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"O cooperativismo gosta de pessoas": a trajetória de Darci Hartmann à frente do Sistema Ocergs

Darci ornou-se cooperado aos 18 anos


Foto: Divulgação

Reeleito para o mandato 2026–2030, presidente conta como foi de associado, aos 18 anos, a dirigente de um sistema que hoje responde por mais de 14% do PIB gaúcho

Advogado, produtor rural e dirigente cooperativista, Darci Pedro Hartmann nasceu em Selbach, no norte do Rio Grande do Sul, e cresceu em uma família de produtores rurais. Segundo perfil divulgado pelo próprio Sistema Ocergs, começou a trabalhar na lavoura ainda criança e, pouco antes dos 18 anos, assumiu a presidência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Selbach. Tornou-se cooperado por volta dos 20 anos — em relato pessoal, ele próprio situa essa entrada no cooperativismo aos 18 anos — e segue atuando como produtor rural até hoje. É formado em Direito pela Universidade de Cruz Alta (Unicruz).

Ao longo da carreira, acumulou passagens por diferentes frentes de liderança no cooperativismo: presidiu a Cotrisoja, entre 1991 e 2000 e a Cooperjacuí. Assumiu a presidência do Sistema Ocergs em maio de 2022 e, em abril de 2026, foi reconduzido ao cargo para a gestão 2026–2030, tendo Márcio Port como vice-presidente. Também integra o Conselho de Administração da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), representando a Região Sul.

Na vida política, foi prefeito de Selbach e em janeiro de 2024, Hartmann recebeu a Medalha da 56ª Legislatura da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, homenagem concedida por sua trajetória e por sua contribuição ao cooperativismo e ao agronegócio gaúcho. À frente da Ocergs, tem defendido a profissionalização e a melhoria da gestão das cooperativas, a disciplina financeira diante das dificuldades do agronegócio, a ampliação de mercados para produtos e serviços cooperativos, a integração entre os diferentes ramos do cooperativismo e a meta de elevar o faturamento das cooperativas gaúchas a R$ 150 bilhões até 2030.

Hoje, Hartmann preside o Sistema Ocergs, entidade que representa e apoia as cooperativas do Rio Grande do Sul nos setores de agricultura, crédito, saúde, transporte e energia, à frente de um sistema que reúne 375 cooperativas distribuídas pelos sete ramos do cooperativismo gaúcho. Sua gestão à frente da Cotrisoja é lembrada por ele como um período decisivo de aprendizado, marcado pela necessidade de reorganizar a cooperativa com transparência junto aos associados. Já a experiência na prefeitura de Selbach, cidade onde também presidiu o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e a Juventude Rural, reforçou em Hartmann a visão de que a liderança se constrói em equipe e a partir do diálogo com a comunidade.

Em entrevista ao Portal Agrolink, o presidente do Sistema Ocergs fala sobre as origens de sua ligação com o cooperativismo, os desafios enfrentados ao longo de mais de três décadas de gestão, os números recentes do cooperativismo gaúcho e os planos para o futuro do setor diante de desafios como as mudanças climáticas e a transformação tecnológica.

Portal Agrolink: O senhor é advogado por formação e também produtor rural. Como nasceu a sua ligação com o cooperativismo?
Darci Pedro Hartmann:
A gente entendia que sozinho não conseguia resolver os problemas econômicos, que precisava se juntar em cooperação. Meu pai foi cooperativista, e esse trabalho foi continuado por mim: fui ser associado com 18 anos, trabalhando junto com a cooperativa. E foi se construindo essa vocação cooperativista, entendendo cada vez melhor essa filosofia econômica e social que gera a cooperação e que gera desenvolvimento social não só da comunidade, mas também de todos os associados. A partir daí, me interessei muito e comecei a trabalhar, construindo cada vez mais a minha carreira no cooperativismo.

