Cana usa terceirização para colher "non-stop"
As usinas de açúcar e álcool estão preocupadas com a disponibilidade de suas máquinas agrícolas
As usinas de açúcar e álcool estão tão preocupadas com a disponibilidade de suas máquinas agrícolas que estão fechando contratos de serviço para permitir a colheita "non-stop" da cana-de-açúcar.
As concessionárias de grandes fabricantes como John Deere, Valtra e Case IH estão oferecendo contratos de manutenção "24x7" (24 horas, 7 dias por semana), em que se comprometem a assegurar uma disponibilidade de até 90% da frota. "É uma operação de guerra, que dura 24 horas por dia, durante mais de sete meses por ano, época da colheita", diz José Luis Coelho, gerente da unidade de negócio Cana, da John Deere Brasil, sediada em Ribeirão Preto.
Em anos de preços elevados para o açúcar e o álcool, assegurar a colheita no "timing" correto é sinônimo de lucros. Contratos de manutenção da frota de colheitadeiras assegura 90% de disponibilidade. Em seu processo de expansão, o setor de açúcar e álcool aquece o segmento de pós-venda dos concessionários de máquinas agrícolas e de caminhões do País. Principalmente nas novas fronteiras da cana, como no oeste paulista, boa parte das usinas optou por não montar estrutura própria de manutenção, deixando o serviço pesado e altamente especializado nas mãos dos concessionários.
"Hoje tenho na usina gente da John Deere, Valtra, Volkswagen Caminhões e Volvo, todos com contratos de manutenção de máquinas ou veículos", diz Agnaldo de Tarso Rigolin, diretor agrícola da Usina Cocal, de Paraguaçu Paulista, no oeste do Estado. Com frota de 82 caminhões, 128 tratores e seis colhedoras de cana, a Cocal, da família Garms, investe em nova unidade de produção, em Narandiba, também no oeste paulista.
"Os veículos e máquinas agrícolas têm cada vez mais tecnologia e sua manutenção exige, além de profissionais capacitados, equipamentos cada vez mais sofisticados e caros", justifica Rigolin.
A Cocal ainda mantém estrutura própria de manutenção para os veículos e máquinas mais antigos, cuja inclusão nos contratos de manutenção seria cara demais. "Mas a tendência, conforme renovamos a frota, é terceirizar a manutenção de toda ela", diz Rigolin. "Em quatro anos, 90% da frota deverá ter contrato de manutenção", prevê.
Para Rigolin, a usina ganha pela maior disponibilidade dos equipamentos oferecida pelos concessionários e pela redução do custo fixo que exige uma estrutura própria de manutenção. "Além disso, aumento o foco na minha atividade-fim, que é produzir cana-de-açúcar", afirma.
"É um processo que só tende a crescer", comenta José Luis Coelho, gerente da unidade de negócio Cana, da John Deere Brasil, baseada em Ribeirão Preto. "Para focar na produção e fugir do imobilizado, as usinas pagam por um índice de disponibilidade mecânica da frota".
"Como os tratores e colhedoras não têm hodômetros (que medem distância percorrida), mas horímetros (que indicam tempo de uso), as usinas pagam em R$/máquina/hora trabalhada. É um valor fixo, definido em contrato", explica Coelho.
Por um preço não revelado, os concessionários oferecem um índice mínimo de disponibilidade mecânica da frota de até 90%, "bem superior à media realizada pelas usinas", segundo Coelho.
Normalmente, os contratos são de 10 mil a 15 mil horas, o equivalente a quatros anos, que é o tempo próximo de depreciação de uma máquina que opera para uma grande usina. "É uma operação de guerra, que dura 24 horas por dia, durante mais de sete meses por ano", diz Coelho."A manutenção das máquinas é previamente orçada, de modo que a usina não precisa se preocupar com ocorrências-surpresa, como a quebra da transmissão de um trator ou um motor de colhedora fundido no meio da madrugada", diz Marco Antônio Cardoso, da concessionária John Deere Unimaq, de Assis (SP), que dá manutenção a seis colhedoras de cana e a 30 tratores da usina Cocal. "Essas ocorrências são de responsabilidade do concessionário", afirma.
Cardoso mantém na usina Cocal um corpo de seis mecânicos e um caminhão-oficina e ainda conta com a retaguarda de mais 20 funcionários na loja em Assis, sendo 16 na oficina e quatro nos setores de peças e serviços.
"Ao final do contrato, damos garantia de recompra das máquinas, se o cliente optar pela mesma marca na renovação da frota", afirma Dário William Sodré, gerente comercial corporativo da Tracan, concessionária Case IH com lojas em Ribeirão Preto, Araçatuba, Barretos, Uberlândia e Patrocínio (MG). Por enquanto, a Tracan tem contratos de manutenção com as usinas São Martinho, de Pradópolis (SP), e Interlagos, em Pereira Barreto, no extremo oeste paulista. "Mas estamos em negociação com várias outras", diz Sodré.
Segundo Coelho, da John Deere, a terceirização da manutenção de máquinas agrícolas é um negócio que começa a ganhar força neste ano e que não deve ter volta. Além da Cocal, outras duas concessionárias John Deere vendem o serviço a usinas: a Colorado, de Ribeirão Preto, tem contrato com a Usina Santa Elisa, de Sertãozinho, e a TerraVerde, de Casa Branca, é parceira das usinas São Luiz e São João, da Dedini Agro. Os negócios crescem a cada mês.
"Caminhamos para criar soluções que nos permitirão, no futuro, por meio das concessionárias, entregar cana na indústria", arrisca Rasso Von Reininghaus, gerente nacional de vendas da John Deere.
Em verdade, parte desse serviço já é feito pela Tratorag, concessionária John Deere de Piracicaba (SP). A empresa criou unidade separada para prestar serviços (que envolvem operações do preparo do solo à colheita da cana) para grandes grupos, como o Cosan.
Até pouco tempo atrás, fabricantes e concessionários de máquinas agrícolas não estavam preparados para vender manutenção, pois não havia uma análise profunda para compor preços. "O concessionário sabia vender e reparar máquinas. Hoje, vende manutenção porque sabe quanto custa a operação. Ele está dentro do negócio", diz.