Apesar de o Brasil estar conseguindo enfrentar a crise mundial relativamente bem nestes últimos cinco anos, o que temos assistido é o uso de estratégias de curto prazo, enquanto elementos estruturais continuam minando a sustentabilidade do modelo econômico existente no país. A reação do governo diante do Real sobrevalorizado corrobora a falta ou a impossibilidade de usarmos estratégias de longo prazo. Um problema que vem se acumulando nos últimos anos é o déficit na balança de transações correntes.
Essa balança faz parte da Balança de Pagamentos e está composta da balança comercial, da balança de serviços e da balança de transações unilaterais. Ela retrata, juntamente com a conta de capitais, as relações do país com o resto do mundo. Um déficit na balança de transações correntes necessariamente precisa ser compensado por um superávit equivalente na conta de capitais para manter em equilíbrio a balança de pagamentos do país. Pois bem, no ano passado o Brasil acusou um déficit recorde na balança de transações correntes, da ordem de US$ 52,6 bilhões, após um rombo de US$ 47,3 bilhões em 2010. Para 2012 o governo já trabalha com um déficit de US$ 65 bilhões, enquanto analistas privados chegam a avançar a cifra de US$ 74 bilhões (nos dois primeiros meses de 2012 o déficit já atingiu a US$ 8,8 bilhões). Ora, tal valor é muito alto e precisa ser financiado através de recursos oriundos do mercado externo.
Falta-nos estratégia de longo prazo (II)
Por enquanto, graças a forte liquidez jogada no mercado pelos EUA e a União Europeia, buscando sair da crise, o Brasil tem encontrado os recursos necessários. A ponto do Real se valorizar em demasia, obrigando o governo a adotar medidas emergenciais de contenção à entrada de dólares no país. Há ainda um volume significativo de reservas cambiais, na casa de US$ 356 bilhões, que ajudam a sustentar, por enquanto, o resultado negativo das transações correntes. O problema será quando encurtar a liquidez internacional, a partir da solução da crise mundial. Por não termos feito o dever de casa, e ainda nem esboçarmos um movimento consistente nesse sentido (a crise do setor público de outros países não está sendo aprendida), o Brasil não tem poupança, ao mesmo tempo em que o gasto público não para de crescer. Isso não permite investimentos que alavanquem um crescimento econômico sustentável e adequado, fato que impede o desenvolvimento (não havendo poupança, não há investimentos e não há educação, o que implica em quase nenhum desenvolvimento tecnológico, que implica em baixa produção média, que nos leva a baixa produtividade, e nos puxa para a estagnação econômica comparativa). Esta bolha vai estourar e a crise irá cair em nosso colo. Para evitarmos isso, o déficit em transações correntes tem que ser corrigido, o que exige um Estado mais eficiente. Para tanto, necessitamos de uma estratégia de longo prazo e não apenas medidas imediatistas “de apagar incêndio” que não curam a doença e sim apenas combatem a febre que está sendo gerada por uma doença que está inviabilizando o país.
Preços da soja muito bons
Os preços da soja melhoraram substancialmente nestas últimas semanas. Alguns fatores explicam isso: 1) a seca no sul da América do Sul, que deverá fazer a região perder entre 10 a 15 milhões de toneladas nesta safra; 2) a volta dos Fundos especulativos na ponta compradora na Bolsa de Chicago; 3) as cotações, nessa Bolsa, chegando acima de US$ 13,50/bushel no momento, puxadas por esses fatores e mais a intenção de estimular os produtores dos EUA a plantarem mais área com soja em 2012; 4) regionalmente, a forte quebra de safra no Rio Grande do Sul, onde a produção poderá ser menor entre 50% a 70% do inicialmente esperado (incluindo, nesse último caso, a qualidade dos grãos colhidos); e, finalmente, 5) a desvalorização momentânea do Real, provocada pela intervenção do governo nessas últimas duas semanas. Esse conjunto de fatores trouxe os preços da oleaginosa, no mercado gaúcho, a valores médios de R$ 46,50/saco no balcão, nesta semana.
Os lotes alcançaram valores ao redor de R$ 52,00 a R$ 53,00/saco no interior do Estado. No ano passado, nesta mesma época, o balcão gaúcho pagava R$ 43,88/saco, enquanto os lotes oscilavam entre R$ 46,50 e R$ 47,00/saco. Infelizmente, para os produtores que perderam grande parte da safra devido ao clima (maioria dos gaúchos, parte de catarinenses e paranaenses) tais preços não compensam as perdas físicas. De fato, considerando a produtividade média estadual e o preço médio de balcão em meados de março, para 2011 e 2012, a perda financeira bruta dos produtores atingidos pela seca chega a 42% na atual colheita. Todavia, para aqueles que terão uma safra normal (o restante do país), os ganhos proporcionais acabarão sendo melhores do que os projetados inicialmente.