A crise mundial e novamente a Grécia
Quando estourou a crise mundial em 2007, agravada em 2008 por ter chegado à economia real, alertamos que a saída da mesma poderia levar muitos anos, pois sua origem era de natureza estrutural. Ou seja, a desregulamentação dos controles sobre os capitais financeiros especulativos permitiu a estes abusarem do sistema econômico mundial, centrado em bolsas de valores e mercadorias, via a criação de derivativos de toda espécie. Passados quatro anos da mesma, percebe-se que os problemas continuam, com os países desenvolvidos (especialmente EUA, União Europeia e Japão) penando para dela sair e com novas bolhas estourando. Para piorar o quadro, neste mês de junho a Grécia, que deu início a um novo capítulo da crise mundial em janeiro de 2010, colocando em cena “a crise fiscal” dos países, voltou a demonstrar que, mesmo com o socorro anterior, não conseguiu sair do “buraco”. Aliás, seu déficit público ultrapassa hoje 180% de seu PIB (o do Japão já supera os 200%). Nestas condições, um novo socorro vem sendo solicitado, colocando em xeque o euro e a própria União Europeia. Isso porque países como a Irlanda, Portugal, Espanha e Itália trilham os mesmos passos dos gregos, sem falar na Hungria e outros menos expressivos no cenário econômico internacional. A população, diante da iminência de perder mais um pouco das vantagens sociais adquiridas no tempo das chamadas “vacas gordas”, se rebela e sai às ruas em confronto com a polícia. O problema é tão sério que já começa a circular nos meios econômicos o medo de que a crise volte a ter a força de 2007/08, empurrando para mais alguns anos a solução definitiva da mesma.
A crise mundial e novamente a Grécia (II)
O reflexo está sendo imediato junto ao capital financeiro especulativo. O mesmo, avesso ao risco, diante do problema por ele mesmo causado e ainda sem solução, volta a se recolher, se retirando das bolsas em geral. Com isso, as ações despencam (a Bovespa terminou o dia 16/06 beirando os 60.500 pontos, após ter chegado a 70.000 pontos algumas semanas antes). Wall Street igualmente recua a níveis do início do ano enquanto as bolsas de mercadorias, como Chicago, assistem a uma queda expressiva nas cotações do trigo e do milho, acompanhada parcialmente pela soja, assim como de outros produtos. O petróleo, apenas em um dia desta semana, perdeu mais de 4% de seu valor, voltando a patamares inferiores a US$ 100,00/barril. Tudo isso confirma duas coisas já sabidas, porém, pouco levadas em consideração por muita gente: 1) a crise mundial, com seus reflexos em países como o Brasil, continua e está longe de ser debelada; 2) a recuperação dos preços internacionais das principais commodities, a partir de meados de 2010, não se deve a um aumento da demanda, embora a presença da China, mas sim em função da presença ainda constante do capital financeiro especulativo. Uma solução para a crise mundial passa, necessariamente, pelo retorno da regulação a esse capital. Em isso acontecendo, o mesmo será menos atuante nas bolsas, fato que trará as diferentes cotações para patamares mais baixos, situação, aliás, que grande parte do mundo defende haja vista a forte alta da inflação mundial nestes últimos 12 meses.
A China continua freando
E para quem aposta na locomotiva chinesa, para impedir que o mundo volte a frear sua economia, já que os países desenvolvidos, mesmo com juros anuais próximos de zero, não decolam (exceção feita à Alemanha), é melhor se acostumar, daqui em diante, com outra realidade. Diante de uma economia acelerada, a inflação estoura lá também, e o governo local vem freando o consumo. Ainda assim é preciso fazer mais, pois em maio a balança comercial chinesa registrou um superávit de US$ 13,05 bilhões, com as exportações subindo 19,4% (US$ 157,16 bilhões no mês) e as importações 28,4% (US$ 144,11 bilhões no mês) em relação ao mesmo período de 2010. A título de comparação, o Brasil, até o dia 12/06 conseguiu um superávit de US$ 10,5 bilhões, com exportações acumuladas no ano de US$ 103,3 bilhões e importações de US$ 92,8 bilhões. Ou seja, em um mês os chineses fazem mais do que conseguimos realizar em quase um semestre. Obviamente, parte desta diferença de performance se deve ao câmbio (enquanto o Real se mantém sobrevalorizado, o Yuan chinês acompanha a desvalorização do dólar dos EUA), mas outra grande parte se deve ao tamanho do mercado chinês (a parte da China na economia de mercado representa hoje uma população equivalente a mais de três vezes a população do Brasil). Esse consumo desenfreado dos chineses, que se retrata num aumento importante das importações, mesmo com moeda desvalorizada, mantém a economia local aquecida. Assim, o índice de preços ao consumidor da China, em maio, atingiu a 5,5% anualizado, tendo se expandido 5,2% nos primeiros cinco meses do ano, em comparação ao mesmo período de 2010. Somente os alimentos, em maio, subiram 11,7% naquele país. E isso tudo, mesmo com a produção industrial crescendo 14% no acumulado dos cinco primeiros meses, em comparação ao ano passado. Ou seja, novos aumentos nos juros, no compulsório dos bancos e outras medidas que retirem dinheiro de circulação deverão ser tomadas pelo governo chinês, buscando frear mais a economia local. Em resumo, o mundo se encontra da seguinte forma: os países desenvolvidos não decolam e novos focos de crise aparecem, enquanto os países emergentes, que ajudaram a minorar os efeitos mundiais da crise a partir de 2010, estão agora freando suas recuperações, pois o processo gerou uma inflação acelerada, cristalizando a falta de infraestrutura dos mesmos para manter o ritmo. Com isso, o mundo tende a voltar a uma cadência menor, afetando a produção, o emprego e o bem-estar geral.
