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Brasil tem queda de 23% na área queimada em 2025, mas Caatinga registra aumento no fogo

Área queimada diminui no Brasil em 2025, mas Caatinga segue em alerta


Foto: Pixabay

Foram 453.358 km² queimados no Brasil em apenas um ano. Esse número, referente a 2025, representa uma queda de 23% quando comparado ao ano anterior, mas ainda mantém o alerta aceso. A área total queimada foi maior que quase todos os estados brasileiros — maior, inclusive, que países como Suécia, Marrocos e Paraguai. Entre todos os biomas, a Caatinga, composta por ecossistemas em que normalmente o fogo não acontece de maneira natural, teve o maior aumento: 44% a mais de área queimada em relação a 2024.

Os dados são do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Mesmo com grandes incêndios, como o que aconteceu na Chapada dos Veadeiros, que teve início em setembro do último ano, durou quase um mês e queimou cerca de 112 mil hectares, atingindo a terra indígena do povo Avá-Canoeiro, houve uma queda considerável no número de focos de calor para o país. No total, foram detectados 136.393 focos, 51% a menos que em 2024, ano em que o país enfrentou forte seca e teve maior risco de propagação do fogo.

Em 2025, a intensidade da seca no país diminuiu e o período de estiagem foi mais brando. Diferentemente de 2023 e 2024, quando o país teve forte influência do El Niño — fenômeno climático característico pelo aquecimento anormal da superfície do Oceano Pacífico Equatorial —, o ano passado não apresentou nenhuma anomalia climática em larga escala, apesar de uma rápida passagem do La Niña, evento que causa o resfriamento das águas.

Embora seja natural que aconteça um aumento no número de incêndios entre maio e outubro (com picos entre agosto e setembro, quando o volume de chuvas diminui naturalmente), o número de focos de calor detectados foi o menor desde 2018. Agosto registrou 18.451 ocorrências, a menor quantidade de focos ativos para o mês desde o início das medições, que começaram em 1998.

De 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2025 foram registrados, no total, 136.393 focos de calor, uma queda de 51% em relação a 2024

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) monitora a intensidade/severidade da seca no país e divulga mensalmente o Índice Integrado de Secas (IIS), que combina déficit de chuvas, umidade do solo e condição da vegetação para avaliar o grau e os impactos. Na maior parte do ano, os índices de seca extrema foram menores ao longo de 2025. Em agosto, início do pico de incêndios, além da diminuição no registro de focos de calor, observamos outro ponto positivo: o IIS-3, que resulta da análise dos últimos três meses e dá um panorama da seca a curto prazo, registrou uma redução nos números de municípios em situação de secas extrema, severa e moderada em comparação ao mesmo mês do ano anterior. 

No mapa abaixo, é possível ver como alguns estados das regiões Norte, Centro Oeste e Sudeste foram os mais afetados em 2024, principalmente Mato Grosso, região de transição entre Amazônia e Cerrado. Pontos de seca extrema também foram observados no Acre, Amazonas e em Rondônia, estados que compõem o bioma Amazônico, caracterizado, em média, por condições climáticas úmidas. O agravamento do período de seca acontece por consequência das mudanças do clima, quadro que amplia o risco de incêndios decorrentes de ações humanas.

Comparação do IIS-3 entre os meses de agosto, início do pico de incêndios, de 2024 e 2025

No total, os municípios em seca extrema caíram de 201 para apenas 1, na comparação do mês de agosto em 2024 e 2025. Já o total de municípios em estado de seca severa caiu de 1.199 para 109.

Ainda que tenha acontecido uma queda de 11% no desmatamento na Amazônia e no Cerrado em 2025, de acordo com os dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), os números ainda são preocupantes, em especial quando olhamos de maneira isolada para cada bioma. 

Historicamente, incêndios estão atrelados ao desmatamento. Após o corte das árvores, muitas vezes o fogo é utilizado como ferramenta para “limpar” o solo e abrir espaço para novas pastagens. O caminho inverso também acontece, e florestas inteiras são queimadas para facilitar a remoção da vegetação.

No Brasil, temos três biomas naturalmente adaptados ao fogo: Cerrado, Pampa e Pantanal, onde espécies coevoluíram com incêndios naturais que acontecem de forma superficial e rápida, sem causar danos, e diminuem a quantidade de matéria orgânica depositada no solo. O maior exemplo do país é o Cerrado, considerado a maior savana do mundo, característico por árvores de pequeno porte, com o tronco resistente ao fogo, e uma grande quantidade de campos com vegetação rasteira.

