Alta do petróleo acende alerta para inflação, juros e Bolsa
A alta do petróleo voltou ao centro das atenções
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A alta do petróleo voltou ao centro das atenções do mercado financeiro e aumenta a preocupação com inflação, juros e crescimento econômico. O barril do Brent avançava cerca de 3%, para US$ 108, enquanto o WTI operava próximo de US$ 103, em um ambiente marcado por novos ataques à infraestrutura energética saudita, tensão no Estreito de Ormuz e adiamento das conversas entre Irã e países do Golfo.
Segundo análise de Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, a movimentação do petróleo pode gerar uma cadeia de efeitos sobre a economia mundial. Antes da guerra, aproximadamente 20% da oferta diária global de petróleo e gás natural liquefeito passava pelo Estreito de Ormuz. Ao mesmo tempo, o oleoduto saudita Leste-Oeste, atingido por drones, transportava entre 4 milhões e 5 milhões de barris por dia.
Na avaliação da executiva, a consequência vai além do aumento dos combustíveis. A valorização do petróleo amplia a pressão sobre os preços e pode influenciar diretamente a condução da política monetária nas principais economias. “Petróleo acima de US$ 100 não abastece apenas carros: abastece juros”, afirma Olívia.
Nos Estados Unidos, o movimento ocorre justamente em uma semana de atenção às decisões do Federal Reserve. De acordo com os dados apresentados na análise da Magno Investimentos, o mercado passou a atribuir cerca de 86% de probabilidade a uma elevação de 0,25 ponto percentual nos juros. O Treasury de dez anos se aproximava da região de 5%, enquanto o índice DXY avançava para perto de 99,6, maior nível em duas semanas. As empresas de tecnologia também enfrentavam pressão diante de novas preocupações relacionadas à inteligência artificial.
O reflexo da maior aversão ao risco também apareceu nos mercados asiáticos. O Kospi recuou 3,26% e o Nikkei perdeu 0,58%. O minério de ferro negociado em Cingapura operava próximo de US$ 95,75, com queda de 0,80%, enquanto os ADRs da Vale acompanhavam o movimento negativo no pré-mercado dos Estados Unidos.
Para o mercado brasileiro, o cenário combina forças em direções diferentes. O petróleo mais caro tende a beneficiar a Petrobras, enquanto a fraqueza do minério pode limitar o desempenho da Vale, duas companhias com participação relevante no Ibovespa. Ao mesmo tempo, o aumento da cotação do petróleo amplia os riscos inflacionários e pode dificultar o processo de redução dos juros.
O cenário doméstico já apresenta sinais mistos. O Boletim Focus reduziu a projeção para o IPCA de 2026 de 5,00% para 4,90%. Em contrapartida, a expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto caiu de 1,93% para 1,89%.
Para 2027, a projeção de crescimento do PIB passou de 1,50% para 1,45%, enquanto a estimativa de inflação apresentou leve alta, de 4,29% para 4,30%. A expectativa para a Selic permaneceu em 13,75% em 2026, 12,00% em 2027 e 10,50% em 2028. Para Olívia, os números reforçam o desafio de equilibrar inflação e atividade econômica. “Juros altos compram tempo, não compram produtividade”, afirma.
Apesar das incertezas, o mercado acionário brasileiro voltou a receber recursos estrangeiros. Segundo dados divulgados pela mesa e apresentados pela Magno Investimentos, houve entrada de R$ 1,235 bilhão em 10 de setembro. Com isso, o saldo positivo de setembro chegou a R$ 7,427 bilhões, enquanto o ingresso de capital externo acumulado em 2026 alcançou R$ 25,716 bilhões.
O movimento ocorre após agosto terminar com retirada líquida de R$ 18,12 bilhões. Na reta final daquele mês, entretanto, o fluxo já havia apresentado melhora de aproximadamente R$ 5,1 bilhões. Na avaliação da CEO da Magno Investimentos, o retorno desses recursos está relacionado à percepção de preço dos ativos brasileiros. “O estrangeiro não se apaixonou pelo Brasil; começou a achar o preço interessante”, diz.
Além dos juros e das commodities, o processo eleitoral brasileiro também passou a integrar de forma mais intensa as avaliações dos investidores. A pesquisa BTG/Nexus citada na análise coloca Lula com 42% e Flávio Bolsonaro com 37% no primeiro turno. Em uma eventual disputa de segundo turno, os números apresentados são de 47% e 46%, respectivamente, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Na pesquisa anterior mencionada no material, Flávio Bolsonaro aparecia numericamente à frente, com 46%, contra 45% de Lula, movimento que havia contribuído para a valorização dos ativos brasileiros. Para Olívia, a proximidade dos números faz com que o cenário eleitoral tenha impacto crescente sobre as decisões de investimento. “A urna abre em outubro, mas o mercado já vota todos os dias”, afirma.
O comportamento do Ibovespa também exige atenção. Segundo análise técnica da XP apresentada nesta manhã, um fechamento acima da resistência de 189.500 pontos poderia abrir espaço para 199.350 pontos e, posteriormente, 205 mil pontos. Por outro lado, a perda dos 184.600 pontos poderia levar o índice novamente para 180 mil ou 175 mil pontos. O Índice de Força Relativa, IFR, já indicava condição de sobrecompra.
Na quinta-feira, o Ibovespa havia encerrado aos 188.268 pontos, acumulando valorização de 16,85% em 2026 e de 6,12% somente em setembro. O ambiente de maior seletividade também aparece nas movimentações corporativas. Morgan Stanley, Goldman Sachs, Kaszek e XP entraram na estrutura acionária da A5X, que pretende iniciar operações em 2027 e possui valuation informado de R$ 2,7 bilhões.
A CSN, por sua vez, busca uma operação que pode superar R$ 12 bilhões envolvendo sua divisão de cimentos. No agronegócio, a SLC Agrícola aprovou uma captação de R$ 515,5 milhões por meio de CPR-F. Já o XPML11 informou resultado de R$ 45,45 milhões, mantendo dividendos de R$ 0,92 por cota.
Na avaliação da Magno Investimentos, os diferentes movimentos fazem parte de uma mesma sequência de riscos e oportunidades. A tensão no Estreito de Ormuz afeta o petróleo, que influencia a inflação e as expectativas de juros. Os juros, por sua vez, interferem no dólar, no fluxo de recursos e na avaliação dos ativos brasileiros.
Nesse ambiente, fatores domésticos como crescimento econômico, política fiscal e eleição também ganham peso na decisão dos investidores. “Patrimônio não se estrutura adivinhando a próxima manchete; estrutura-se para sobreviver a ela. O mercado muda de preço todos os dias. Estrutura é o que impede o investidor de mudar de estratégia junto com ele”, conclui Olívia Flôres de Brás.