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Alta dos fertilizantes acende alerta para os custos da safra 2026/27

A participação do Oriente Médio é ainda mais relevante nos nitrogenados.


Foto: Pexels - Leiliane Dutra

A elevação dos preços internacionais dos fertilizantes entrou no radar dos produtores que planejam a safra 2026/27. O movimento é mais intenso nos produtos nitrogenados, especialmente a Ureia, e ocorre justamente antes do período em que o Brasil costuma ampliar suas compras externas de insumos para o plantio de verão.

Relatório publicado pelo Banco Central mostra que o preço de referência da Ureia granular entregue no Brasil subiu 50% em maio, na comparação com a média dos dois primeiros meses de 2026. No mesmo intervalo, o fosfato monoamônico, conhecido como map, avançou 29,7%, enquanto o Cloreto de potássio teve elevação de 9,7%.

A diferença entre os percentuais indica que a pressão não ocorre de maneira uniforme. Os fertilizantes nitrogenados foram os mais atingidos, em meio à valorização da energia e às incertezas sobre a produção e o comércio internacional.

O gás natural é uma das principais matérias-primas utilizadas na fabricação de amônia e Ureia. Por isso, instabilidades em regiões produtoras de energia podem atingir tanto os custos industriais quanto o transporte dos insumos até os países consumidores.

O Brasil depende do mercado internacional para atender a maior parte de sua demanda por fertilizantes. Em 2025, a Rússia respondeu por 25,9% do valor importado pelo país, seguida pela China, com 18,8%, e pelo Oriente Médio, com 14,5%.

A participação do Oriente Médio é ainda mais relevante nos nitrogenados. Esse grupo representou aproximadamente um terço das importações brasileiras de fertilizantes em 2025, e 22% do volume adquirido teve origem na região. O Oriente Médio também concentra cerca de 34% do comércio mundial de Ureia, segundo dados da International Fertilizer Association citados pelo Banco Central.

Essa concentração não significa que o Brasil ficará sem produto. O país possui outros fornecedores importantes e os importadores podem redirecionar compras conforme preço, disponibilidade e prazo de entrega.

A troca de origem, entretanto, pode envolver trajetos mais longos, fretes marítimos diferentes e maior disputa pelas cargas disponíveis. Esses fatores podem aumentar a volatilidade justamente no período de formação dos custos da safra.

O Banco Central avalia que os efeitos sobre a produção agrícola de 2026 devem ser limitados, porque uma parcela importante dos fertilizantes utilizados nas lavouras já havia entrado no país antes do agravamento das tensões internacionais.

O ponto de maior atenção é a safra de grãos de 2027. Historicamente, as importações brasileiras de fertilizantes aumentam no segundo semestre, acompanhando a preparação para o plantio da soja, do milho e de outras culturas de verão. Portanto, a duração da alta internacional será determinante para definir o impacto final sobre os produtores.

Uma valorização temporária pode ser parcialmente absorvida pelos estoques existentes, pela negociação antecipada e por uma eventual melhora do câmbio. Caso os preços permaneçam elevados durante o período de compras, a pressão tende a aparecer de forma mais clara nas planilhas de custeio.

Entre as principais culturas de grãos, o milho tende a apresentar maior exposição direta ao encarecimento dos nitrogenados. O Nitrogênio está entre os nutrientes exigidos em maior quantidade pela cultura e influencia tanto a produtividade quanto o custo da lavoura.

A soja também utiliza grandes quantidades de Nitrogênio, mas parte significativa da necessidade da planta pode ser atendida pela fixação biológica. Nesse processo, bactérias associadas às raízes capturam o Nitrogênio presente na atmosfera e o transformam em uma forma aproveitada pela cultura, reduzindo a necessidade de fertilizante nitrogenado mineral.

Mesmo assim, a soja não está protegida do movimento internacional. A cultura utiliza fertilizantes fosfatados e potássicos, que também ficaram mais caros, além de sofrer os efeitos indiretos de fretes, combustíveis, defensivos e outros insumos.

Estimativas do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária mostram diferenças relevantes entre soja e milho no planejamento da temporada 2026/27.

Para a soja, o custeio foi calculado em R$ 4.207,88 por hectare, alta de 0,64% em relação à temporada anterior. O custo total, que inclui depreciação, remuneração do capital e outros componentes, foi estimado em R$ 8.037,13 por hectare, aumento anual de 4,70%.

No milho, o custeio chegou a R$ 3.686,80 por hectare, elevação de 11,06%. O custo total foi projetado em R$ 7.303,96 por hectare, avanço de 8,59%.

As estimativas foram elaboradas em março, antes de o Banco Central registrar integralmente a alta dos fertilizantes observada até maio. Isso não permite afirmar que os custos serão automaticamente revisados na mesma proporção, mas mostra que parte da pressão já aparecia nas contas do milho antes do avanço mais recente da Ureia.

Para o produtor, o impacto não depende apenas do preço do fertilizante em reais. A decisão de compra também considera a relação de troca, ou seja, quantas sacas de soja, milho ou outro produto são necessárias para adquirir uma tonelada do insumo.

Mesmo com um fertilizante mais caro, uma valorização proporcional da commodity pode preservar o poder de compra. O cenário se torna mais desfavorável quando os insumos avançam enquanto o preço futuro do grão permanece estável ou recua.

Câmbio, frete marítimo, disponibilidade nos portos e ritmo das compras brasileiras deverão influenciar essa relação ao longo do segundo semestre. A capacidade financeira de cada produtor também será determinante, já que compras antecipadas exigem capital ou acesso ao crédito.

O cenário atual representa um alerta para o planejamento, mas ainda não confirma falta de produto nem aumento definitivo do custo em todas as regiões. O efeito dependerá da duração da pressão internacional e do momento em que cooperativas, revendas e produtores fecharem suas aquisições.

Antes de alterar doses ou substituir produtos, a recomendação técnica é considerar a análise do solo, a expectativa de produtividade e a orientação agronômica. A redução indiscriminada da adubação pode diminuir o desembolso inicial, mas também comprometer o rendimento da lavoura e aumentar o custo por saca produzida.

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