Avanço da agricultura digital amplia demanda por operadores
Máquinas mais modernas exigem novo perfil profissional
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A capacitação técnica no agro tornou-se um dos principais desafios para ampliar os resultados da transformação digital nas propriedades brasileiras. Mesmo com o agronegócio alcançando o maior contingente de trabalhadores da série histórica do Cepea/CNA no ano passado, com 28,58 milhões de pessoas empregadas, produtores e empresas enfrentam dificuldades para encontrar profissionais preparados para operar sistemas de agricultura de precisão, automação, telemetria e gestão de dados.
O avanço da tecnologia mudou o perfil da mão de obra exigida dentro das fazendas. GPS, monitores de plantio, plataformas digitais e sistemas de telemetria já estão presentes principalmente em propriedades de médio e grande porte, mas o conhecimento necessário para utilizar todos os recursos disponíveis nem sempre acompanha a velocidade dos investimentos.
Na prática, essa diferença entre a tecnologia instalada e a capacidade de operação pode reduzir o retorno obtido pelo produtor. Levantamentos citados pelo setor indicam que a falta de profissionais qualificados contribui para a subutilização de máquinas, conectividade, automação e ferramentas digitais, limitando ganhos de produtividade, eficiência operacional e rentabilidade.
O problema também está ligado a uma transformação demográfica de várias décadas. De acordo com o último Censo do IBGE, realizado em 2022, aproximadamente 87% da população brasileira vive em áreas urbanas. Na década de 1960, mais da metade dos brasileiros ainda vivia no campo. A inversão desse cenário reduziu gradualmente a disponibilidade de trabalhadores nas áreas rurais.
Ao mesmo tempo, a digitalização passou a exigir habilidades diferentes daquelas tradicionalmente associadas à operação de tratores e colheitadeiras. Além de conduzir as máquinas, profissionais precisam configurar softwares embarcados, acompanhar informações de telemetria e interpretar dados que podem ser usados nas decisões agronômicas. Para Rosiéli Mika Bonette, gerente de Marketing de Produto da PTx Trimble na América Latina, enfrentar esse cenário depende da atuação conjunta de diferentes agentes ligados ao agronegócio, incluindo empresas de tecnologia, instituições de ensino, entidades de pesquisa, distribuidores e poder público. “O desafio da mão de obra não é apenas uma questão do setor agrícola, mas um elemento crítico para o avanço da transformação digital no campo. Investir em pessoas e conhecimento é tão importante quanto investir em máquinas, softwares e conectividade, pois são os profissionais capacitados que transformam tecnologia em resultados”, afirma.
Os impactos da capacitação podem ser percebidos diretamente nas operações agrícolas. Conforme levantamentos do setor citados no material, sistemas de piloto automático podem acrescentar entre 2% e 5% ao aproveitamento da área produtiva ao diminuir falhas e sobreposições durante as operações. No plantio, dosadores de precisão podem atingir índices de singulação próximos de 99%. Uma pequena redução no desempenho, entretanto, já pode representar perdas relevantes para o produtor.
“Ainda assim, uma queda de apenas 1 ponto percentual neste índice pode representar perdas de até 2,5 sacas por hectare. Em situações mais críticas, o manejo inadequado da força aplicada pelas linhas de plantio, parâmetro que hoje é configurado via software, não mais no olho, pode custar até 17 sacas por hectare, a depender das condições de solo e operação”, explica Rosiéli.
Além dos possíveis reflexos sobre produtividade e rentabilidade, a modernização das máquinas também passou a influenciar a atração e a permanência de profissionais no campo. Segundo relatos de produtores citados no material, operadores têm demonstrado preferência por equipamentos mais modernos, especialmente em atividades com jornadas prolongadas, como plantio e colheita.
O piloto automático, por exemplo, pode proporcionar maior conforto durante a operação. Já na pulverização, tecnologias de limpeza e recirculação automatizadas diminuem atividades repetitivas e reduzem o risco de exposição do trabalhador a defensivos agrícolas, combinando benefícios relacionados à eficiência e à saúde ocupacional.
Nesse contexto, empresas fornecedoras de tecnologia passaram a ampliar ações voltadas à formação dos usuários. A PTx, fabricante de soluções de agricultura de precisão, conectividade e automação, mantém programas técnicos direcionados à sua rede de distribuidores, além de realizar clínicas de plantadeiras, demonstrações práticas e webinars voltados a produtores e operadores.
Outra estratégia adotada pela companhia é reduzir a dificuldade de adaptação às ferramentas digitais por meio de interfaces mais conhecidas pelos usuários. Os monitores da linha GFX, por exemplo, utilizam sistema Android, ambiente semelhante ao encontrado em grande parte dos smartphones.
O suporte remoto também passou a fazer parte desse processo. A tecnologia permite realizar treinamentos e atendimentos a distância, o que pode diminuir o período em que uma máquina permanece parada enquanto o operador aguarda assistência técnica. “A falta de mão de obra qualificada é hoje um dos principais desafios para a evolução da agricultura moderna. O verdadeiro valor da tecnologia só é gerado quando ela é adotada em sua plenitude, por isso, investir em pessoas e conhecimento é tão importante quanto investir em máquinas, softwares e conectividade”, ressalta Rosiéli.
A discussão ganha ainda mais importância com a chegada de soluções de autonomia assistida ao mercado brasileiro. Entre elas está o kit retrofit OutRun, apresentado pelo setor como uma ferramenta destinada a melhorar a execução das atividades e permitir que trabalhadores sejam direcionados a funções de maior valor agregado dentro das propriedades.
Segundo a representante da PTx Trimble, a proposta dessas soluções não é eliminar postos de trabalho. As operações continuam supervisionadas por profissionais, enquanto a automação assume parte das atividades repetitivas e busca reduzir diferenças de desempenho entre operadores.
“A proposta dessa tecnologia, no entanto, não é substituir empregos. Tal inovação foi desenvolvida para apoiar o produtor rural e as equipes no campo, aumentando a eficiência, sustentabilidade e a segurança das operações. No OutRun, as atividades continuam sendo supervisionadas por pessoas, enquanto a tecnologia ajuda a otimizar tarefas repetitivas, permitindo que os profissionais se dediquem a funções mais estratégicas e de maior valor agregado. Acreditamos que a inovação é uma aliada do trabalho no campo, contribuindo para operações mais produtivas, sustentáveis e rentáveis”, destaca Rosiéli.
Com a digitalização avançando sobre diferentes etapas da produção, tecnologia e mão de obra passam a ocupar posições complementares dentro das propriedades. O desafio para o setor é fazer com que a formação profissional acompanhe os investimentos em máquinas e sistemas, permitindo que recursos já disponíveis no campo sejam utilizados em todo o seu potencial.