Chegou a vez da canola
Sem um referencial de preço no mercado internacional, a canola utiliza os valores aplicados nas negociações da soja
Ela deixou a estação fria do ano com cara de primavera no Paraná e trouxe junto a expectativa de que nem tudo está perdido para alguns produtores de grãos. A canola foi a opção de muitos neste inverno para substituir o trigo, na tentativa de driblar as dificuldades operacionais e comerciais do cereal. A área plantada da oleaginosa, por sua vez, aumentou mais de 100% nesta temporada, passando de 6,3 mil hectares, em 2009, para 12,8 mil hectares em 2010. E agora, momento em que começa a colheita da oleaginosa a expectativa é grande em relação ao desempenho produtivo. O mercado é promissor tanto para o setor alimentício quanto de biocombustível.
Dados do Departamento de Economia Rural (Deral), órgão ligado à Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (Seab) apontam um crescimento recorde também na produção: quase 200%. A estimativa do órgão é de que sejam colhidas 21,2 mil toneladas de canola. Na safra passada foram produzidas 7,2 mil toneladas do grão. Nesta temporada, o rendimento esperado é 40% maior: 1,6 mil quilos por hectare contra 1,1 mil do ano passado. No Brasil, a área plantada cresceu 45,9%, passando para 45,9 mil hectares. A produção é estimada em 60,7 mil toneladas, crescimento de 43,8%, segundo dados da Companhi Nacional de Abastecimento (Conab).
Segundo Otmar Hubner, engenheiro agrônomo do Deral, dois fatores têm contribuído para que produtores invistam na canola. Primeiro a busca por uma alternativa de plantio no inverno para substituir o trigo. Além disso, empresas no Estado estão fomentando o plantio do grão. É grande o interesse do setor alimentício - que fica com a maior parte da produção - e também da indústria de biocombustível.
Setor produtivo
O produtor Ivo Possatto Filho, da região de Arapoti, é um dos que apostaram no plantio da canola neste inverno. A área plantada do grão na sua propriedade soma 500 hectares, uma das maiores do Estado com a cultura. ''Quando plantamos canola em 2008 tivemos um bom desempenho e resolvemos aumentar a área. Também buscamos uma alternativa para o trigo que não tem sido interessante'', conta o produtor, destacando que no ano passado não plantou canola porque queria analisar como seria o desempenho da safra de verão cultivada sob um solo que não havia recebido a oleaginosa.
Feito a análise perceberam que a cultura de verão teve um bom desempenho quando plantada depois da canola, por isso Possatto e o cunhado João Prix Neto decidiram dobrar a área com a oleaginosa em 2010. A opção pela canola também tem relação com o custo de produção, cerca de 40% menor do que o do trigo. ''E é uma cultura com comercialização e rendimento mais seguros do que o cereal'', destaca Prix Neto, frisando que a oleaginosa é menos suscetível à geada e à seca.
Além disso, os produtores ressaltam que a canola - diferentemente do trigo - não tem tipologia, classificação, padronização, fatores que dificultam ainda mais o plantio e a comercialização do cereal. ''Canola é canola'', resume Possatto. Conforme Hubner, técnico do Deral, ainda não existe referencial de preço de comercialização no mercado internacional para a canola. Por enquanto, os valores aplicados nas negociações são os da soja, que durante a semana estava avaliada em R$ 38,29 a saca de 60 quilos no Paraná.
Segundo os produtores, as sementes utilizadas no Brasil são importadas basicamente da Austrália. Há apenas uma variedade, a Hyola 61. Para Possatto, a canola é uma tendência. ''A área plantada deve crescer muito daqui para frente porque os produtores estão desanimados, principalmente, com o trigo'', frisa. Porém, reforça que é necessário investimentos em pesquisas no País, para o desenvolvimento de variedades que atendam as condições climáticas brasileiras.
Segundo Prix Neto, este ano a produtividade deve ser de 1,7 mil quilos por hectare na sua propriedade. Nos principais países produtores da canola, como Austrália e Canadá, a produtividade varia de 3 mil a 3,5 mil quilos por hectare.