Dívida interna: por que a preocupação?
A dívida interna brasileira, na casa de R$ 1,73 trilhão (US$ 1,1 trilhão ao câmbio de hoje) representa 47% do PIB anual do país. Nos EUA, a mesma chega a 99,5% do PIB e na Grécia, onde o Estado já “quebrou”, a mesma atinge mais de 180% do PIB anual nesse momento. Assim, se poderia considerar que a dívida interna brasileira está sob controle. Por enquanto, e em parte, até pode se admitir tal raciocínio. Todavia, duas nuances a respeito justificam a preocupação existente na sociedade diante do problema. Em primeiro lugar, ao contrário dos EUA, o Brasil não possui liquidez suficiente para fazer frente a uma dívida crescente, pois o Real não é a moeda de referência da economia mundial. Com isso, a emissão de moeda não pode ser uma solução ao problema, como fazem os EUA. Em segundo lugar, o ritmo de crescimento de nossa dívida pública é assustador.
Apenas a dívida pública federal (que representa 92,5% do total) cresceu 157% nos oito anos do governo Lula, se estabelecendo em R$ 1,6 trilhão no final de 2010. Nos oito anos anteriores (1995 a 2002) a mesma já havia sido multiplicada por 5,7 vezes, passando de R$ 108,5 bilhões para R$ 623,2 bilhões. Enquanto isso, nos últimos oito anos (2003 a 2010) o total das receitas do Tesouro Nacional pulou de R$ 328,2 bilhões para R$ 853,1 bilhões, ou seja, um crescimento de 160% no período. Embora esta pequena melhoria entre dívida e receita, a relação entre as duas se manteve em 1,89, ou seja, para cada real de receita o país deve 1,89 sob forma de dívida pública federal (ainda falta contar aí a dívida dos Estados, dos municípios e das estatais). Assim, enquanto o Estado não passar por reformas efetivas, seu custo continuará a exigir um financiamento via a venda de títulos públicos, o qual gera grande parte desta dívida pública. Isso explica o constante aumento da carga tributária federal, amordaçando a economia nacional, já que o total da receita fiscal federal, no final de 2010, representava 95% da receita total do Tesouro Nacional.
Mas o pior ainda não foi dito: as despesas do Tesouro Nacional são maiores do que a receita e apenas auxiliam a pagar os juros da dívida pública. Aos juros ainda se somam as despesas de pessoal e encargos sociais, mais as transferências a Estados e municípios. No primeiro caso, o crescimento foi de 150% nos oito anos do presidente Lula. No segundo caso, o aumento chegou a 165%. Com isso, antes mesmo de pagar o capital da dívida interna pública federal, o rombo no caixa do Tesouro Nacional passou de R$ 9,7 bilhões no final de 2002, para R$ 53,8 bilhões no final de 2010. Urge, portanto, realizar economias estruturais, pois a estabilização econômica não se sustentará muito tempo somente via o controle da inflação.
Juros e inflação
O IPCA (índice oficial que mede a inflação brasileira) recuou bastante em maio, se comparado com abril, passando de 0,77% para 0,47% no período. Ao mesmo tempo, maio deste ano ficou apenas um pouco acima da inflação de maio/10, que foi de 0,43%. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses continuou subindo, porém, em ritmo menor, atingindo a 6,55% no momento. Todavia, a tendência para os próximos três meses continua difícil, já que o IPCA mensal, para igualar a performance de 2010, terá que ficar tão somente entre 0% e 0,04%, o que parece impossível. Assim, existem ainda componentes altistas para a inflação nacional, ao mesmo tempo em que se nota uma continuidade na demanda por crédito e, portanto, no consumo, mesmo com os juros já tendo aumentado bastante. Esse quadro, somado ao fato de que o governo já mira 2012, quando o objetivo é segurar a inflação anual em 4,5% (o centro da meta), explica o novo aumento na taxa Selic nesta semana. Já esperada pelo mercado, a mesma sobe para 12,25% anuais, devendo aumentar um pouco mais ainda na próxima reunião do Copom. Ou seja, o remédio é amargo após os excessos consumistas e de crédito ofertados pelo governo em 2010. Paralelamente, tal movimento de correção de rota, confirma outras duas situações: a economia freia e caminha para um crescimento anual de 4% ao final deste ano, gerando um aumento no desemprego em relação a 2010; e a alta dos juros estimula a entrada de dólares no país, mantendo o Real sobrevalorizado ao redor de R$ 1,58 por dólar, contra uma paridade de poder de compra que indica um valor ideal ao redor de R$ 2,20. Em síntese: o cenário econômico mudou completamente e assim deverá continuar por um bom tempo.
