Bunge fecha e deixa 150 desempregados
Ponta Grossa (PR), um dos maiores complexos na atividade de moagem de soja, acaba de perder uma das cinco indústrias do setor
A unidade de processamento de soja da Bunge Alimentos encerrou ontem suas atividades na cidade de Ponta Grossa. A indústria já dispensou a maior parte dos 150 funcionários diretos e mais de 750 indiretos. Segundo o Sindicato dos trabalhadores da Indústria da Soja, a empresa já estava sem produção desde outubro de 2008, e seu fechamento confirma a previsão de um colapso no setor, antecipado pelo Jornal da Manhã na semana passada.
A assessoria de imprensa da multinacional enviou uma nota explicando os motivos da decisão. Segundo ela, vários fatores foram considerados, mas o principal foi "a necessidade da adaptação aos novos cenários do Agronegócio no país". Através dessa nota, a empresa também afirma que a medida não afetará o atendimento aos clientes, pois a compra e venda de grãos será mantida nas demais unidades do Estado.
"A Bunge tem plena consciência do impacto desta ação, tanto que nos últimos anos vinha concentrando esforços para manter a fábrica. O assunto sempre foi tratado de forma transparente internamente e os colaboradores da unidade conheciam a real situação", diz a nota da assessoria. O mercado da soja sofreu uma reviravolta com o câmbio desfavorável. Com o dólar na faixa de R$ 1,77, os produtores preferem despachar a mercadoria para o porto, conseguindo um melhor preço ao negociar com o mercado asiático.
Quanto aos trabalhadores, a empresa vai tentar o encaminhamento para outras empresas parceiras no Estado. "É uma medida paliativa, já que não há como agregar funcionários ao quadro de uma empresa. O que acontecerá, provavelmente, será uma substituição. A unidade de processamento de trigo seria o destino para alguns destes funcionários, mas certamente empregados desta outra cadeia seriam dispensados", afirma o sindicalista Jorge Luís Pitela.
Outro ponto destacado por Pitela é o número reduzido de empregados a serem encaminhados. Segundo a empresa, 36 seriam transferidos e 32 terão seus empregos mantidos até o encerramento das atividades. "São 90 dias apenas, mesmo período pelo qual estão garantidos alguns benefícios como o plano médico", afirma Pitela. A Bunge também diz que vai dar apoio para a recolocação de 70 trabalhadores no mercado de trabalho, mas não esclarece de que forma isso será feito.
"Foi só a primeira", alerta sindicato
A preocupação agora é com as outras quatro empresas moageiras instaladas na cidade. Segundo o sindicato dos trabalhadores, todas estão na iminência do encerramento das atividades. "Se não houver um apoio político no sentido de promover um incentivo fiscal para aquecer o mercado, em breve teremos novas demissões", afirma o presidente do sindicato.
Todas as indústrias que dependem da soja na cidade estão com a produção comprometida. É o caso, por exemplo, da Insol, que mantém parte de seu quadro com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), em um programa inédito que permite a licença remunerada dos funcionários. Mas não há garantias de retorno ao trabalho depois da suspensão do contrato. A Cargill afirmou, através de sua assessoria, que "não haverá alterações na estrutura da empresa em Ponta Grossa". As demais empresas não se manifestam oficialmente a respeito do assunto.
Deputado pede colaboração do Estado
O deputado estadual Péricles de Mello (PT) levou ontem à tribuna da Assembleia Legislativa a grave situação pela qual passam as indústrias moageiras de Ponta Grossa. "O governo do estado pode colaborar para que as indústrias revertam o quadro desolador", disse Péricles. O deputado vai agendar audiências nas Secretarias Estaduais de Indústria e Comércio e de Finanças para que representantes do Sindideb (Sindicato dos Trabalhadores das Moageiras de Óleos Alimentícios e Soja da Cidade de Ponta Grossa) possam discutir uma alternativa para reverter o quadro.
O deputado comentou em plenário a possível solução apontada pelo sindicato da categoria para que o Paraná disponibilize incentivos fiscais para as indústrias, a exemplo do que ocorre dos estados do Mato Grosso e Goiás. A ideia é a troca de créditos tributários por contas públicas, como de energia elétrica e água. "Não podemos deixar que as indústrias do ramo tenham o mesmo fim da Bunge Alimentos, que fechou suas portas, hoje", finalizou Péricles.