Café mineiro cresce sob risco climático
Minas Gerais concentra 50% do café brasileiro
Minas Gerais concentra 50% do café brasileiro - Foto: Divulgação
A safra recorde de café prevista para 2026 em Minas Gerais ocorre em meio a um cenário climático que amplia a preocupação com os ciclos seguintes da produção. Segundo Tatiane Oliveira, especialista em logística e gestão operacional, o avanço do aquecimento e a irregularidade climática indicam que o resultado positivo da próxima colheita antecede impactos mais severos, especialmente sobre a safra de 2027.
Minas Gerais concentra 50% do café brasileiro e cerca de um terço do arábica produzido no mundo. Para 2026, a Conab projeta uma safra estadual recorde de 33,4 milhões de sacas, alta de 29,8% em relação a 2025. O desempenho é favorecido pela bienalidade positiva e por chuvas regulares antes da floração, fatores que ajudam a sustentar a previsão de crescimento.
A leitura do quadro, porém, aponta para um risco climático acumulado. O El Niño previsto para o segundo semestre não deve atingir diretamente a safra de 2026, mas pode afetar a produção de 2027. A irregularidade já observada no Sul de Minas no início do ano reforça a atenção sobre o próximo ciclo da cafeicultura.
O alerta ganha força diante dos dados de aquecimento no estado. Turmalina, no Vale do Jequitinhonha, liderou o ranking do Cemaden de cidades brasileiras mais aquecidas em 2023, com 5,52°C acima da média das máximas diárias. Das 20 cidades mais quentes do Brasil naquele ano, 19 ficam em Minas Gerais, sendo 18 no Jequitinhonha. Belo Horizonte também foi a capital que mais esquentou, com alta de 4,23°C em novembro.
A pesquisadora Ana Paula Cunha, do Cemaden, documenta tendência de aquecimento contínuo no Jequitinhonha há pelo menos seis décadas, associada ao aquecimento global e à degradação da vegetação nativa. A mesorregião Norte integra o semiárido brasileiro, área que dobrou no estado em cinco anos, segundo a Assembleia Legislativa estadual. Gameleiras, Espinosa e Mamonas já atingiram clima árido.
Em dezembro de 2023, o governo estadual decretou emergência por seca em 62 municípios das regiões Norte, Vale do Mucuri e Jequitinhonha. Os ciclos de seca rigorosa registrados em 1939, 1975/76, 1996/97, 2015/16 e 2023/24 indicam intervalos mais curtos e impactos crescentes. Nesse contexto, o recorde previsto para 2026 não elimina a pressão sobre solo, floresta, água e população nas áreas produtoras e vulneráveis do estado.