Portal Agrolink: Qual experiência o senhor considera que mais ajudou a formar essa liderança cooperativista que se tornou ao longo dos anos?
Darci Pedro Hartmann:
Acho que o primeiro passo foi ser cooperativista: trabalhei anos como associado de cooperativa. O segundo passo foi quando entrei direto para ser presidente da cooperativa — foi um aprendizado, um impacto bastante forte, um impacto duro, mas que também forjou em mim uma visão muito voltada ao trabalho em equipe. Ninguém faz nada sozinho, ninguém constrói uma gestão sozinho, e desde o início eu tinha essa visão muito clara de que a construção da gestão cooperativista é uma construção em equipe, em que é preciso valorizar os times para que o nosso sucesso possa acontecer.

Portal Agrolink: Em 1990, o senhor assumiu a presidência da Cotrisoja, iniciando uma longa trajetória em cargos de liderança. Qual foi o maior desafio enfrentado no começo dessa atuação como dirigente?
Darci Pedro Hartmann:
Assumimos a Cotrisoja em um momento de dificuldades, e acho que o primeiro desafio foi fazer um trabalho de gestão com muita transparência junto aos associados. Havia uma série de atividades que a cooperativa exercia que não eram atividades-fim, e tivemos que fechá-las. Fomos a reuniões no interior para explicar aos associados, mostrando aquilo que era fundamental e demonstrando que precisávamos encerrar atividades que não eram essenciais para podermos investir naquilo que realmente importava. Entendemos que a transparência é uma das grandes virtudes do cooperativismo, e isso foi compreendido por todos. Conseguimos recuperar a cooperativa e fazer uma gestão muito importante de recuperação nos dez anos em que participei da presidência.

Portal Agrolink: Esse espírito de liderança também rendeu uma experiência como prefeito de Selbach. Como o senhor avalia essa passagem pela administração pública dentro da sua trajetória de liderança?
Darci Pedro Hartmann: 
Sempre gostei da participação comunitária. Desde os 12 anos, participava da Juventude Rural da nossa região, e aos 16 anos já era presidente da Juventude Rural de Silva. Gostava muito dos envolvimentos sociais e comunitários, e isso também me levou a ser presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais com 18 anos. Depois de todo esse envolvimento comunitário, veio uma indicação natural para ser prefeito. Fui eleito duas vezes, não seguidas — tinha 27 anos no primeiro mandato, e depois governei novamente entre 2000 e 2004. Foi uma gestão comunitária muito importante, porque a prefeitura tem essa peculiaridade de você prestar serviço à comunidade, e a retribuição é a satisfação dela. Trabalhar para entender as demandas da comunidade e atendê-las é um desafio muito grande, porque muitas vezes as necessidades são maiores do que a capacidade financeira dos municípios. Mas chegamos a bom termo e fizemos uma bela administração, tanto que fomos reconduzidos novamente à prefeitura.

Portal Agrolink: Hoje o senhor preside o Sistema Ocergs, que reúne cooperativas de diferentes setores e regiões do Estado. Como define a importância do sistema cooperativo para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul?
Darci Pedro Hartmann: 
Hoje é uma das atividades mais importantes do Rio Grande do Sul. Temos 375 cooperativas ligadas ao Sistema Ocergs, distribuídas nos sete ramos do cooperativismo. Cada ramo tem seus desafios e suas peculiaridades, e esses desafios se acentuaram muito nos últimos anos, principalmente por causa das enchentes e das secas — os impactos climáticos têm desafiado muito o cooperativismo. Mas também é preciso destacar que temos saído muito bem apesar de todos esses desafios, porque, nos últimos três anos, crescemos em dois dígitos, mais de 10%. Um dos exemplos mais marcantes foi o ano de 2025: crescemos 10%, enquanto o Estado cresceu 1%. Foram ganhos muito grandes, substanciais, robustos, que mostram a importância do cooperativismo como atividade econômica e social. Independentemente do ramo, o cooperativismo está aí para gerar renda para o associado, e esse modelo em que você se junta, coopera em conjunto para depois dividir o resultado dessa cooperação com os associados é um dos princípios mais democráticos e fundamentais para o desenvolvimento da comunidade. Evidentemente, as cooperativas precisam ter capacidade econômica e gestão profissionalizada para competir com as melhores empresas nacionais e mundiais, mas também precisam manter essa visão de pertencimento e de importância do associado. O cooperativismo tem feito muito bem esse trabalho de unir gestão profissional e pertencimento, e estamos crescendo a olhos vistos: faturamos 103 bilhões de reais em 2025, chegando a mais de 14% do PIB do Rio Grande do Sul.

