Brasil busca liderança no mercado mundial da estrutiocultura
Em cinco anos o Brasil deve se consolidar e liderar o mercado mundial de criação de avestruzes
Todos no Brasil sabem que criar avestruz já uma realidade, mas poucos imaginavam que o negócio está cada vez mais profissional. O motivo: forte interesse do mercado internacional e, agora, o aumento do consumo interno. O interesse pelo couro, em primeiro lugar, e pela carne desta ave oriunda da África fez com que os criadores dessem um salto de qualidade de "invejar" os principais países criadores como a África do Sul, Austrália e Canadá.
"Há mais ou menos 10 anos quando o avestruz chegou no País, os poucos criadores pensavam que o método espanhol era o meio mais eficaz de se lucrar com a carne do animal. Não demorou muito a perceber que a Espanha cria a ave de forma artesanal. A partir daí nasceu o método brasileiro", afirma Mauro Paternez, diretor-técnico da Pé Forte, em Uberaba (MG), berço do gado nelore.
O método brasileiro de criação de avestruz trouxe ao mercado muitos aventureiros, segundo Paternez, que causou certa distorção ao setor. Havia muita gente que dava palpites sem que tivesse um resultado satisfatório. Uns falavam que era bom criar a ave em um cercado pequeno, outros discordavam e diziam que o animal não se adaptava a regiões quentes. "Ora, por um acaso neva na África?", ironiza o diretor da Pé Forte. Entre erros e acertos, a estrutiocultura, nome dado à criação de avestruz, cresceu e caminha para a consolidação apoiada em um mercado promissor para o couro, carne e plumas.
"Creio que em cinco anos estaremos consolidados e na liderança mundial de criação de avestruzes", explicou Paternez.
O tamanho desta ave esquisita está se proporcionando às expectativas depositadas nas criações que começavam a se formar. Couro e carne do animal, que pode pesar até 150 quilos, são os principais artefatos para que um empresário invista na criação de avestruzes e ganhe rentabilidade.
Mauro Paternez afirma que a ave já nasce no valor de R$ 900 e um ano depois o preço de abate chega a R$ 2,2 mil. Na engorda, gasta-se cerca de R$ 700.
Campanha
O avestruz desembarcou com toda a pompa e a promessa de disputar com bois, frangos, porcos e outros animais o cobiçado mercado de proteína animal. Numa campanha avassaladora, os novos criadores expuseram aos potenciais consumidores informações sobre as vantagens da carne, que é vermelha e tem menos colesterol e calorias que a de peru, por exemplo; e com as possibilidades de lucro com a exploração de subprodutos como couro e plumas. O argumento mais usado, na comparação com a pecuária de corte, era o de que 20 aves cabem no mesmo lugar ocupado por um único boi. "Tudo isso foi uma aventura descabida. Não queremos competir com estes produtos", afirma Odair Ribeiro, presidente da Associação dos Criadores de Avestruzes do Brasil (Acab).
A venda de ilusões e a ansiedade pelo lucro fácil, e de preferência a curto prazo, marcaram a jovem atividade. A maioria dos que investiram em avestruzes não estava preparada para enfrentar os três grandes problemas da estrutiocultura nacional, enumeradas pelo diretor da Pé forte: entre 1997 e 1998, a suposta presença, não confirmada, de new castle, virose que ataca o sistema nervoso, levou muitos criadores a sacrificar o plantel ou parte dele, por precaução. Mais de mil aves foram mortas.
A decisão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento de proibir a importação de animais adultos (liberou apenas a entrada de ovos férteis e pintos de um dia), como medida de controle da saúde do plantel; e, mais recentemente, o escândalo provocado por empresas que vendiam mas não entregavam os animais.
Quem resistiu, depois de começo tão amargo, aguarda por desfrutar um mercado mais estável, longe de aventuras e especulações. O maior indicador do desenvolvimento da estrutiocultura brasileira é o aumento do plantel nacional, que pulou das 500 cabeças iniciais para 50 mil, atualmente, e que está nas mãos de 800 estrutiocultores espalhados pelo Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do País, conforme dados da Acab. "Ainda temos muito potencial para crescer", analisa Mauro Paternez.
Ele acredita na viabilidade comercial da atividade, mas não se apressa. Comedido, sempre procurou fazer da prudência o seu guia. "Só podemos pensar em mercado estável daqui a uns três anos. Primeiro, é preciso cuidar da formação das matrizes", recomendou.