Esses três biomas não apenas lidam bem com incêndios, mas dependem deles, quando acontecem de acordo com o regime natural do fogo, para a manutenção dos ecossistemas. Entretanto, a realidade não tem sido essa. O Cerrado abriga quase metade da produção de soja no país, e tem sido devastado para dar espaço à agropecuária, com frequência e extensão dos incêndios sendo aumentadas pelas atividades de uso do solo. Mesmo com uma queda no número de focos de incêndio em relação a 2024, em 2025 o bioma teve 227.207 km² queimados, um dos maiores números desde o início da série histórica do Inpe.

No Cerrado, os quatro estados com as maiores áreas desmatadas em 2025 foram Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, totalizando 5.634,92 km², segundo dados do Prodes. Partes dos territórios desses estados compõem a região conhecida como MATOPIBA, que passou por forte expansão agrícola a partir da década de 1980 e inclui áreas de transição com a Caatinga, outro bioma fortemente afetado por incêndios recentes. No último ano, foram 95.302 km² queimados na Caatinga, totalizando 21% de toda a área devastada pelo fogo no país.

Em 2025, o Cerrado e a Caatinga, biomas encontrados em estados do MATOPIBA, totalizaram 71% da área queimada total no país

A Caatinga, bioma semiárido predominante no Nordeste, tem sido um dos pontos de preocupação. Nos últimos três anos, houve um salto considerável nos registros de fogo no bioma — um total de 65.209 focos e 226.596 km² queimados. A região, porém, é considerada independente do fogo, ou seja, não costuma ser naturalmente afetada por incêndios, que são em grande maioria causados por ações humana. 

Também há registros da expansão da fronteira agrícola para a Caatinga, principalmente com plantios de soja. De acordo com o IBGE, entre os anos 2000 e 2020, a área agrícola aumentou 50% em todo o país, enquanto a área de pastagem com manejo aumentou 28%. A vegetação florestal, por sua vez, diminuiu cerca de 8%. Embora o clima tenha sido mais favorável em 2025, na contramão do restante do país, a Caatinga foi o único bioma sem a presença natural do fogo que apresentou aumento na área queimada.

A Amazônia e a Mata Atlântica são florestas tropicais e não possuem mecanismos de defesa para lidar com incêndios, que assim como na Caatinga, não acontecem de maneira natural: são decorrentes da ação humana, geralmente intensificados por mudanças climáticas, como secas extremas ou fora de época. A diferença é que, por possuírem vegetação e animais que não são adaptados ao fogo, a devastação costuma ser maior.

Há décadas, a Amazônia tem sido o bioma brasileiro mais afetado pelos incêndios, em grande parte das vezes por causa do manejo ilegal de áreas agrícolas, visto que queimas controladas, geralmente usadas para a limpeza do solo e que precisam de autorização prévia de órgão ambientais, apresentam menores riscos.

A diminuição da área queimada e dos focos de calor registrados na Amazônia é recente. O ano de 2024 teve os maiores números desde 2007

Em comparação com 2024, o ano de 2025 foi positivo para a Amazônia. Houve uma queda de 57% na área queimada (de 223.982 km² para 96.009 km²), e de 69% no total de focos de calor (de 140.346 para 43.131). Essa mudança é recente: 2024 teve a maior área queimada desde 2007 e um dos maiores números de focos de calor registrados até o momento.

Em relação ao desmatamento nos estados da Amazônia Legal, a taxa consolidada para 2024 foi de 6.518 km², e para 2025 foi de 5.731 km². O estado do Pará segue na liderança, com o maior desmatamento acumulado na região.

A retomada de planos de combate ao desmatamento e aos incêndios tem sido um dos motivos da queda, com um maior investimento por parte do governo federal em ações de prevenção e em brigadas comunitárias. O Manejo Integrado do Fogo, por exemplo, é pauta de uma política nacional que considera os diferentes aspectos ecológicos, sociais e culturais relacionados ao uso do fogo, com o objetivo de reduzir a incidência e danos, ao mesmo tempo em que reconhece seu papel ecológico para alguns sistemas.

Um dos frutos dessa nova política é o incentivo ao protagonismo e à autonomia de brigadistas nas ações de prevenção e monitoramento, fortalecendo a compreensão da dinâmica do fogo em diferentes territórios. Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, 2025 teve o maior contingente de brigadistas federais da história, com um total de 4.385 profissionais do Ibama e do ICMBio.

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