Portal Agrolink: E qual é o futuro que o senhor projeta para as cooperativas do Estado?
Darci Pedro Hartmann:  
Entendemos que temos um futuro promissor, mas estamos muito atentos e alertas aos desafios que temos pela frente. Uma das frentes em que temos trabalhado com mais força é a representação política: precisamos estar sempre atentos para que o cooperativismo tenha seus direitos preservados e possa continuar competindo. Trabalhamos muito forte também na gestão da profissionalização, preparando as cooperativas para que tenham uma gestão absolutamente profissional e possam competir com as melhores empresas nacionais e internacionais. Também estamos trabalhando agora em um novo hub de negócios, que aproxima o produtor do consumidor, com participação em feiras nacionais e internacionais, dando às cooperativas singulares — que muitas vezes, individualmente, não teriam condições — a oportunidade de comercializar produtos diretamente com o mercado consumidor. Temos uma visão estratégica de que precisamos preparar o cooperativismo para este novo modelo, com os desafios da inteligência artificial, da tecnologia, da mudança nas relações entre associados e cooperativas, e também o desafio climático, que exige que preparemos o associado para uma resiliência climática muito grande, principalmente na área da agropecuária. O produtor precisa começar a fazer as coisas de forma diferente, preparando o solo para que tenha mais resiliência climática. Precisamos pensar em irrigação, em indústria, em transformação, porque o clima mudou e as atividades agropecuárias mudaram junto — e isso vale também para o crédito, para a saúde, para todos os setores, que mudaram com uma velocidade muito grande. Temos que preparar as cooperativas para que possam competir, mas tenho absoluta convicção de que, com os investimentos que o Sistema Ocergs está fazendo junto com o Sescoop, vamos ter as cooperativas preparadas para crescer e competir cada vez melhor no futuro.

Portal Agrolink: Para encerrar, gostaria de um depoimento seu: como o cooperativismo mudou desde o início da sua carreira e qual é a sua mensagem final, depois de tantos anos de liderança — qual valor pessoal considera essencial para liderar uma cooperativa?**
Darci Pedro Hartmann:  
Quando comecei, no início, as cooperativas foram concebidas para que o produtor pudesse entregar sua produção, basicamente trigo e depois soja — por isso as primeiras cooperativas agropecuárias se denominavam trigueiras. Isso também vale para as cooperativas de crédito: o desafio inicial foi trabalhar no meio rural, para que os produtores tivessem uma entidade financeira que respondesse mais de perto às suas necessidades. Vale também para as cooperativas de energia, que fizeram um belíssimo trabalho de levar energia ao campo e hoje trabalham para levar conectividade, um dos grandes desafios atuais. E vale para a saúde, para o transporte, para a educação, para o trabalho — todas as cooperativas surgiram a partir das necessidades da população. Acho que esse é um ponto muito importante: o desafio do cooperativismo hoje está muito ligado ao seu desconhecimento. Precisamos trabalhar cada vez mais para que as pessoas conheçam o cooperativismo, porque quem conhece a cooperativa se associa, se desenvolve e entende que esse é o modelo que melhor responde às suas necessidades e às da população. Temos que nos preparar muito para os novos desafios — a velocidade das mudanças tem impactado fortemente as empresas, e o cooperativismo precisa estar muito preparado para isso. Mas, acima de tudo, o cooperativismo tem um dogma fundamental para nós: ele gosta de pessoas, gosta das relações com as pessoas, gosta do olho no olho, gosta de construir soluções coletivas em cima de necessidades individuais. Diante desses desafios, tenho certeza de que teremos muitas oportunidades no futuro. Vai ser um trabalho grande, mas também teremos soluções muito profícuas, e o cooperativismo vai crescer muito nos próximos anos. Temos uma convicção muito grande nisso.

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