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Tendências 12/07/2011


Argemiro Luís Brum
Inflação mensal cede mas a anual aumenta

Confirmando a tendência por nós indicada há algumas semanas, a inflação anual, após fechado o primeiro semestre de 2011, continuou subindo. A mesma ficou em 6,71% entre julho/10 e junho/11, fruto do fato de que o IPCA de junho ter alcançado 0,15% contra 0,00% em junho/10. Salvo uma deflação em julho e agosto próximos, o acumulado anual deverá continuar subindo, talvez atingindo os 7%. A boa notícia é que o ritmo inflacionário cedeu bastante em junho, após ter batido em 0,83% em janeiro e mesmo 0,77% em abril passado. Mesmo assim, a inflação oficial no primeiro semestre deste ano fechou em 3,87%, contra 3,09% observada no mesmo período de 2010. E os 6,71% de agora é o maior índice anual desde 2005. Nesse contexto, o Copom deverá continuar aumentando a taxa Selic, já que o remédio começa a fazer efeito, além de cortar o crédito. Afinal, o centro da meta inflacionária é de 4,5% ao ano, com o teto em 6,5% anuais, e o governo visa voltar ao centro da meta em 2012 já que neste ano será impossível. Ou seja, em termos de inflação as coisas melhoram lentamente, porém, o aperto na economia ainda continuará no segundo semestre.

A contradição balança comercial x câmbio

Fechado o primeiro semestre de 2011, constata-se que a balança comercial obteve um excelente superávit no período. E isso quando o Real chega a R$ 1,55 por dólar, se traduzindo na maior sobrevalorização desde a implantação do câmbio flexível, em janeiro de 1999. No acumulado dos primeiros seis meses do ano as exportações alcançaram US$ 118,3 bilhões, o que representa um ganho de 32,6% sobre o obtido em igual período do ano passado. Já as importações atingiram a US$ 105,3 bilhões, ou seja, 29,5% acima do registrado no primeiro semestre de 2010. Com isso, o saldo comercial positivo atingiu a US$ 13 bilhões, crescendo nada menos que 64,6% sobre igual período do ano passado. Nesse mesmo período, o Real se sobrevalorizou em 13,3%, passando de R$ 1,80 em 30 de junho de 2010, para R$ 1,56 em 30 de junho de 2011. Essa contradição entre a sobrevalorização do Real e o aumento do saldo comercial (na teoria deveríamos importar mais do que exportar) confirma aquilo que já comentamos em outras oportunidades. Além da forte concentração de empresas (as 100 maiores empresas no país exportam mais de 90% de tudo que vendemos ao exterior) e da concentração das vendas em poucos produtos ou cadeias de produtos, as empresas que se mantêm no mercado externo são aquelas que estão conseguindo importar componentes para seus produtos, baixando o custo de produção graças ao câmbio, fato que torna ainda competitivo o seu produto final mesmo com um Real cada vez mais sobrevalorizado. Pelo sim ou pelo não, o fato é que a situação cambial chegou a um extremo insustentável, obrigando o governo a adotar novas medidas, as quais deverão vir à tona ainda em julho. Todavia, não se espere que saiamos do sistema de câmbio flexível, pelo qual o valor de nossa moeda em relação ao dólar é ditado pela oferta e demanda da moeda estadunidense. O que deverá vir são medidas ligadas ao aumento do IOF sobre operações financeiras externas, além de medidas ligadas ao mercado futuro e aos derivativos, como, aliás, o próprio ministro Mantega anuncia. Nessas condições, os empresários devem tomar cuidado para não tomarem excessivamente crédito no exterior e ficarem endividados em dólar.

O BNDES não é para issso

Na página de apresentação do site do BNDES, lê-se: “O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), empresa pública federal, é hoje o principal instrumento de financiamento de longo prazo para a realização de investimentos em todos os segmentos da economia, em uma política que inclui as dimensões social, regional e ambiental. Desde a sua fundação, em 1952, o BNDES se destaca no apoio à agricultura, indústria, infraestrutura e comércio e serviços, oferecendo condições especiais para micro, pequenas e médias empresas. O Banco também vem implementando linhas de investimentos sociais, direcionados para educação e saúde, agricultura familiar, saneamento básico e transporte urbano. O apoio do BNDES se dá por meio de financiamentos a projetos de investimentos, aquisição de equipamentos e exportação de bens e serviços. Além disso, o Banco atua no fortalecimento da estrutura de capital das empresas privadas e destina financiamentos não reembolsáveis a projetos que contribuam para o desenvolvimento social, cultural e tecnológico. Em seu Planejamento Corporativo 2009/2014, o BNDES elegeu a inovação, o desenvolvimento local e regional e o desenvolvimento socioambiental como os aspectos mais importantes do fomento econômico no contexto atual, e que devem ser promovidos e enfatizados em todos os empreendimentos apoiados pelo Banco. Assim, o BNDES reforça o compromisso histórico com o desenvolvimento de toda a sociedade brasileira, em alinhamento com os desafios mais urgentes da dinâmica social e econômica contemporânea.” Portanto, muito do que ele vem fazendo nos últimos tempos não se coaduna com seus objetivos. Desde financiar empresas estrangeiras no exterior, até se envolver em um negócio entre supermercados privados. A briga entre os Grupos Pão de Açúcar (Brasil) e os franceses Carrefour e Casino é uma situação típica de mercado em que o Banco estatal não tem nada o que fazer. Estamos diante da nítida impressão de que o governo brasileiro está se intrometendo, mais uma vez, num negócio privado, na tentativa de viabilizá-lo, se mostrando disposto a intervir em favor do Carrefour em detrimento ao Casino, visando facilitar a vida da direção do Pão de Açúcar, que não tem nada de pequena ou média empresa. E, em agindo desta forma, mais uma vez estamos diante do desvirtuamento do papel da instituição, conforme ela mesma faz questão de apontar em seu site.  
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