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Agricultura familiar recebe R$ 97,3 bilhões, mas desafio é transformar crédito em comida mais barata

O novo Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/27 prevê R$ 97,3 bilhões em crédito


Foto: Pexels - George Thomas

O novo Plano Safra da Agricultura Familiar chega ao campo com uma promessa econômica clara: ampliar o crédito para pequenos produtores e tentar aproximar esse dinheiro da mesa do consumidor. O pacote anunciado pelo governo para 2026/2027 soma R$ 97,3 bilhões em crédito, seguro agrícola, compras públicas, assistência técnica e extensão rural. Desse total, R$ 85,2 bilhões serão destinados ao Pronaf, volume quase 9% superior ao da safra anterior.

O tamanho do pacote importa porque a agricultura familiar não é uma parte pequena do agro brasileiro. Segundo o Censo Agropecuário do IBGE, o país tinha 3.897.408 estabelecimentos classificados como agricultura familiar em 2017, o equivalente a cerca de 77% dos estabelecimentos agropecuários. Esses produtores ocupavam 80,9 milhões de hectares, ou 23% da área total, respondiam por 23% do valor da produção e concentravam 10,1 milhões de pessoas ocupadas, cerca de 67% da mão de obra no campo.

O crédito mais barato para o pequeno produtor pode ajudar a segurar o preço dos alimentos? A resposta é mais simples do que parece. Dinheiro disponível melhora o capital de giro, permite compra de insumos, reduz dependência de crédito informal e pode destravar investimento em irrigação, máquinas pequenas, armazenagem e assistência técnica. Mas o efeito sobre a inflação dos alimentos depende de execução, clima, logística, escala e capacidade de comercialização.

É aí que mora a pauta. O Plano Safra não deve ser tratado apenas como anúncio de governo, mas como política de oferta. Quando o pequeno produtor consegue plantar mais, perder menos e vender melhor, o impacto potencial aparece em produtos sensíveis no orçamento das famílias, como feijão, arroz, mandioca, leite, ovos, frutas e hortaliças. São alimentos menos ligados ao mercado financeiro internacional do que soja e milho, mas muito expostos a clima, transporte e margem de intermediação.

Além do crédito rural, o pacote inclui 10 editais que somam R$ 832,5 milhões e devem beneficiar mais de 93 mil famílias. Entre as medidas, o Terra à Mesa Garantia-Safra Semiárido prevê R$ 413,4 milhões para atender 63,6 mil famílias, com ações de assistência técnica, cooperativismo, agroecologia, agricultura urbana, sociobioeconomia e autonomia de mulheres rurais.

O ponto de tensão é que a agricultura familiar tem peso social maior do que poder de mercado. Ela emprega muito, ocupa menos área e responde por parcela relevante da comida consumida no país, mas costuma vender com pouca capacidade de armazenagem e baixo poder de barganha. Na prática, isso significa que uma alta no crédito pode melhorar a renda do produtor sem necessariamente reduzir o preço final se os gargalos estiverem no frete, no atacado, no varejo ou nas perdas pós-colheita.

A reportagem deve acompanhar o caminho do dinheiro. Quanto chega de fato ao produtor? Em que prazo? Com que juro? Para quais culturas? E, principalmente, quem consegue acessar? A agricultura familiar é grande no Censo, mas fragmentada no mercado. Se o Plano Safra conseguir reduzir essa distância entre política pública e produção real, o impacto econômico será mais forte do que o número de lançamento. Se não conseguir, o pacote corre o risco de virar crédito anunciado, mas pouco sentido no preço dos alimentos.

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