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Tendências 16/05/2011


Argemiro Luís Brum
Mercado acorda

Finalmente parece que os agentes econômicos brasileiros, e particularmente os do setor de bens de consumo, estão acordando para a realidade brasileira. Ou seja, que o ocorrido em 2010 foi uma exceção e não se cresce todos os anos 7,5%, contando com constantes injeções de recursos públicos na economia. Pelo menos não por enquanto! O anúncio dos resultados da pesquisa realizada pela Associação Paulista de Supermercados veio confirmar esse quadro. A mesma indicou que, entre 2006 e 2010, a renda média das famílias brasileiras cresceu espetaculares 54%, passando de R$ 1.393,00 mensais para R$ 2.146,00. Um dado, sem dúvida, positivo! Todavia, os gastos subiram 58,6% no mesmo período, atingindo a R$ 2.171,00 mensais. Pior ainda, o estudo demonstrou que 53% das famílias de todas as classes gastam mais do que recebem. Está aí um potencial de inadimplência preocupante, confirmando as tendências apontadas a partir do momento em que passou a jorrar dinheiro público com facilidade no ano passado, acompanhado de convites oficiais para que a população gastasse. Por enquanto, o endividamento é de 1% em média, ou seja, muito baixo. Porém, se o quadro persistir, uma bolha irá estourar nas mãos dos brasileiros, gerando um recuo no seu bem-estar. E a forte alta da inflação, que deve continuar pelo menos até setembro próximo, em nada ajuda a corrigir o problema, já que os juros nacionais estão subindo ainda mais rapidamente. Nesse sentido, depois dos bancos, igualmente o presidente do Banco Central veio a público alertar para que a população brasileira reduza suas compras, e sua tomada de crédito, nesse momento em que os juros estão elevados e continuarão subindo. Na mesma linha, a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas também estará aconselhando seus associados a segurar a oferta de crédito aos consumidores. Ou seja, se confirma tudo aquilo que se procurou alertar desde o ano passado.

Mercado acorda (II)

Num país sem formação econômica, com uma população ávida por consumo, pois necessitando de muitos bens para melhorar seu nível de vida, ofertar crédito sem controle, num quadro em que as taxas de juros são elevadas, é uma irresponsabilidade. Principalmente quando o processo é exagerado e movido, em especial, por motivos eleitoreiros, como fez o governo anterior. E o problema está apenas começando! A inadimplência deverá crescer ainda mais, pois o consumo demora a frear (o atraso no pagamento de dívidas entre janeiro e abril de 2011 chegou a 2,24% acima do registrado no mesmo período do ano passado, enquanto a inadimplência cresceu 3,5% em abril). Também pudera, o juro anual do cartão de crédito chega a 240%, o do cheque especial bate em 150% e o destinado a pessoas físicas a 120%. Além disso, alguns setores ainda não chegaram a cair na real. É o caso de muitos produtores rurais que contraíram enormes dívidas, para as suas possibilidades de receita, estimulados pelo programa “Mais Alimentos”. Isso porque o pagamento começa após três anos de carência, a qual ainda não venceu. É o caso também de muitos que se encontram em situação difícil no “Minha Casa Minha Vida”. Era necessário trabalhar para retomar o crescimento da economia, diante da crise mundial de 2007/08, e isso ninguém discute. O que se criticou desde o início foi a forma e a intensidade de fazê-lo, considerando a formação e a realidade econômica da Nação brasileira. Agora, a conta começa a ser paga pela sociedade da forma mais difícil possível: perdendo o crédito e voltando a empobrecer rapidamente, o que caracteriza a falta de sustentabilidade da ação imediatista implantada.

Desigualdade diminui

Estudo divulgado pela FGV no início de maio indica que a desigualdade social no Brasil atingiu seu menor nível em 50 anos. Uma excelente notícia que confirma a importância da estabilização da economia iniciada em 1994 e as consequentes políticas sociais desenvolvidas posteriormente. Mesmo estando ainda muito longe do nível dos países desenvolvidos (o índice de Gini brasileiro atingiu a 0,5304 em 2010 – quanto mais perto de zero menor a desigualdade – enquanto a média dos países desenvolvidos com baixa desigualdade é próxima de 0,400), os números são promissores se soubermos conservar a estabilidade econômica, hoje ameaçada por arroubos desenvolvimentistas e populistas. Tanto é verdade que o governo do ex-presidente Lula soube tirar proveito da nova era brasileira, reduzindo a pobreza nacional em 50,64% entre dezembro de 2002 e dezembro de 2010. Todavia, nossa definição de pobreza é ainda vergonhosa, pois considera pobre a pessoa que possua uma renda per capita mensal de tão somente R$ 151,00. Além disso, são consideradas de extrema pobreza pessoas que vivem com renda de até R$ 70,00 mensais (nesse último estágio, ainda temos 8,5% da população ou 16,3 milhões de brasileiros). Ora, tais números indicam que precisamos ainda melhorar muito. E não é através de medidas populistas pontuais que esta melhora será sustentável. Será preciso ações estruturais de fôlego, que permitam realmente investir em melhorias consideráveis na saúde e educação públicas, por exemplo, a partir de um forte ajuste nos gastos estatais. Dito de outra maneira, o Plano Real nos permitiu chegar até aqui! Para irmos mais adiante, somente com reformas estruturais que começam na máquina estatal. Caso contrário, voltaremos a retroceder economicamente e a desigualdade a aumentar. Afinal, o nível de menor desigualdade que celebramos, com razão, hoje, é o mesmo que já tínhamos conseguido em 1960. Depois disso, jogamos fora quase duas gerações de brasileiros. Cabe a nós não deixarmos que tal cenário se repita.                
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