OS GASTOS BRASILEIROS NO EXTERIOR
Não é de hoje que sabemos que os brasileiros gastam acima de suas possibilidades quando viajam ao exterior. Tal situação apenas piorou nos últimos anos, a ponto dos aviões que decolam da Flórida (EUA) terem que colocar mais combustível para retornar ao Brasil, devido ao excesso de peso. Somente em 2010, e apenas nos EUA, os brasileiros deixaram US$ 5,9 bilhões, o que equivale a 30% acima dos gastos do ano anterior. Com isso, nossa conta de serviços, na balança de pagamentos, piora o seu quadro negativo, auxiliando para que o déficit na conta global de transações correntes venha crescendo continuamente nos últimos anos. A questão agora é entender porque os brasileiros consomem, no exterior, muito mais do que os estrangeiros quando aqui vêm. Algumas explicações são óbvias e recentes: 1) a estabilização da economia gerou mais poder de compra ao brasileiro; 2) isso permitiu um aumento da população na chamada classe C (55% da população brasileira estaria hoje nesta categoria), o que equivale, para os nossos padrões, à classe média. Desde 2003, esta classe teria incorporado 40 milhões de pessoas, com demanda reprimida e ávida por consumir e recuperar o tempo perdido da época da hiperinflação (40 milhões de pessoas significam, aproximadamente, 60% da população da França de hoje); 3) a forte sobrevalorização do Real nos últimos anos tornou os preços externos mais baratos em relação aos preços internos brasileiros, estimulando o consumo em outros países e facilitando as viagens internacionais. Todavia, a principal explicação pouco se discute.
OS GASTOS BRASILEIROS NO EXTERIOR (II)
OS GASTOS BRASILEIROS NO EXTERIOR (II)
Trata-se de que, independente de câmbio, os preços no exterior, junto à maioria dos países do mundo, serem muito inferiores aos praticados no Brasil em setores que determinam a melhoria do bem-estar da população, tais como os eletroeletrônicos, mas também em automóveis, máquinas agrícolas, insumos agrícolas etc. Isso se explica pelo fato de que a carga de impostos sobre os produtos nacionais ser muito elevada, chegando a representar o dobro em relação ao encontrado no exterior, para o mesmo produto. Não é por acaso que, mesmo com o Real desvalorizado, os brasileiros sempre realizaram compras no exterior, em muitos casos preferindo burlar a lei e correr o risco de perder o produto nas fronteiras do país. Nesse contexto, não é por acaso que o governo brasileiro impõe cotas na importação de produtos e proíbe compra de muitos produtos até mesmo nos vizinhos do Mercosul, com quem se deveria ter uma zona de livre-comércio desde 2000. Aliás, nesse jogo, como explicar, senão pela necessidade arrecadadora, o Mercosul funcionar como livre-mercado para o trigo e como mercado fechado para máquinas, implementos e demais insumos do setor agropecuário. Ou seja, os brasileiros gastam demais no exterior, é verdade, não só porque não possuem a cultura da poupança, mas sobretudo porque o Estado brasileiro, inchado e perdulário, não pode se passar da cobrança cada vez maior de impostos, encarecendo o produto nacional muito acima do razoável. Dito de outra maneira, com exceção dos alimentos básicos, nos tornamos um país muito caro, em comparação à média do resto do mundo, pois carregamos nas costas um Estado ineficiente, que distribui apenas migalhas da riqueza que arrecada dos brasileiros.
A DESIGUALDADE SOCIAL DIMINUI MAS...
A DESIGUALDADE SOCIAL DIMINUI MAS...
Segundo estudos da FGV, nesse ano de 2012 o Brasil atingiu o menor nível de desigualdade desde 1960. Um fato auspicioso, pois demonstra a importância da estabilização da economia, que tem no controle da inflação seu ponto fundamental. Soma-se a isso, nos últimos anos, os programas estatais de transferência de renda, tipo o hoje chamado Bolsa Família, mesmo que isso seja pouco em relação ao volume de arrecadação estatal. Assim, nos últimos 10 anos a renda dos 50% mais pobres do país cresceu 68%, enquanto junto aos 10% mais ricos cresceu somente 10%. Isso explica o aumento da classe média brasileira (55% da população está na classe C, enquanto 33% estão nas classes D/E e 12% nas classes A/B). Todavia, apesar desse importante avanço, ainda há muito por fazer, pois continuamos tremendamente desiguais, permanecendo entre os 12 países mais desiguais do mundo. Ou seja, apesar dos esforços empreendidos nos últimos 17 anos, a pobreza continuará a existir no país por um bom tempo, pois não se apaga facilmente o descalabro econômico que construímos em quase 500 anos de história. E isso se os governos e a sociedade de hoje e de amanhã não jogarem por terra, com derrapagens demagógicas e interesseiras, o que vem sendo construído. Na verdade, para se melhorar de vida, o desafio é construir um processo sustentável no tempo. Por enquanto, a julgar pela forte dependência da nova classe média aos benefícios dados pelo governo, e pela incapacidade ou desinteresse do governo em ajustar o custo do Estado, através das reformas estruturais, ainda é cedo para dizer que nosso país entrou definitivamente em outro patamar social. Dito de outra maneira, como ficará essa realidade recente, que hoje exaltamos com justiça, quando o apoio estatal se esgotar por falta de uma gestão adequada no longo prazo? Algumas das respostas encontramos na Grécia e na Espanha de hoje!