Quando estourou a crise mundial em 2007, agravada em 2008 por ter chegado à economia real, alertamos que a saída da mesma poderia levar muitos anos, pois sua origem era de natureza estrutural. Ou seja, a desregulamentação dos controles sobre os capitais financeiros especulativos permitiu a estes abusarem do sistema econômico mundial, centrado em bolsas de valores e mercadorias, via a criação de derivativos de toda espécie. Passados quatro anos da mesma, percebe-se que os problemas continuam, com os países desenvolvidos (especialmente EUA, União Europeia e Japão) penando para dela sair e com novas bolhas estourando. Para piorar o quadro, neste mês de junho a Grécia, que deu início a um novo capítulo da crise mundial em janeiro de 2010, colocando em cena “a crise fiscal” dos países, voltou a demonstrar que, mesmo com o socorro anterior, não conseguiu sair do “buraco”. Aliás, seu déficit público ultrapassa hoje 180% de seu PIB (o do Japão já supera os 200%). Nestas condições, um novo socorro vem sendo solicitado, colocando em xeque o euro e a própria União Europeia. Isso porque países como a Irlanda, Portugal, Espanha e Itália trilham os mesmos passos dos gregos, sem falar na Hungria e outros menos expressivos no cenário econômico internacional. A população, diante da iminência de perder mais um pouco das vantagens sociais adquiridas no tempo das chamadas “vacas gordas”, se rebela e sai às ruas em confronto com a polícia. O problema é tão sério que já começa a circular nos meios econômicos o medo de que a crise volte a ter a força de 2007/08, empurrando para mais alguns anos a solução definitiva da mesma.
A crise mundial e novamente a Grécia (II)
O reflexo está sendo imediato junto ao capital financeiro especulativo. O mesmo, avesso ao risco, diante do problema por ele mesmo causado e ainda sem solução, volta a se recolher, se retirando das bolsas em geral. Com isso, as ações despencam (a Bovespa terminou o dia 16/06 beirando os 60.500 pontos, após ter chegado a 70.000 pontos algumas semanas antes). Wall Street igualmente recua a níveis do início do ano enquanto as bolsas de mercadorias, como Chicago, assistem a uma queda expressiva nas cotações do trigo e do milho, acompanhada parcialmente pela soja, assim como de outros produtos. O petróleo, apenas em um dia desta semana, perdeu mais de 4% de seu valor, voltando a patamares inferiores a US$ 100,00/barril. Tudo isso confirma duas coisas já sabidas, porém, pouco levadas em consideração por muita gente: 1) a crise mundial, com seus reflexos em países como o Brasil, continua e está longe de ser debelada; 2) a recuperação dos preços internacionais das principais commodities, a partir de meados de 2010, não se deve a um aumento da demanda, embora a presença da China, mas sim em função da presença ainda constante do capital financeiro especulativo. Uma solução para a crise mundial passa, necessariamente, pelo retorno da regulação a esse capital. Em isso acontecendo, o mesmo será menos atuante nas bolsas, fato que trará as diferentes cotações para patamares mais baixos, situação, aliás, que grande parte do mundo defende haja vista a forte alta da inflação mundial nestes últimos 12 meses.
A China continua freando
E para quem aposta na locomotiva chinesa, para impedir que o mundo volte a frear sua economia, já que os países desenvolvidos, mesmo com juros anuais próximos de zero, não decolam (exceção feita à Alemanha), é melhor se acostumar, daqui em diante, com outra realidade. Diante de uma economia acelerada, a inflação estoura lá também, e o governo local vem freando o consumo. Ainda assim é preciso fazer mais, pois em maio a balança comercial chinesa registrou um superávit de US$ 13,05 bilhões, com as exportações subindo 19,4% (US$ 157,16 bilhões no mês) e as importações 28,4% (US$ 144,11 bilhões no mês) em relação ao mesmo período de 2010. A título de comparação, o Brasil, até o dia 12/06 conseguiu um superávit de US$ 10,5 bilhões, com exportações acumuladas no ano de US$ 103,3 bilhões e importações de US$ 92,8 bilhões. Ou seja, em um mês os chineses fazem mais do que conseguimos realizar em quase um semestre. Obviamente, parte desta diferença de performance se deve ao câmbio (enquanto o Real se mantém sobrevalorizado, o Yuan chinês acompanha a desvalorização do dólar dos EUA), mas outra grande parte se deve ao tamanho do mercado chinês (a parte da China na economia de mercado representa hoje uma população equivalente a mais de três vezes a população do Brasil). Esse consumo desenfreado dos chineses, que se retrata num aumento importante das importações, mesmo com moeda desvalorizada, mantém a economia local aquecida. Assim, o índice de preços ao consumidor da China, em maio, atingiu a 5,5% anualizado, tendo se expandido 5,2% nos primeiros cinco meses do ano, em comparação ao mesmo período de 2010. Somente os alimentos, em maio, subiram 11,7% naquele país. E isso tudo, mesmo com a produção industrial crescendo 14% no acumulado dos cinco primeiros meses, em comparação ao ano passado. Ou seja, novos aumentos nos juros, no compulsório dos bancos e outras medidas que retirem dinheiro de circulação deverão ser tomadas pelo governo chinês, buscando frear mais a economia local. Em resumo, o mundo se encontra da seguinte forma: os países desenvolvidos não decolam e novos focos de crise aparecem, enquanto os países emergentes, que ajudaram a minorar os efeitos mundiais da crise a partir de 2010, estão agora freando suas recuperações, pois o processo gerou uma inflação acelerada, cristalizando a falta de infraestrutura dos mesmos para manter o ritmo. Com isso, o mundo tende a voltar a uma cadência menor, afetando a produção, o emprego e o bem-estar geral.