CI

Valor Econômico da Polinização


Decio Luiz Gazzoni

            A polinização é o processo que viabiliza a transferência dos gametas masculinos –contidos no pólen produzido nas anteras - para a estrutura feminina, o estigma, a fim de que ocorra a fertilização e, consequentemente, a produção de sementes, grãos e frutos. Esse serviço ecossistêmico que a Natureza presta à Humanidade é essencial tanto para a agricultura, quanto para a flora nativa – e é gratuito! Mas seu valor pode ser estimado, como veremos a seguir.

            As tentativas de quantificar monetariamente o valor dos serviços de polinização para a agricultura global remontam ao trabalho pioneiro de Southwick nos Estados Unidos, em 1992, e ganharam escala global com os estudos de Costanza a partir de 1997, envolvendo o conjunto de serviços ecossistêmicos. Desde então, estimativas cada vez mais robustas têm sido produzidas, culminando na avaliação abrangente conduzida pela Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES).

            De acordo com o relatório de avaliação de polinizadores do IPBES, publicado em 2016, o valor econômico anual da polinização animal para a agricultura global varia entre US$ 235 e US$ 577 bilhões (em valores de 2015), representando uma fração significativa do valor total da produção agrícola global, estimado em aproximadamente US$ 3 trilhões por ano. A equipe do professor Gallai estimou que 35% do volume global de produção de alimentos para consumo humano depende de polinizadores animais.

 

Contribuição regional

            Culturas como frutas, castanhas, oleaginosas e fibras apresentam maior dependência e são diretamente beneficiadas pela polinização. Além do impacto econômico, a pesquisa de Giannini ressalta a importância da conservação dos polinizadores para garantir a segurança alimentar e a sustentabilidade da agricultura, especialmente diante dos desafios das mudanças climáticas e da expansão do uso da terra.

            No Brasil, a contribuição financeira da polinização para a agricultura é estimada em cerca de 30% do valor total da produção agrícola das culturas que dependem de polinizadores, o que corresponde a mais de US$12 bilhões por ano. Este número foi obtido nos estudos da professora da USP Tereza Cristina Giannini, em 2015, analisando 141 culturas agrícolas no Brasil, das quais 85 dependem de polinizadores. Cerca de um terço dessas culturas tem dependência essencial ou alta dos polinizadores para sua produção.

            Nos Estados Unidos, 30% do abastecimento alimentar depende de polinizadores animais sendo as diversas espécies de abelhas os mais importantes agentes de polinização, sendo a contribuição dos polinizadores avaliada entre US$ 15 e US$ 20 bilhões, em cada safra. Muitos agricultores norte-americanos dependem de colônias da abelha europeia (Apis mellifera), que são introduzidas temporariamente nas plantações para realizar a polinização durante a floração, especialmente no cultivo de amêndoas e frutas. Para tanto, centenas de milhares de colmeias são transportadas por milhares de quilômetros entre as costas Leste e Oeste dos Estados Unidos, para atender a demanda de polinização

            Na União Europeia, os estudos do prof. Gallai estimaram a contribuição da polinização em € 14–22 bilhões. Uma análise complementar feita pelo professor Garibaldi, em 2016, estimou que o declínio nas populações de abelhas selvagens já documentado na Europa e na América do Norte, resultou em uma redução mensurável da produção de culturas sensíveis à polinização, com perdas médias de 3 a 8 % da produção regional de frutas e vegetais em comparação com o potencial projetado sob polinização plena.

            Na China, que possui a maior produção apícola do mundo, o valor da polinização foi estimado em US$ 2,4–5,2 bilhões. Ressaltando que todos os valores mencionados acima representam apenas a contribuição direta para a produção agrícola, e não incluem os serviços de polinização para a manutenção da biodiversidade e dos ecossistemas naturais, cujo valor é difícil de quantificar, mas é amplamente reconhecido como substancialmente maior.

 

Polinização e qualidade dos alimentos

            Um aspecto frequentemente subestimado nas avaliações econômicas é o efeito da polinização na qualidade dos alimentos. No caso do girassol e da canola, os polinizadores não apenas aumentam a quantidade de produto colhido, mas também melhoram o teor de óleo, proteína, vitaminas e outros componentes nutricionais das culturas. O grupo do professor Garibaldi demonstrou que a polinização por insetos eleva o teor de vitamina C, licopeno, beta-caroteno e antocianinas em frutas e hortaliças, com implicações diretas para a saúde pública que não são capturadas por estimativas puramente quantitativas do valor da produção.

            O professor Gallai observa que o valor médio de mercado das culturas que não dependem da polinização por insetos, como cereais e outros grãos, atingiu um valor médio de comercialização de €151/t, enquanto os produtos que dependem de polinizadores atingiram uma média de €761/t — aproximadamente cinco vezes maior. Este resultado é bastante lógico, uma vez que os principais produtos dependentes da polinização são frutas e hortaliças, que possuem um valor de mercado consideravelmente superior ao dos grãos. É principalmente em frutas e hortaliças que a polinização por animais melhora a sua qualidade.

 

Polinização e segurança alimentar

            Uma dimensão pouco quantificada do valor global dos serviços de polinização é a sua contribuição para a segurança alimentar e a saúde das populações humanas. Um estudo de modelagem matemática relacionou as trajetórias de abastecimento alimentar dependentes de polinizadores às projeções de anos de vida ajustados, estimando que uma redução de 50% nos serviços de polinização aumentaria a incidência de doenças por deficiência de micronutrientes — incluindo deficiência de vitamina A, anemia por deficiência de ferro e deficiência de folato — em um total de 1,42 milhão de por ano em todo o mundo, concentradas na África Subsaariana e no Sul da Ásia. É importante ressaltar que esses impactos na saúde se propagariam não apenas pela redução da disponibilidade de frutas e vegetais, mas também pela redução da produção de leguminosas e oleaginosas ricas em zinco, ferro e ácidos graxos essenciais.

            No Brasil, onde o consumo per capita de frutas e verduras já está abaixo dos níveis recomendados pela OMS em vários estados, qualquer redução adicional na produção apoiada por polinizadores exacerbaria as disparidades nutricionais existentes, com maior impacto nas populações periurbanas e rurais de baixa renda, cujas dietas já são pobres em diversidade de micronutrientes.

            Pelo exposto, fica evidente a importância capital da polinização para a produção agrícola, rentabilidade dos agricultores, para a qualidade dos alimentos e segurança alimentar, sendo fundamental que a produção agrícola seja integrada com os polinizadores, especialmente as abelhas, que vivem no entorno das áreas de produção agrícola.

 

O autor é engenheiro agrônomo, membro da Academia Brasileira de Ciência Agronômica.

Assine a nossa newsletter e receba nossas notícias e informações direto no seu email

Usamos cookies para armazenar informações sobre como você usa o site para tornar sua experiência personalizada. Leia os nossos Termos de Uso e a Privacidade.

2b98f7e1-9590-46d7-af32-2c8a921a53c7