CI

Tendências 27/06/2011


Argemiro Luís Brum
TRANSGÊNICOS x ORGÂNICOS

O radicalismo execrou os produtos transgênicos quando os mesmos vieram à tona. Muitas instituições e pessoas, por diferentes interesses, se posicionaram contra os produtos transgênicos acusando-os de serem potenciais causadores de uma série de problemas. Dentre eles o risco de vida das pessoas. Por trás de tal movimento, se criou, inclusive, ações de protecionismo comercial, visando os países emergentes e sua produção primária em primeiro lugar. Aos poucos, o mundo foi se dobrando à ciência, como tem sido ao longo dos séculos, mesmo porque se torna difícil combater algo que a ciência abona e o econômico avaliza. Isso não significa que tudo o que se faz na área da transgenia, assim como todo o avanço científico, seja isento de problemas. Sempre há riscos, e eles estão em toda a parte. Portanto, isso não é privilégio apenas da transgenia. Ouvimos por longos anos a defesa dos produtos orgânicos como o melhor alimento para o ser humano. Ouvimos defesas insustentáveis economicamente de que o mundo poderia se alimentar completamente só com o processo produtivo de alimentos orgânicos. Ouvimos muita gente cair na seara ideológica em favor dos produtos orgânicos, sem mesmo conhecer sua origem e suas necessidades de produção. Não há dúvida que produtos orgânicos são sempre melhores, quando muito bem produzidos. Porém, por custarem mais caro, servem para alimentar os mais ricos, elitizando a nutrição humana. Tanto é verdade que bastou o recrudescimento da crise na Europa, e particularmente na Grécia, para o consumo de produtos orgânicos recuar em 30% naquela região do mundo. E agora, a realidade veio demonstrar o que já se sabia. Há muitos riscos de saúde com os produtos orgânicos, quando mal manipulados e até mesmo mal produzidos. A recente contaminação alimentícia ocorrida no norte europeu, mundo desenvolvido, e particularmente na Alemanha, com muitas mortes, veio, nada mais nada menos, de brotos de feijão orgânicos. E agora? Esta lição prática serve de alerta para a humanidade no sentido de que devemos estar vigilantes quanto à forma das coisas serem feitas e manipuladas, e não necessariamente contra os avanços científicos. Inclusive, a vigilância deve recair sobre as informações que nos chegam e, particularmente, de onde as mesmas vêm e os interesses que elas contêm. O radicalismo nunca levou à construção positiva de coisa alguma, mesmo em se tratando da alimentação humana.

OS DIFERENTES RISCOS

O Brasil alcançou um feito histórico na semana anterior ao ser indicado, pelas agências de risco, como um país com possibilidades menor do que os EUA em dar um calote em sua dívida de curto prazo. Isso porque a dívida estadunidense é imensa e sua economia está longe de voltar a decolar. Todavia, estruturalmente ainda estamos longe de comemorar, já que o risco de cinco anos dos EUA é muito menor do que o nosso. Ou seja, estamos conseguindo gerenciar adequadamente a economia no curto prazo, diante da crise pela qual passa o mundo, entretanto, estamos longe de criar as condições de nos mostrarmos confiáveis no médio e longo prazo, pois não realizamos nenhuma medida estrutural adequada. Nesse sentido, o ex-presidente do Banco Central brasileiro, Armínio Fraga, em palestra realizada em Porto Alegre na mesma semana, apontou aquilo que nesse espaço estamos martelando há algum tempo. Ou seja, após o lastro de ajuste realizado com o Plano Real, que permitiu a estabilização da economia, nos encontramos hoje com pelo menos quatro sinais preocupantes quanto ao futuro econômico do país: o crescimento da relação gasto público/PIB; a carga tributária em alta; a pressão inflacionária; e a baixa taxa de investimentos. Segundo ele, o caminho a escolher para vencer tais sinais seria: controlar a inflação para criar condições de queda dos juros no longo prazo; acelerar o investimento em educação, principalmente em qualidade; adotar medidas para aumentar a produtividade da economia; e elevar a taxa de investimento, hoje em 18,5%, para pelo menos 25% do PIB. Resta esperar que o atual governo veja as coisas desta mesma maneira!

O ENDIVIDAMENTO CRESCE

Os alertas anteriores estão se transformando em fatos reais. Após a enxurrada de crédito oferecida pelo governo brasileiro em 2010, a população foi às compras, buscando saciar uma demanda reprimida. Ocorre que, em muitos casos, sem nenhuma noção do que significa gastar em relação a receita obtida. Com isso, aumentou assustadoramente o seu endividamento, criando um processo de inadimplência anunciado. A mesma já sobe a mais de 8% no país, sendo que, na média, o comprometimento da renda mensal, com dívidas, está em 30%. Ou seja, os brasileiros seguem, infelizmente, a linha da população dos EUA, buscando viver acima de suas possibilidades, se endividando mais do que os ganhos permitem. Para se ter uma ideia do problema, e tomando apenas algumas capitais do país como referência, nos primeiros cinco meses de 2011, em Curitiba 88% das famílias possui dívidas, em Florianópolis e Aracaju 86%, em Maceió 83% e assim por diante. Não há dúvida, portanto, que diante de tal quadro, associado ao momento de menor crédito no país, além do mesmo estar bem mais caro, o consumo tende a recuar gerando um processo de freio, hoje desejado, na economia. E isso não será de curto prazo! Para superarmos tal realidade, e conquistarmos um processo de consumo responsável, em crescimento e duradouro, é preciso que a população seja educada e informada financeiramente e, na hora da compra, não leve apenas em consideração o impacto da prestação em seu bolso.  
Assine a nossa newsletter e receba nossas notícias e informações direto no seu email

Usamos cookies para armazenar informações sobre como você usa o site para tornar sua experiência personalizada. Leia os nossos Termos de Uso e a Privacidade.

2b98f7e1-9590-46d7-af32-2c8a921a53c7