O uso da pele de rã para acelerar a cicatrização de ferimentos oriundos de queimaduras começa a evoluir no Brasil. Esta semana, pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB) anunciaram que começam a testar um curativo mais barato que o convencional. O novo produto, batizado de Ranafilm, não utiliza antibióticos para conservação da pele e não precisa ser conservado no frio, o que tende a reduzir os custos e pode possibilitar seu uso pelo setor público de saúde.
Há vários anos, alguns hospitais brasileiros como o Pronto Socorro e Hospital de Goiânia e a Universidade do Rio Grande do Norte (UFRN) já utilizam a pele da rã como cobertura temporária da pele humana em queimaduras graves. A descoberta foi feita na década de 90 pelo médico goiano Nelson Picollo. A técnica, no entanto, é cara e ainda está longe de ser um procedimento comum. Em Brasília, o projeto está sendo desenvolvido em parceria com o Hospital Regional da Asa Norte (Hran) e com Rander Agroindústria, especializada na produção e processamento de carne de rã.
O médico Edmar Adorno, do Hran, informa que uma das vantagens desde produto em relação ao original é que ele é desidratado e não congelado. "Isso permite maior mobilidade e facilidade de armazenamento. Posso ter um curativo na própria maleta que, na hora do uso, é hidratado novamente em soro fisiológico", diz. Além disso, o Ranafilm não utiliza antibióticos para esterilização da pele, e sim cobaltoterapia (raios gama). "Uma pessoa queimada apresenta debilidades, entre elas a do sistema imunológico. A utilização de antibiótico aumenta o risco de aparecimento de bactérias resistentes ao próprio medicamento", explica a professora Elisabeth Schwartz, coordenadora do Laboratório de Toxicologia da UnB.
Mas a maior vantagem é o custo. "Hoje, os hospitais trabalham basicamente com curativos sintéticos, caros e importados, ou sem curativos, o que representa 20 anos de atraso em relação ao resto do mundo", diz Adorno. Os curativos biológicos são pouco usados no País. "Pode estar nascendo uma solução importante para saúde pública", diz o médico. Um curativo sintético de 5cm x 5 cm pode alcançar o preço de R$ 90. A alternativa em estudo sairia entre R$ 4 e R$ 6.
Além disso, como a pele de rã tem propriedades naturais que inibem o crescimento de bactérias e reduzem o tempo de cicatrização, isso significa menor tempo de internamento. E menos dinheiro.
Segundo a Sociedade Brasileira de Queimadura (SBQ), o custo diário do tratamento de um "grande queimado" é de R$ 1,2 mil a R$ 1,5 mil, sem levar em conta a reabilitação e os custos indiretos. Também ajuda na redução do custo o fato de o Ranafilm ser feito da pele da rã, que normalmente é rejeitada pelo criadouro, que tem como principal sub-produto a carne. "São cerca de 20 mil peles inutilizadas/mês, que daqui para frente poderão ter uso social importante", diz o proprietário da Rander, Joaquim Barbosa.