Calor reduz projeções de safra na Europa enquanto incêndios causam perdas locais
O risco de mercado mais amplo está ligado à continuidade do calor e da falta de chuva
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A combinação entre ondas de calor, falta de chuva e incêndios aumentou a preocupação com a produção agropecuária europeia. Os efeitos, porém, precisam ser separados: as revisões já divulgadas para a produtividade das lavouras decorrem principalmente do calor e do déficit hídrico, enquanto os prejuízos provocados diretamente pelos incêndios ainda estão sendo calculados.
O Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia informou, em 27 de julho, que as ondas de calor encurtaram o período de enchimento dos grãos de inverno e anteciparam a colheita em diferentes países. As previsões de produtividade dessas culturas foram reduzidas entre 1% e 4%. Com a revisão, a expectativa para o conjunto dos cereais ficou 1% abaixo da média dos últimos cinco anos.
As maiores preocupações estão concentradas nas culturas de primavera e verão. O calor excepcional e a limitação de chuvas reduziram a umidade do solo, prejudicaram a formação de biomassa e atingiram lavouras durante a floração. As projeções foram rebaixadas para todas as principais culturas do grupo, com reduções de 6% a 7% para o milho em grão e o girassol.
Na França, as ondas de calor sucessivas e a menor disponibilidade de água afetaram principalmente as regiões do oeste. No norte e no centro da Itália, o milho sofreu com o calor durante a floração, com maior risco nas áreas sem irrigação. Hungria, Áustria, Eslováquia, República Tcheca e partes da Alemanha também apresentaram perda de umidade no solo e preocupação com o potencial produtivo das culturas de verão.
Ao mesmo tempo, incêndios avançaram em partes da França, Espanha e Grécia. Até 1º de agosto, as áreas atingidas pelo fogo na França somavam 119 mil hectares, segundo informações das autoridades francesas reunidas pela Reuters. Esse número inclui diferentes tipos de vegetação e não representa exclusivamente áreas agrícolas.
Na Espanha, incêndios de grande porte atingiram mais de 70 mil hectares nas regiões de Madri e Ávila. Em Zamora, aproximadamente 11 mil hectares foram afetados, enquanto um incêndio em Castellón se aproximou de 10 mil hectares. Assim como no caso francês, os balanços divulgados abrangem áreas florestais, vegetação natural e propriedades rurais, sem uma separação consolidada das lavouras atingidas.
Na Grécia, há confirmação de danos a terras agrícolas, olivais e rebanhos, especialmente em Creta e na região da Beócia. Ainda não foi divulgado, entretanto, um cálculo agregado do prejuízo econômico para a agricultura grega.
Os dados disponíveis não permitem afirmar que os incêndios tenham provocado, até agora, uma alta generalizada dos preços agrícolas internacionais. Os efeitos mais claros são locais, envolvendo destruição de estruturas, perda de animais, interrupção de atividades, despesas emergenciais e danos a cultivos permanentes.
O risco de mercado mais amplo está ligado à continuidade do calor e da falta de chuva. Uma nova redução da produtividade do milho, do girassol ou dos cereais europeus poderia aumentar a necessidade de importações do bloco e alterar os fluxos internacionais. Esse cenário, no entanto, dependerá das condições climáticas de agosto e das próximas revisões oficiais.
Antes do agravamento das ondas de calor, a Comissão Europeia estimava uma produção de 273,7 milhões de toneladas de cereais na temporada 2026/27. O próprio relatório, divulgado no começo de julho, alertava que as projeções ainda não incorporavam os efeitos das ondas de calor que atingiam os agricultores europeus.
Para o produtor brasileiro, o principal ponto de atenção não é apenas a área queimada, mas a possibilidade de a Europa colher menos grãos e oleaginosas do que o previsto. Por enquanto, as informações sustentam um cenário de atenção e volatilidade, mas não a existência de uma quebra generalizada da oferta europeia.