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A Voz do Mercado: Talk show debate alta das recuperações judiciais no agro

Especialistas avaliam recorde de RJs em 2025


Foto: Divulgação

O Brasil encerrou 2025 com 5.680 empresas em Recuperação Judicial (RJ), o maior número já registrado no país. O volume representa alta de 24,3% em relação ao fim de 2024, conforme dados do Monitor RGF de Recuperação Judicial, elaborado pela RGF & Associados. No agronegócio, os pedidos cresceram 61,4% entre o primeiro e o terceiro trimestre de 2025, o maior índice desde 2021, segundo a Serasa Experian.

O cenário foi debatido na 30ª edição do Talk Show “A Voz do Mercado”, realizada nesta quarta-feira, 25, com mediação de Ivan Wedekin e Suelen Farias. O programa teve como tema “Recuperação Judicial no Agro: Fatos e Mitos”.

Participaram do encontro Roberto Levrero, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo); Guilherme Rios, assessor de Política Agrícola na Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA); e Renato Buranello, sócio do VBSO Advogados e vice-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).

Para assistir o programa na íntegra, clique aqui.

Renato Buranello aponta apreensão na cadeia produtiva

Ao comentar o aumento das recuperações judiciais, Renato Buranello afirmou que “toda a cadeia de produção está apreensiva”. Segundo ele, o cenário não se restringe ao perfil do produtor ou às instituições financeiras. “Não é uma questão do produtor, não é uma questão só de bancos. Não queria que todos tivessem essa impressão de que não é o pequeno ou grande, a questão é a interpretação e o funcionamento desses modelos de negócio hoje no setor”, declarou. Para o especialista, o quadro recorde de recuperações judiciais “coloca tudo meio a prova”.

Buranello explicou que a recuperação judicial é “um concurso coletivo” que reúne credores sob coordenação do Judiciário para organizar um plano de pagamento. “O que visa, lá no começo da lei está bem claro assim ‘a preservação da empresa ou a preservação da atividade econômica’”, afirmou, lembrando que a antiga concordata foi substituída pela atual legislação.

Sobre o produtor rural, destacou que a Lei 14.112 criou um capítulo específico para permitir que produtores, inclusive os que atuam como pessoa física, possam acessar o instrumento. “Foi criado na verdade um regime especial, um regime específico para aqueles que ainda comprovasse anterioridade da atividade registrada de produção rural”, disse.

Ele ressaltou que a reforma passou a exigir documentos contábeis e fiscais para o pedido de recuperação. “Além do imposto de renda, balanço patrimonial, esses requisitos buscavam trazer maior transparência e melhorar governança”, explicou. Segundo Buranello, a norma também determinou a separação entre patrimônio pessoal e patrimônio da atividade rural. “É preciso ter a separação daquilo que vai ser lançado, aquilo que contabilmente faz parte da atividade organizada de produção e aquilo que não é atividade de produção”, afirmou.

Roberto Levrero relata efeito cascata no crédito

O presidente da Abisolo, Roberto Levrero, avaliou que o aumento das recuperações judiciais impacta o financiamento do setor. “Hoje a indústria do setor financeiro, os bancos, as cooperativas e os canais de distribuição representam o maior fomentador da agricultura”, afirmou.

Segundo ele, a combinação de Selic elevada e aumento do risco encareceu o crédito. “Você eleva o risco, todo mundo começa a olhar com mais cautela. Começa a ficar com menos coragem de continuar investido ou fomentando ou financiando um segmento”, disse.

Levrero afirmou que recuperações judiciais mal estruturadas geraram “efeito cascata” e pressionaram o custo do custeio. “As primeiras recuperações judiciais surtiram um efeito muito negativo para o segmento trazendo o encarecimento do custeio”, declarou. Para ele, a restrição de crédito afeta decisões de investimento e pode comprometer produtividade e geração de receita, sobretudo em um cenário de preços de commodities mais baixos.

Guilherme Rios relaciona endividamento ao seguro rural

Para Guilherme Rios, assessor de Política Agrícola da CNA, o aumento das recuperações judiciais decorre de um conjunto de fatores. “Foi um tripé, quais são as pernas desse tripé? Primeiro o clima, depois as questões de mercado, preços dos produtos e também a questão organização ou falta da organização financeira”, afirmou.

Ele avaliou que um seguro rural estruturado poderia reduzir o nível de endividamento. “Ainda que o seguro rural não resolvesse todos esses problemas, com certeza o seguro rural bem estruturado, que atendesse não só questões climáticas, mas de faturamento também, com certeza os níveis de endividamento que nós estamos assistindo hoje seriam bem menores”, disse.

Rios informou que, em 2025, o programa de subvenção ao prêmio do seguro rural contou com orçamento de pouco mais de R$ 1 bilhão, enquanto a demanda do setor é de R$ 4 bilhões. “Esse um bilhão já era insuficiente e ainda teve o agravante de estar forma contingenciável”, afirmou, acrescentando que mais de 40% dos recursos foram bloqueados ao longo do ano. Como resultado, segundo ele, foram cobertos 3,2 milhões de hectares, menos de 5% da área.

Ao comparar com os Estados Unidos, Rios destacou a diferença de escala. “Ano passado eles aplicaram mais de 10 bilhões de dólares e cobriram mais de 200 milhões de hectares, aproximadamente 90% de toda a sua área”, declarou.

Ele defendeu mudanças estruturais e citou o projeto de lei 2951/2024, da senadora Tereza Cristina, como base para reformular o programa. “O projeto não resolve todos os problemas, mas com certeza dá a base fundamental para gente começar essa nova construção”, afirmou. Segundo Rios, o objetivo é oferecer “um seguro que vai socorrer o produtor no momento que ele mais necessita”.

Para assistir o programa na íntegra, clique aqui

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