Inflação: um problema mundial
E não é somente no Brasil que o fenômeno inflacionário acontece. No afã de recuperar a economia, o crédito foi liberado fortemente, em muitos casos com juros próximos de zero por cento ao ano. Agora, diante da resposta da demanda, os preços internacionais sobem puxando os índices inflacionários. Na Índia, outro dos grandes emergentes deste mundo, a inflação anual em abril bateu em 8,66% contra o teto de 5,5% estabelecido pela meta do governo local. Como no Brasil, o governo indiano aumenta os juros e freia a economia para impedir que a chaga inflacionária ganhe corpo. No Reino-Unido, a inflação bateu em 4,5% ao ano neste último mês de abril, após ter atingido apenas 1% em meados de 2009. Na China, hoje o maior consumidor mundial, diante da anemia econômica dos EUA, a inflação local já bate em 5,3% ao ano, contra 2% negativos em meados de 2009. Em outras palavras, jamais a inflação estará eliminada e todo o cuidado é pouco. Hoje, o mundo se pergunta até quando a retomada nefasta dos preços irá durar e como se agirá para contê-la. Por enquanto, os juros elevados têm sido a arma imediata. Todavia, o mundo está mirando na redução dos preços das matérias-primas até o final do ano. E não poderia ser diferente! Na medida em que todos combatem a alta dos preços, freando parcialmente suas economias, a demanda mundial tende a reduzir, forçando uma queda nos preços das commodities em geral. Os próximos meses serão decisivos para se verificar se tal quadro efetivamente irá se confirmar.
A dívida interna brasileira, na casa de R$ 1,73 trilhão (US$ 1,1 trilhão ao câmbio de hoje) representa 47% do PIB anual do país. Nos EUA, a mesma chega a 99,5% do PIB e na Grécia, onde o Estado já “quebrou”, a mesma atinge mais de 180% do PIB anual nesse momento. Assim, se poderia considerar que a dívida interna brasileira está sob controle. Por enquanto, e em parte, até pode se admitir tal raciocínio. Todavia, duas nuances a respeito justificam a preocupação existente na sociedade diante do problema. Em primeiro lugar, ao contrário dos EUA, o Brasil não possui liquidez suficiente para fazer frente a uma dívida crescente, pois o Real não é a moeda de referência da economia mundial. Com isso, a emissão de moeda não pode ser uma solução ao problema, como fazem os EUA. Em segundo lugar, o ritmo de crescimento de nossa dívida pública é assustador.
Apenas a dívida pública federal (que representa 92,5% do total) cresceu 157% nos oito anos do governo Lula, se estabelecendo em R$ 1,6 trilhão no final de 2010. Nos oito anos anteriores (1995 a 2002) a mesma já havia sido multiplicada por 5,7 vezes, passando de R$ 108,5 bilhões para R$ 623,2 bilhões. Enquanto isso, nos últimos oito anos (2003 a 2010) o total das receitas do Tesouro Nacional pulou de R$ 328,2 bilhões para R$ 853,1 bilhões, ou seja, um crescimento de 160% no período. Embora esta pequena melhoria entre dívida e receita, a relação entre as duas se manteve em 1,89, ou seja, para cada real de receita o país deve 1,89 sob forma de dívida pública federal (ainda falta contar aí a dívida dos Estados, dos municípios e das estatais). Assim, enquanto o Estado não passar por reformas efetivas, seu custo continuará a exigir um financiamento via a venda de títulos públicos, o qual gera grande parte desta dívida pública. Isso explica o constante aumento da carga tributária federal, amordaçando a economia nacional, já que o total da receita fiscal federal, no final de 2010, representava 95% da receita total do Tesouro Nacional.
