Abelhas nativas ajudam soja e reforçam valor do Cerrado
Pesquisa revela 27 novas abelhas associadas à soja
Foto: Pixabay
A presença de abelhas nativas em lavouras de soja pode contribuir para o desempenho da cultura. Estudo liderado pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, no sudoeste de Goiás, identificou 27 novos registros de abelhas associadas à soja e apontou que a presença de abelhas silvestres pode aumentar, em média, 7% o peso dos grãos.
As espécies foram encontradas em plantações de soja de Rio Verde e Montividiu, onde os pesquisadores identificaram 40 espécies que ainda não haviam sido citadas na literatura científica. Considerando também os fragmentos de vegetação nativa no entorno das lavouras, o levantamento chegou a 53 espécies, distribuídas em cinco famílias: Apidae, Andrenidae, Megachilidae, Colletidae e Halictidae.
Os resultados estão publicados no artigo Bioinput Use and Native Vegetation Fragments are Associated With Higher Bee Community Evenness in Large-Scale Soybean Crops, no Journal of Applied Entomology, e são fruto de anos de pesquisa.
Segundo dados divulgados pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, a conservação dos fragmentos de vegetação nativa próximos às lavouras pode favorecer a manutenção dos polinizadores e, ao mesmo tempo, contribuir para a produção agrícola.
O estudo indica que preservar as abelhas silvestres pode trazer benefícios para a biodiversidade e para a produtividade da soja, além de contribuir para a sustentabilidade da produção e para a segurança alimentar. A pesquisa também relaciona a conservação dos polinizadores a critérios ESG, cada vez mais presentes nas exigências dos mercados internacionais.
O estudo avaliou ainda os efeitos do manejo agrícola sobre as comunidades de abelhas. Historicamente, a produção de soja em larga escala tem utilizado inseticidas e fungicidas sintéticos de amplo espectro.
Segundo dados divulgados pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, propriedades com manejo químico mais intensivo apresentaram redução na equitabilidade das comunidades de abelhas.
A pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia Carmen Pires explica que a equitabilidade indica como os indivíduos estão distribuídos entre as diferentes espécies de uma comunidade. Nas áreas avaliadas, o manejo mais intensivo esteve associado à redução da diversidade. O cenário favoreceu um número menor de espécies possivelmente mais tolerantes ao estresse, enquanto espécies mais especializadas e potencialmente mais eficientes na polinização deixaram de ocorrer.
Pires também alerta que a quantidade total de insetos, isoladamente, não é suficiente para avaliar a saúde de uma comunidade. “Uma área altamente pulverizada com químicos pode apresentar um número elevado de insetos na contagem rápida, mas quase todos pertencem a uma única espécie resistente. Funcionalmente, a lavoura torna-se um "deserto de biodiversidade", vulnerável e dependente de intervenções artificiais constantes”, explica Pires.
Segundo dados divulgados pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, propriedades que integraram bioinsumos, como bactérias e fungos utilizados no controle biológico de pragas e na fertilização do solo, e reduziram a dependência de produtos químicos de alta toxicidade apresentaram comunidades de abelhas mais equilibradas, saudáveis e funcionalmente diversas.
O estudo aponta ainda que cerca de 60% das espécies identificadas no sudoeste de Goiás constroem os ninhos diretamente no chão. Nesse contexto, práticas de agricultura regenerativa podem contribuir para a preservação desses ambientes. Carmen Pires destaca que a redução do revolvimento do solo e a manutenção da palhada protegem os ninhos subterrâneos dentro das áreas de soja. “Sem tratores desfazendo seus abrigos e sem venenos penetrando a terra, essas abelhas podem persistir de uma safra para a outra, prontas para polinizar a próxima floração”, diz.
A maioria das espécies coletadas, 44,7%, apresenta hábitos de vida solitários. Diferentemente das abelhas sociais, essas espécies não vivem em colônias populosas e não podem ser manejadas em caixas por apicultores para polinização assistida. Por dependerem das condições ecológicas da propriedade para sobreviver, as abelhas solitárias exigem práticas que favoreçam sua permanência nas áreas agrícolas. A pesquisa também identificou uma relação entre os fragmentos de vegetação nativa do Cerrado e a presença de abelhas nas lavouras.
Segundo dados divulgados pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, as áreas de vegetação nativa próximas às plantações funcionam como refúgios ecológicos e fontes de polinizadores. Nas matas vizinhas, a espécie mais representativa foi a Ceratina duplocarinata. Já nas áreas de soja, predominou o gênero Dialictus.
A distância entre a lavoura e as bordas de vegetação nativa também teve influência nos resultados. Quanto maior o afastamento das áreas de soja em relação ao Cerrado preservado, menores foram a riqueza e a abundância de abelhas nativas encontradas nas flores. Os fragmentos de vegetação oferecem abrigo, locais de nidificação e fontes alternativas de alimento nos períodos em que a soja não está em floração. Segundo dados divulgados pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, 18% das espécies identificadas fazem ninhos em ocos de troncos de árvores caídas.
Conduzido pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, o estudo contou com pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e do Instituto Federal Goiano – Campus Rio Verde (IF Goiano). A pesquisa integra o projeto Regenera Cerrado, desenvolvido em parceria entre instituições de pesquisa, produtores rurais e a Cargill. O projeto avalia os impactos da adoção de práticas de agricultura regenerativa sobre a saúde do solo, a ocorrência de pragas e a presença de inimigos naturais em áreas de produção no sudoeste de Goiás.