55% da farinha de trigo processada no país vai para pães
O trigo importado continua sendo necessário para complementar o abastecimento
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O trigo importado continua sendo necessário para complementar o abastecimento brasileiro, mesmo após a produção nacional alcançar cerca de 7,8 milhões de toneladas em 2025. A dependência externa afeta uma cadeia que chega diariamente às padarias e tem no pão francês um de seus produtos mais presentes na alimentação dos brasileiros.
Segundo dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (Abip), o consumo de pães no Brasil é de aproximadamente 31 quilos por habitante ao ano. O setor reúne mais de 80 mil padarias, que produzem alimentos panificados diariamente em todas as regiões do país. O tamanho desse mercado ajuda a dimensionar a importância do trigo para o abastecimento nacional. Apesar da força do agronegócio brasileiro, a produção doméstica do cereal ainda não consegue atender integralmente às necessidades dos moinhos e da indústria alimentícia.
De acordo com dados consolidados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção brasileira de trigo chegou a aproximadamente 7,8 milhões de toneladas em 2025, avanço de 3,7% em relação ao ano anterior. Mesmo com o crescimento, o Brasil continua recorrendo ao mercado internacional para complementar a oferta.
A farinha de trigo destinada à panificação ocupa uma parcela relevante desse mercado. De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), reproduzidos em estudos técnicos da Embrapa, aproximadamente 55% da farinha processada no país é direcionada à fabricação de pães. O restante atende ao consumo doméstico e à produção de massas, biscoitos e outras aplicações industriais.
Nesse cenário, elevar a produção nacional envolve mais do que ampliar a área destinada ao cereal. Para Francisco de Carvalho, gerente comercial da Hydroplan-EB, produtividade e qualidade também precisam avançar para diminuir a dependência brasileira do produto externo. “O desafio não é apenas plantar mais trigo, mas produzir mais e melhor. O manejo nutricional adequado permite que a planta expresse seu potencial produtivo, reduza perdas e entregue grãos com a qualidade exigida pela indústria”, afirma Francisco.
Outro ponto que limita a oferta nacional é a concentração geográfica das lavouras. A produção brasileira de trigo permanece fortemente localizada na Região Sul, principalmente no Paraná e no Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo, pesquisas, cultivares adaptadas e novas tecnologias de manejo vêm permitindo que a cultura avance pelo Cerrado e por outras regiões brasileiras.
A expansão para novas áreas, porém, exige atenção ao desenvolvimento das plantas ao longo de todo o ciclo produtivo. Segundo Francisco, condições nutricionais adequadas podem contribuir para maior estabilidade das lavouras diante de situações adversas. “Uma planta bem nutrida enfrenta melhor os períodos de estresse climático, apresenta maior estabilidade produtiva e forma grãos de melhor qualidade. Esse ganho de eficiência fortalece o produtor e toda a cadeia do trigo”, afirma.
A dependência das compras externas também amplia a exposição do mercado brasileiro a fatores que estão fora do controle da produção nacional. Variações cambiais, problemas climáticos nos países fornecedores e oscilações das cotações internacionais podem influenciar os custos enfrentados pela cadeia.
Mesmo quando a importação envolve o trigo em grão, e não a farinha pronta, os efeitos dessas variações podem alcançar moinhos, padarias e indústrias de alimentos.
O pão francês, portanto, funciona como uma das pontas mais visíveis de uma cadeia que começa nas lavouras e ainda depende do mercado externo para completar sua oferta. Com maior produtividade, qualidade e eficiência no cultivo do trigo brasileiro, a necessidade de importações tende a diminuir, fortalecendo o abastecimento de um mercado diretamente ligado ao consumo cotidiano da população.