Mas o pior ainda não foi dito: as despesas do Tesouro Nacional são maiores do que a receita e apenas auxiliam a pagar os juros da dívida pública. Aos juros ainda se somam as despesas de pessoal e encargos sociais, mais as transferências a Estados e municípios. No primeiro caso, o crescimento foi de 150% nos oito anos do presidente Lula. No segundo caso, o aumento chegou a 165%. Com isso, antes mesmo de pagar o capital da dívida interna pública federal, o rombo no caixa do Tesouro Nacional passou de R$ 9,7 bilhões no final de 2002, para R$ 53,8 bilhões no final de 2010. Urge, portanto, realizar economias estruturais, pois a estabilização econômica não se sustentará muito tempo somente via o controle da inflação.
Juros e inflação
O IPCA (índice oficial que mede a inflação brasileira) recuou bastante em maio, se comparado com abril, passando de 0,77% para 0,47% no período. Ao mesmo tempo, maio deste ano ficou apenas um pouco acima da inflação de maio/10, que foi de 0,43%. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses continuou subindo, porém, em ritmo menor, atingindo a 6,55% no momento. Todavia, a tendência para os próximos três meses continua difícil, já que o IPCA mensal, para igualar a performance de 2010, terá que ficar tão somente entre 0% e 0,04%, o que parece impossível. Assim, existem ainda componentes altistas para a inflação nacional, ao mesmo tempo em que se nota uma continuidade na demanda por crédito e, portanto, no consumo, mesmo com os juros já tendo aumentado bastante. Esse quadro, somado ao fato de que o governo já mira 2012, quando o objetivo é segurar a inflação anual em 4,5% (o centro da meta), explica o novo aumento na taxa Selic nesta semana. Já esperada pelo mercado, a mesma sobe para 12,25% anuais, devendo aumentar um pouco mais ainda na próxima reunião do Copom. Ou seja, o remédio é amargo após os excessos consumistas e de crédito ofertados pelo governo em 2010. Paralelamente, tal movimento de correção de rota, confirma outras duas situações: a economia freia e caminha para um crescimento anual de 4% ao final deste ano, gerando um aumento no desemprego em relação a 2010; e a alta dos juros estimula a entrada de dólares no país, mantendo o Real sobrevalorizado ao redor de R$ 1,58 por dólar, contra uma paridade de poder de compra que indica um valor ideal ao redor de R$ 2,20. Em síntese: o cenário econômico mudou completamente e assim deverá continuar por um bom tempo.
Inflação: um problema mundial
E não é somente no Brasil que o fenômeno inflacionário acontece. No afã de recuperar a economia, o crédito foi liberado fortemente, em muitos casos com juros próximos de zero por cento ao ano. Agora, diante da resposta da demanda, os preços internacionais sobem puxando os índices inflacionários. Na Índia, outro dos grandes emergentes deste mundo, a inflação anual em abril bateu em 8,66% contra o teto de 5,5% estabelecido pela meta do governo local. Como no Brasil, o governo indiano aumenta os juros e freia a economia para impedir que a chaga inflacionária ganhe corpo. No Reino-Unido, a inflação bateu em 4,5% ao ano neste último mês de abril, após ter atingido apenas 1% em meados de 2009. Na China, hoje o maior consumidor mundial, diante da anemia econômica dos EUA, a inflação local já bate em 5,3% ao ano, contra 2% negativos em meados de 2009. Em outras palavras, jamais a inflação estará eliminada e todo o cuidado é pouco. Hoje, o mundo se pergunta até quando a retomada nefasta dos preços irá durar e como se agirá para contê-la. Por enquanto, os juros elevados têm sido a arma imediata. Todavia, o mundo está mirando na redução dos preços das matérias-primas até o final do ano. E não poderia ser diferente! Na medida em que todos combatem a alta dos preços, freando parcialmente suas economias, a demanda mundial tende a reduzir, forçando uma queda nos preços das commodities em geral. Os próximos meses serão decisivos para se verificar se tal quadro efetivamente irá se confirmar.