá permitir ao presidente Obama chegar até o final do seu mandato em 2012. Todavia, os republicanos conseguiram o que desejavam. Impuseram uma necessária restrição aos gastos e cortes importantes, os quais podem ultrapassar US$ 2 trilhões. Isso fragilizou politicamente Obama, que pretende se reeleger nas eleições do final do próximo ano, e acabou preocupando ainda mais os mercados. Há um sentimento geral, que já havia sido alertado diversas vezes neste espaço e há muito tempo, de que a crise mundial, iniciada em 2007/08, está longe de terminar e, pior, pode crescer de intensidade novamente a partir dos problemas existentes na Europa e da nova realidade dos EUA. Essa turbulência acabou trazendo o Real para níveis muito próximos de R$ 1,50 num primeiro momento, fato que obrigou o governo brasileiro a novas medidas para conter a sobrevalorização da moeda nacional. Todavia, mais uma vez se nota que tais medidas ainda são pouco eficazes já que o problema é de natureza global. Tanto é verdade que o Real voltou a se desvalorizar nesta primeira semana de agosto, chegando a R$ 1,58, mais pela saída de dólares do país, diante do recrudescimento da crise internacional, do que propriamente pelas medidas governamentais no Brasil. A comprovação vem das bolsas de valores, que despencaram nesta semana, com a Bovespa, somente na quinta-feira (04/08), perdendo mais de 5%. No total do ano, nossa bolsa de valores já perdeu ao redor de 20%, obrigando os aplicadores a gerarem mais paciência até poderem vender com algum lucro seus ativos de longo prazo. Aliás, desde maio de 2008, quando bateu no seu ponto mais elevado (um pouco mais de 73.000 pontos), a Bovespa nunca mais chegou a tal nível. Hoje, ao redor de 52.000 pontos será preciso uma reversão muito grande de expectativas para que o mercado bursátil volte àqueles níveis passados. Mas, para quem puder, o momento, novamente, não é de vender suas ações.

Aumenta a transgenia no Brasil

Segundo estudo divulgado pela consultoria Céleres, houve um aumento de 13,4% na área de soja transgênica para 2011/12 no Brasil. Assim, serão 20,8 milhões de hectares semeados com esta semente, o que representa 82,7% da área total de soja brasileira prevista. Hoje há quatro tecnologias liberadas no Brasil entre tolerância a herbicidas, resistência a insetos e combinadas. A maior novidade está no fato de que o Centro-Oeste, com 8,8 milhões de hectares, ultrapassaria pela primeira vez o Sul em valores absolutos de área destinada à soja transgênica. Já o algodão transgênico, que teve três novas variedades aprovadas no ano passado, ocupará 606 mil hectares, equivalentes a 39% dos campos da cultura (um aumento de 62,7% sobre o ciclo anterior). Há atualmente à disposição dos agricultores sementes de algodão com os três tipos de tecnologia mencionados anteriormente. No caso do milho, os híbridos transgênicos estarão presentes em 9,1 milhões de hectares, ou 64,9% da área, incluindo as safras de verão (4,5 milhões de hectares, ou 54% da área) e de inverno (4,6 milhões de hectares, o equivalente a 80,4% da área destinada à cultura). O Brasil já dispõe de 16 variedades aprovadas nas três categorias antes indicadas. Ou seja, como já defendíamos na segunda metade dos anos de 1990, quando o assunto foi ideologicamente polemizado no Rio Grande do Sul, se a ciência aprova e a economia responde positivamente, é um retrocesso monumental ir contra a evolução tecnológica, mesmo que o processo exija os cuidados necessários de toda a novidade. A realidade atual comprova isso. Todavia, parte do Brasil demorou a compreender isso (e alguns ainda resistem aos fatos), o que nos mantém deixa atrasados em relação ao resto do mundo.

Safra de verão diferente (?)

O alerta de que a futura safra de verão, em especial a da soja, dificilmente seria tão boa quanto a última, começa a se justificar, infelizmente. Associar, ao mesmo tempo, preços altos, custos de produção baixos e clima ideal, é muito raro. Assim, para 2011/12 já temos um primeiro sinal de que as coisas mudam. Tomando por referência os custos de produção do Mato Grosso, nota-se que a safra de soja será mais cara. Sem falar que, por enquanto, os preços médios da oleaginosa recuaram em relação ao auge obtido no início de 2011. Desta forma, segundo o Imea (Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária), os produtores daquele Estado vão gastar 22 sacos de soja para cobrir os custos com insumos -semente, defensivo e fertilizante- na safra 2011/12. O custo é 22% superior ao de março, quando a previsão era de 18 sacos. Apenas no mês de julho, os fertilizantes ficaram 7,6% mais caros do que em junho. No acumulado de 12 meses, a elevação é de 60%. Os dados de Sorriso, no médio norte de Mato Grosso, indicam que os produtores vão gastar R$ 848,00 por hectare com insumos -os fertilizantes representam 59% desse custo, os defensivos 26%, e as sementes 15%. O custo total sobe para R$ 1.652/hectare na safra 2011/12 em Sorriso, ou seja, um aumento de 17% em relação aos gastos estimados em julho de 2010. O Imea prevê que os custos de operações agrícolas (aplicações, colheita etc.) subam para R$ 1.016,00, ou seja, 15% acima do registrado em 2010. Os dados são preliminares, e os produtores que não garantiram os insumos podem ter custos maiores, já que a tendência é de alta. Guardadas as proporções, essa realidade serve para todo o Brasil.   
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