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Tendências 24/12/2011


Argemiro Luís Brum
O poder do leite

Interessante estudo feito pelo CEPEA-ESALQ/USP, divulgado neste segundo semestre de 2011, mostra a importância do leite na economia nacional, confirma algumas ideias existentes, e põe em xeque outras tantas. Em primeiro lugar, com base em 10 anos (1999 a 2009), o estudo revela que entre as cem maiores mesorregiões produtoras, o centro-sul paranaense cresceu, em média, 18% ao ano, seguido pelo oeste do Maranhão com 14%, e o sertão pernambucano, agreste pernambucano e sudoeste paranaense, todos com 13% ao ano.

Por outro lado, regiões tradicionais na produção de leite recuaram, sendo o caso de Ribeirão Preto (SP), com queda de 4% ao ano no período, Campinas e Vale do Paraíba Paulista com recuo de 2% ao ano. Este recuo se deve, em princípio, ao forte avanço da cana-de-açúcar, fato que teria provocado um recuo de 17% na produção paulista de leite.

No Sul do Brasil a realidade é outra. Enquanto a produção brasileira cresceu 53% no período considerado, o Sul brasileiro aumentou 95% sua produção. E aqui o dado mais significativo para os gaúchos: desde 2007, a principal mesorregião produtora de leite do Brasil é o Noroeste do Rio Grande do Sul, tendo atingido a 8% de toda a produção nacional em 2009, com incremento médio de 7% ao ano no período. Isso se deve aos grandes empreendimentos industriais na região, mas igualmente ao avanço no uso da tecnologia de produção.

Outra região que avançou muito foi o oeste catarinense, que obteve crescimento médio de 12% ao ano no período analisado, passando de 7º maior produtor nacional em 1999 para 3º maior produtor em 2009. Enfim, o Norte e o Nordeste brasileiros foram respectivamente a segunda e a terceira região nacional onde a produção de leite mais cresceu entre 1999 e 2009, com a primeira registrando 87% de aumento e a segunda região 75%. Enquanto isso, tradicionais regiões produtoras como Minas Gerais, Goiás e São Paulo ficaram com crescimento abaixo da média nacional (4%) e até mesmo taxas negativas de crescimento.

O poder do leite (II)

Outro dado importante, oriundo do estudo do CEPEA, informa que no Sul do Brasil o leite rende três vezes mais do que arrendar a terra. Partindo do princípio do custo de oportunidade (representa a receita que seria obtida caso o produtor de leite optasse por arrendar a área agricultável que dispõe ao invés de se manter na atividade), verificou-se que, no Sul brasileiro, a margem bruta da pecuária leiteira supera em quase três vezes o valor do arrendamento da terra para outra atividade.

Na região de Cascavel (PR), por exemplo, a margem bruta com o leite ficou 328% acima do valor médio do arrendamento; em Cruz Alta (RS) a mesma ficou 732% acima; em Palmeira das Missões (RS) 283% acima; em Três de Maio (RS) 273% acima; em Chapecó (SC) 439% acima; em Castro (PR) 1.004% acima; e em São José do Cedro (SC) 644% acima. Já em Piranhas (GO), tal margem ficou 45% abaixo; em Leopoldina (MG) 52% abaixo; em Teófilo Otoni 63% abaixo; em Guaratinguetá (SP) 64% abaixo; e em Fernandópolis (SP) 78% abaixo.

Ou seja, nos Estados do Sul do Brasil vale mais a pena produzir leite, para quem está organizado na atividade, do que arrendar a terra. Soma-se a essa informação a conclusão de que “...em regiões mais desenvolvidas em termos de infraestrutura, com maior número de agroindústrias e mais próximas de grandes centros consumidores (especialmente Sudeste e Sul do país), tende a haver maior demanda por terras e, consequentemente, valorização deste ativo. Diante disso, é preciso que haja um maior grau de eficiência produtiva para que a atividade leiteira seja sustentável e competitiva nessas regiões, já que o custo de oportunidade é elevado.” Enfim, tomando-se por base os dados de 2010/11, o estudo verificou que o retorno do capital investido em leite ainda fica atrás do obtido com a soja, milho, café e pecuária de corte, embora para os dois primeiros produtos importante se faça destacar que o ano indicado foi excepcional em termos de produção e preços.

Mesmo assim, o maior retorno por real investido na atividade leiteira, em todo o país, foi encontrado no Noroeste gaúcho, com o mesmo ficando em 51%, considerando-se o Custo Operacional Efetivo. Em segundo lugar vem o Triângulo Mineiro com 32%, sendo que o retorno mais baixo se deu no Sul/Sudoeste de Minas Gerais, com apenas 12% de cada real investido.

Perdemos nossa vantagem (?)

Ainda no capítulo do agronegócio, recente estudo divulgado pela Farsul indica que perdemos competitividade lá onde éramos melhor: na produção agrícola dentro da propriedade. É sabido que, pela falha infraestrutura existente, altos impostos e burocracia em geral, sempre estivemos atrás de nossos concorrentes (particularmente EUA e Argentina) no que diz respeito ao pós-porteira (transporte, armazenagem, comercialização, porto etc...).

Ora, o estudo em questão nos mostra que as despesas operacionais nas propriedades agrícolas do Brasil são hoje as maiores do mundo, particularmente devido a alta carga tributária sobre os insumos e máquinas agrícolas. Tendo como referência a safra 2010/11, o estudo mostrou que na soja, por exemplo, nosso custo operacional é de US$ 210,00/tonelada, contra US$ 157,00 nos EUA e US$ 102,00 na Argentina.

No milho, nosso custo chega a US$ 132,40/tonelada, contra US$ 93,30 nos EUA e US$ 67,40 na Argentina. No trigo o referido custo atinge a US$ 374,70/tonelada, contra US$ 193,00 na América do Norte e US$ 107,60 na Rússia. Enfim, no arroz, o custo operacional no Rio Grande do Sul (maior produtor brasileiro) chega a US$ 289,47/tonelada, contra US$ 201,39 no Uruguai e apenas US$ 130,00 no Vietnã.

Se continuar assim, vamos perder espaço no mercado mundial, além de nossos produtores serem cada vez mais selecionados, aumentando o êxodo rural, que já é importante, principalmente entre os jovens.
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