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Tendências 27/02/2012


Argemiro Luís Brum
O financeiro continua superando

No ano passado, mais uma vez, o setor produtivo agropecuário enfrentou dificuldades em relação às aplicações financeiras, as quais são especulativas por excelência. Com exceção da Bolsa de Valores, que registrou uma perda de 18,1% no ano (o terceiro pior desempenho desde 1994), o dólar ganhou 12,5%, o ouro 15,85%, os CDBs 11,8% e a caderneta de poupança 7,3%.


Enquanto isso, a inflação nacional, medida pelo IPCA, ficou em 6,5%, e aquela medida pelo IGP-M registrou 5,1%. Enquanto isso, a soja gaúcha perdeu 5,8%, o suíno 8,1% e o feijão 5,9%. Dos produtos que tiveram uma performance positiva, o arroz (+0,6%) e o trigo (+4%) devem ser relativizados, pois o primeiro apenas conseguiu se recuperar no final do ano e, assim mesmo, seu valor somente se equiparou ao preço mínimo oficial. Já o trigo, esteve sempre abaixo do preço mínimo, terminando o ano sem mercado na maioria das regiões gaúchas.

Enfim, três produtos se destacaram positivamente, porém, abaixo dos ganhos financeiros mais importantes. O milho ganhou 10%, o leite 11% e o boi gordo 6,3%. No setor industrial e de serviços, salvo honrosas exceções, também não existe produção que resulte em ganho líquido que se iguale aos ganhos financeiros. Soma-se a isso o peso do custo do Estado sobre o processo produtivo, e o círculo se fecha. Esse contrassenso brasileiro, que dura anos e anos, precisa ser revertido se quisermos melhorar a economia e gerarmos um real desenvolvimento sustentável. Todavia, não se vislumbra nenhum movimento em nossas políticas econômicas que indiquem essa mudança. Assim, continua sendo mais interessante colocar o dinheiro no financeiro do que na produção, o que não ajuda em nada a real economia do país.

2012 à vista

A conceituada revista Conjuntura Econômica (FGV-Rio de Janeiro), em seu número de dezembro passado, publicou uma série de análises junto a economistas brasileiros, alguns já tendo ocupado cargos públicos, procurando identificar o que poderá ocorrer em 2012 com a nossa economia. Pela importância do assunto, vamos comentar nesse espaço algumas destas opiniões. Para o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, “tudo dependerá da evolução da crise europeia”, capítulo importante da grande crise iniciada em 2007/08. Nesse momento, a Grécia, centro do problema imediato, aprovou o novo pacote de medidas restritivas a serem adotadas em troca de empréstimos.


Resta esperar que tal pacote seja cumprido, embora o mesmo gere dúvidas quanto a sua eficácia por ser socialmente muito duro. Assim, o mundo ainda viverá um ano conturbado. No front interno, “dificilmente o governo cumprirá a promessa de fazer a inflação convergir para a meta”. De fato, a partir de maio próximo, para fazê-lo, terá que reduzir o crédito disponibilizado à sociedade e ele próprio gastar menos. Em o fazendo, segura o crescimento ao redor de 3%-3,5%, fato que gerará menos empregos. Em não o fazendo, a inflação volta a subir! E não podemos esquecer que estamos em ano de eleições municipais gerais.

Comprometer a estabilidade futura por um crescimento econômico imediato seria um grave erro. Esperemos que a demagogia e o populismo eleitoral não contaminem o governo como foi o caso no final da era Lula. Se não houver tal contaminação, a Selic tende a voltar a subir no segundo semestre, buscando salvaguardar a economia em 2013. Assim, na melhor das hipóteses, fecharemos 2012 com uma Selic ao redor de 9,5% e na pior das hipóteses em 11,5%. O grande problema, no contexto atual, “é que o governo tenta fazer a economia crescer mais do que pode”, pois nos falta infraestrutura.

2012 à vista (II)

Para o economista José Camargo (PUC-Rio de Janeiro), essa situação pode levar a “pressão inflacionária maior do que a esperada, gerando o retorno de algum tipo de indexação da economia”. Se isso vier a ocorrer, estaremos iniciando um retrocesso ao que tínhamos antes do Plano Real. Por sua vez, o ex-ministro Delfim Netto, acredita que “o mundo irá piorar, porém, se o Brasil continuar reduzindo os juros o país poderá crescer pelo menos algo entre 3% e 3,5% nesse novo ano.” De fato, essa é a questão central: insistir no estímulo a economia, via redução de juros e outros mecanismos, para manter pelo menos um crescimento nesses níveis – o que é ainda muito baixo para as necessidades do país – e correr o risco de alimentar um processo inflacionário perigoso, ou realizar o contrário? Pelo sim ou pelo não, se o governo conseguir reduzir os juros, sem provocar um aceleramento da inflação (é possível, cortando fundo nos gastos públicos), parte do capital privado pode sair da especulação e vir a irrigar a produção nacional, o que se torna um ponto positivo importante.


Nesta lógica, o ex-presidente do Banco Central do Brasil, Armínio Fraga, destaca, com razão, de que o grande passo positivo a ser dado neste novo ano “deveria ser o governo consumir menos e fazer mais investimentos”. A questão é: como fazer isso, de forma duradoura e competente, se as reformas estruturais não avançam?
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