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Brasil será indispensável na era da bioeconomia, aponta ABINBIO

"O Brasil não apenas 'vende o frasco', mas exporta o conhecimento"


"O Brasil não apenas 'vende o frasco', mas exporta o conhecimento" "O Brasil não apenas 'vende o frasco', mas exporta o conhecimento" - Foto: Divulgação (IA)

A ofensiva brasileira na exportação de insumos biológicos vai além de uma oportunidade comercial; trata-se de uma reformulação fundamental dos mercados globais de proteção e fertilidade de cultivos. O objetivo é afastar a dependência de insumos sintéticos e posicionar o país como o arquiteto da nova era da agricultura regenerativa, afirma Mauro Heringer, Diretor de Relações Internacionais da ABINBIO e membro do Comitê Nacional de Exportação de Bioinsumos.

"A vantagem competitiva brasileira reside na 'Prova de Resiliência Tropical'", afirmou Heringer. "Diferente dos concorrentes de clima temperado, as empresas brasileiras desenvolvem bioinsumos para ambientes biologicamente diversos em seis biomas num único território, com cultivo contínuo, alta pressão de pragas e calor — um desafio monumental que dominamos."

O Brasil não exporta meramente bactérias, mas a própria resiliência. "Se um ativo biológico performa em biomas brasileiros como o Cerrado, ele possui robustez abundante para qualquer outra agricultura do mundo. Exportamos resiliência, não apenas microrganismos."

Essa tropicalização da biotecnologia posiciona as empresas brasileiras não como fornecedoras de commodities, mas como detentoras essenciais de propriedade intelectual para a segurança alimentar global sustentável. "O Brasil não apenas 'vende o frasco', mas exporta o conhecimento de como substituir ou complementar a química sintética em sistemas agrícolas de alta produtividade."

Navegando pela Assimetria Regulatória

O Comitê Nacional de Exportação de Bioinsumos — formado por uma parceria estratégica entre ApexBrasil, CropLife Brasil e ABINBIO — enfrenta distintos regimes regulatórios por meio de abordagens direcionadas:

União Europeia: "A Europa opera sob o 'Princípio da Precaução' (baseado no perigo intrínseco). A estratégia foca quase 100% na prova de segurança toxicológica e ausência de contaminantes. Não vendemos 'produtividade' para a Europa; vendemos 'segurança alimentar' e 'ausência de resíduos químicos'. Deve funcionar como o Intel Inside da agricultura: se tem tecnologia brasileira, é sustentável."

Estados Unidos: "A EPA é pragmática e baseada no risco real. Nosso foco no dossiê é a Eficácia Agronômica. A estratégia utiliza dados de milhões de hectares brasileiros provando que o produto funciona em escala industrial — algo que testes de laboratório americanos não conseguem replicar."

América Latina: "O jogo é político. Buscamos o alinhamento no Mercosul, onde o registro brasileiro (rigorosamente avaliado por MAPA, ANVISA e IBAMA) serve como um 'Selo de Qualidade' automático. O objetivo é o reconhecimento mútuo: se foi aprovado pelo líder tropical, deve ter um rito sumário (fast-track) no Paraguai, Colômbia ou Bolívia."

Gargalos: Regulação e a "Logística Viva"

"Os maiores gargalos são regulatórios e a infraestrutura da 'Logística Viva'", observou Heringer. "Exportar químicos é simples. Exportar seres vivos (bactérias e fungos) exige cadeia de frio e logística de precisão, ainda cara para longas distâncias. Manter o shelf-life (tempo de prateleira) durante o trânsito internacional é o maior desafio técnico-comercial."

Conciliando Liderança Sustentável e Escrutínio Ambiental

"O Brasil é uma potência agroambiental: preservamos mais de 60% do território com vegetação nativa e possuímos a legislação ambiental mais rigorosa do mundo (Código Florestal), além de uma lei moderna de bioinsumos. Nenhum outro grande produtor entrega esses números", enfatizou Heringer.

"Nossa liderança em bioinsumos não é uma tentativa de 'compensar' um problema, mas a evolução natural dessa mentalidade preservacionista. Graças à nossa biotecnologia tropical (como a Fixação Biológica de Nitrogênio e Fósforo e o plantio direto), alcançamos um aumento de 400% na produção nas últimas décadas expandindo a área em apenas 40%."

Biologia de Plataforma: Inovação vs. Padronização

O Brasil resolve a tensão entre localização e escalabilidade através da estratégia de "Biologia de Plataforma".

1. Padronização Industrial (Upstream): "As fábricas brasileiras produzem esporos e metabólitos com altíssima concentração, pureza e vida útil estendida. Isso é o 'hardware' biológico, padronizável e escalável mundialmente."
2. Adaptação de Campo (Downstream): "O 'software' (como usar) é adaptável. Nossas empresas não vendem apenas o galão; vendem o protocolo agronômico. Temos tecnologia de formulação que permite que a mesma cepa robusta seja ativada ou aplicada de forma diferente em solos indianos ou americanos."

Vantagem do Capital Nacional sob Pressão de M&A

Embora mais de 80% das empresas de bioinsumos ainda sejam de capital brasileiro, o cenário está mudando. "O setor corre o risco de se tornar um excelente 'berçário' de startups biológicas que, ao atingirem a maturidade e escala de exportação, acabam absorvidas pelo capital estrangeiro (M&A)."

Empresas nacionais mantêm vantagem porque, "nas multinacionais, os biológicos são frequentemente vistos como 'complementares' para proteger a fatia de mercado das moléculas químicas. Nas empresas nacionais, o bioinsumo é o core business. Isso significa que 100% do P&D é focado em biologia."

Um "Fosso" Competitivo Defensável

"Nosso fosso defensivo é, sem dúvida, a Performance Comprovada em Sistemas Tropicais", afirmou Heringer. "Enquanto multinacionais compram startups para montar portfólios, o Brasil tem uma vantagem que não se compra: décadas de seleção natural em campo."

As cepas brasileiras são "atletas de elite" da sobrevivência, testadas sob estresse térmico e hídrico extremo em 40 milhões de hectares, e não apenas em estufas controladas.

"A exportação é apenas o veículo; a mudança de paradigma global é o destino. O Brasil quer ser o arquiteto da nova era da agricultura mundial."

"Estamos nos posicionando como a 'Arábia Saudita da Química Verde'. Assim como o Oriente Médio foi indispensável na era do petróleo, o Brasil será indispensável na era da bioeconomia."

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