Correntemente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Instituto de Economia Agrícola (IEA/SP), o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a Organização das Nações Unidades para Agricultura e Alimentação (FAO, da sigla em inglês), o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, da sigla em inglês), et cætera, emitem periodicamente seus relatórios, análises ou pareceres antevendo comportamentos evolutivos para o agronegócio. Entretanto, essa diversidade orgânica, ainda que construtiva para a pluralização da informação, origina uma grande hesitação conceitual quanto à terminologia do que ajuizamos por pecuária, agricultura, agropecuária, agronegócio da pecuária, agronegócio da agricultura, agronegócio da agropecuária, agronegócio global, entre outros. Além disso, as divergências metodológicas existentes entre as entidades acarretam, em princípio, uma considerável variabilidade no cômputo das estimativas de preços, produção, produtividade, área plantada e parcela de participação do agronegócio no Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
Para se ter idéia da variabilidade (ou indolência) numérica, dados divulgados pela Conab apontam que, segundo avaliação da FAO, depois de uma produção recorde em 2008, a crise mundial reduzirá em 2009 a safra de trigo nos Estados Unidos. Todavia, o USDA, em janeiro, divulgou uma projeção diametralmente oposta aos dados da Conab, ou seja, uma projeção de aumento de 21,87% na produção de trigo daquele país para safra 2009, chegando a 68,03 milhões de toneladas, ante os 55,82 milhões da safra anterior.
Igualmente paradoxal são as projeções da Conab e do USDA, por exemplo, para a produção brasileira de arroz. Para a Conab, a produção do grão no Brasil (safra 2008/2009) – quarto levantamento/janeiro de 2009 – será de 12.177,1 toneladas; entretanto, para o USDA, a safra ficará em 8,3 milhões de toneladas. Discrepâncias análogas são também verificadas nas estimativas de produção para outros cultivares como trigo, soja e algodão. Outrossim, amorfas são as estimativas da produção total brasileira de grãos para 2008/2009. Segundo a Conab, – excluindo-se algodão em pluma – a produção será de 137.033,8 toneladas, ou seja, queda de 4,9% em relação à safra anterior; já para o USDA, a safra brasileira de grãos ficará em 135,6 milhões de toneladas; queda de 6,42%. Por outro lado, para o IBGE, o saldo no ano atingirá 137,3 milhões de toneladas, logo, 5,9% menor que a do ano passado (145,8 milhões de toneladas)
No que tange à evolução do Produto Interno Bruto do agronegócio, a situação não é diferente. Para exemplificar, em 2003, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) projetava a participação do agronegócio no PIB em 31%; já o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) estimava em 33% e, para esse mesmo ano, o Cepea indicava 28,79% de participação do setor. Saltando para 2007, a CNA, através da sua superintendência técnica, divulgou que o agronegócio representava 23,07% da economia brasileira, ante 22,4% em 2006; o Cepea, no mesmo ano, estimava participação de 25,11% e de 24.3% em 2006 - e isso considerando que Cepea e CNA são parceiros na divulgação das mensurações e estimativas agropecuárias. Destarte, é justo considerar que a metodologia utilizada pelo Cepea para o cálculo do PIB envolve tanto a evolução do volume produzido como dos preços de cada agregado. Os volumes dos segmentos agropecuários são medidos pelas previsões (a maioria das vezes dissonantes) de safra realizadas pelo IBGE e pela Conab para os meses de janeiro a novembro, assim como pela produção observada em dezembro. Para os segmentos industriais, os volumes se referem às produções acumuladas nos últimos 12 meses, divulgados pelo IBGE e as variações em volume são medidas estimativas disponíveis a cada mês referente ao corrente ano.
Em vista disso, para afinar o discurso e apaziguar as almas de Hermann Conring, Gottfried Achenwall, Johann Peter Süssmilch, John Graunt e William Petty – considerados fundadores da Estatística –, atualmente, Cepea e CNA, andam divulgam unissonamente uma participação em torno de 24% para o agronegócio no PIB nacional. Então, se ambos estiverem mesmo congraçados nessa projeção, será que podemos parafrasear os reis católicos Fernando II de Aragão e Isabel de Castela e considerar que, finalmente, em matéria de divulgação do PIB do agronegócio "tanto monta, monta tanto" ?