Cana-de-açúcar: prejuízo do raquitismo da soqueira cresce sem manejo correto na colheita
O alerta vale para o período de safra entre dezembro de 2025 e dezembro de 2026
Foto: Arquivo Agrolink
O raquitismo da soqueira, causado pela bactéria Leifsonia xyli subsp. xyli, é uma das principais doenças sistêmicas da cana-de-açúcar e está diretamente ligado à forma como a colheita e o transporte são conduzidos nas propriedades. O alerta vale para o período de safra entre dezembro de 2025 e dezembro de 2026, especialmente em estados de produção intensiva como Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo, onde colhedoras, facões, carretas e caminhões podem atuar como vetores mecânicos da bactéria entre talhões caso não haja protocolos claros de higienização e logística.
Por ser uma doença vascular, a bactéria coloniza o xilema da planta e muitas vezes não apresenta sintomas evidentes, mas provoca menor crescimento, perfilhamento reduzido e soqueiras menos longevas, com perdas de produtividade que se acumulam ao longo dos cortes. Na colheita mecanizada, facas de base e do picador entram em contato direto com a seiva contaminada e podem transferi-la para soqueiras sadias caso a máquina passe de um talhão infectado para outro sem qualquer higienização. No corte manual, facões e podões cumprem o mesmo papel quando usados sem desinfecção entre áreas de diferentes categorias sanitárias. Já restos de colmos e ponteiros presos em colhedoras e carretas podem cair em outros talhões ou, em casos mais críticos, retornar ao sistema de produção de mudas.
Os efeitos do raquitismo associados a falhas de manejo no corte e no transporte aparecem de forma progressiva: redução da produtividade de colmos, com internódios mais curtos e menor diâmetro; perda de uniformidade do canavial, com plantas raquíticas intercaladas a plantas normais; necessidade de reforma antecipada das soqueiras, o que eleva custos em sistemas planejados para quatro a seis cortes comerciais; e maior dificuldade de manejo sanitário quando não há rastreabilidade das cargas transportadas.
Para decidir os ajustes necessários antes do avanço da colheita 2025/2026, produtores e usinas devem partir de quatro critérios básicos: manter histórico fitossanitário por talhão, incluindo origem das mudas e resultados de análises laboratoriais quando disponíveis; classificar os talhões em categorias de risco — baixo risco, suspeitos ou confirmados —, mesmo que de forma prática, com base em inspeção de campo; considerar o tipo de colheita predominante, já que a mecanizada exige protocolos de higienização de colhedoras e transbordos, enquanto a manual exige foco na desinfecção de facões e na organização das turmas; e mapear o fluxo de transporte, incluindo rotas internas, pontos de carga e descarga e frequência de carregamento misto.
Com base nesse diagnóstico, a recomendação é colher primeiro as áreas de menor risco sanitário, reduzir ao máximo a mistura de cana de talhões de categorias diferentes em um mesmo veículo e definir momentos específicos para higienização de máquinas e ferramentas.
No corte mecanizado, os cuidados envolvem organizar a sequência de colheita por risco sanitário, evitando que a colhedora retorne sem higienização a áreas de categoria superior depois de trabalhar em talhões suspeitos ou confirmados. A higienização de facas de base, picador, defletores e demais superfícies de contato com a seiva deve ser rotineira, com remoção mecânica de resíduos e desinfecção orientada por assistência técnica, além de registrada por data, hora e talhões atendidos. Também é recomendado regular a colhedora para um corte limpo na base da soqueira, evitando cortes múltiplos e esmagamentos que aumentam a entrada de patógenos, e ajustar fluxo de palha e bicas para reduzir a queda de fragmentos de colmo sobre fileiras adjacentes.
No corte manual, a orientação é desinfetar periodicamente facões, podões e serras, sobretudo na troca de talhão ou ao migrar de áreas suspeitas para áreas de baixo risco, combinando limpeza física com soluções desinfetantes sob orientação técnica. As turmas de corte devem ser treinadas sobre o que é o raquitismo da soqueira, a importância da desinfecção das ferramentas e a necessidade de evitar batidas excessivas na base das plantas. A organização da frente de corte também deve evitar que a mesma equipe alterne, no mesmo dia e sem higienização, entre talhões suspeitos e áreas destinadas à produção de mudas.
No transporte, o principal risco não é a transmissão direta pela seiva, mas a mistura de materiais de diferentes origens, a perda de carga e o retorno de restos vegetais a outras áreas. Por isso, recomenda-se priorizar que transbordos, carretas e caminhões atendam talhões de categoria sanitária semelhante em um mesmo turno, evitando carregar cana sadia logo após cana de áreas contaminadas sem antes limpar os compartimentos de carga. A limpeza de caixotes, transbordos e reboques deve ser regular, com atenção redobrada antes de direcionar um veículo que trabalhou em área suspeita para o atendimento de viveiros ou talhões estratégicos. Também é indicado ajustar velocidade e carga dos veículos para reduzir quedas de colmos nas estradas internas, estabelecer rotas específicas para caminhões que passaram por áreas suspeitas e evitar o uso de restos de cana recolhidos de estradas ou pátios como fonte de mudas.
A rastreabilidade é outro ponto central: o uso de sistemas mínimos de identificação, como talão, etiqueta ou aplicativo, permite saber quais talhões compuseram cada carga enviada à unidade de processamento. Em caso de confirmação de foco de raquitismo, esses registros ajudam a identificar quais veículos e equipamentos passaram pela área, facilitando ações corretivas de higienização e a revisão da sequência de colheita.
Esses cuidados não substituem outras medidas de manejo da doença e devem ser integrados a um programa mais amplo, que inclui o uso de mudas sadias e certificadas, produzidas em viveiros com testes laboratoriais e monitoramento sanitário; a escolha de variedades com menor suscetibilidade à doença, considerando produtividade e adaptação regional; o monitoramento contínuo dos talhões, observando sintomas como plantas menores e internódios curtos; e o planejamento da reforma antecipada de áreas com elevada incidência confirmada, em vez da manutenção de soqueiras altamente infectadas.
A implementação dessas rotinas exige ainda atenção a normas de segurança: uso de equipamentos de proteção individual durante a aplicação de desinfetantes, treinamento das equipes sobre os riscos da doença e o manuseio seguro de produtos químicos, conformidade com a legislação vigente para produtos de uso agrícola e acompanhamento de engenheiro agrônomo na definição dos protocolos de higienização e priorização de talhões.