Cabanha de Uruguaiana põe 2,5 mil animais à venda
Movimento encerra um ciclo de três décadas
Foto: Aline Merladete
A cabanha Rincon del Sarandy, de Uruguaiana (RS), vai colocar 100% do seu plantel no mercado em uma série de leilões virtuais por etapas, com início em 30 de maio. A oferta estimada é de 2,5 mil animais das raças Angus, Brangus e Ultrablack, além da manada Crioula. A decisão, segundo o pecuarista Ignacio Tellechea, marca a reorganização da operação para a continuidade do trabalho com base em embriões.
“Essa oferta representa um pacote completo e raro: é o resultado de muitos anos de seleção”, afirmou Ignacio. Na avaliação dele, a venda integral tende a se tornar “o evento comercial mais importante” já realizado no país para as raças Angus, Brangus e Ultrablack.
Ignacio disse que a venda integral do rebanho está ligada a um novo momento da família. “Eu e meu irmão, que é meu sócio, chegamos a uma fase em que a vida tomou rumos diferentes”, explicou. Segundo ele, Martin Tellechea decidiu concentrar esforços em projetos fora da pecuária.
“Entendemos que a forma mais correta e justa de encerrar a sociedade era colocar 100% dos animais no mercado”, afirmou. Para o criador, o movimento encerra um ciclo de três décadas de atuação formal da cabanha, embora a história da seleção do rebanho, segundo ele, seja mais antiga: “Esse trabalho começou ainda com o meu bisavô, na década de 1940”.
A estratégia anunciada é concentrar, em um curto período, remates que antes eram distribuídos ao longo do ano. “A Rincon faz vários leilões ao longo do calendário, cada um voltado a um tipo de cliente e a uma necessidade específica. Neste ano, nós condensamos tudo em dez dias”, disse Ignacio.
Ele afirma que a divisão por etapas busca facilitar a decisão do comprador. “Não é razoável imaginar que alguém vai ficar dez dias na frente da televisão. A ideia é organizar para que o cliente saiba exatamente em que dia assistir”, afirmou.
Os leilões estão previstos para começar em 30 de maio e seguem de forma ininterrupta até o fim do calendário previsto. Antes disso, a cabanha planeja um encontro presencial na propriedade em 18 de maio, alinhado à programação da Expoutono de Uruguaiana. “Vamos fazer um dia de campo na estância e apresentar a oferta para quem estiver na região”, disse. O objetivo é permitir que criadores e compradores conheçam os animais e o trabalho de seleção presencialmente, já que o formato de venda será digital: “A gente quer que o público veja o trabalho ao vivo, porque a partir do dia 30 os leilões serão todos virtuais”, pontuou.
O pecuarista ainda diz que, a dimensão da oferta torna difícil estimar o resultado financeiro, mas projeta uma faixa de faturamento. “É uma oferta muito grande. Se o ambiente seguir favorável, a gente pode faturar algo entre R$ 15 milhões e R$ 25 milhões”, disse.
Ao comentar o cenário mais amplo, ele relacionou a expectativa ao ciclo pecuário. “Os estoques de gado estão baixos, não só no Brasil, mas nos principais produtores do mundo. Isso pressiona os preços para cima”, afirmou. Segundo ele, sinais recentes apontam para mudança de dinâmica no abate de fêmeas: “A retenção de fêmeas começou e os dados mostram o abate de fêmeas diminuindo”.
O movimento tende a impactar preços nos próximos anos. “Isso deve levar, nos próximos dois ou três anos, à alta do preço do bezerro e, depois, do boi gordo”, disse. E completou: “Apesar das incertezas macroeconômicas, o que mais pesa no preço do gado é o ciclo pecuário — e ele está entrando em uma fase de alta”.
Continuidade: rebanho será reconstruído a partir de embriões
Apesar da venda integral do plantel atual, Ignacio afirma que seguirá à frente da operação, nas mesmas terras, com foco em genética. “Eu continuo na pecuária e sigo à frente da marca Rincon del Sarandy, agora como único sócio, trabalhando na mesma área em Uruguaiana”, afirmou.
Segundo ele, o passo seguinte já está em andamento. “Há seis meses, estamos selecionando as melhores doadoras e formando um estoque grande de embriões, que será a base do novo rebanho”, disse. Sobre a transição, explicou: “Não será com os mesmos animais, porque eles estarão no mercado, mas a genética vai ser preservada por meio desses embriões, que darão sequência ao processo de seleção”, finalizou.