Chuvas intensas voltam a colocar o Rio Grande do Sul em atenção
O momento exige atenção, não pânico
Foto: Aline Merladete
Mais uma vez, o Rio Grande do Sul se encontra diante de previsões de chuva capazes de produzir alagamentos, enxurradas, inundações e movimentos de massa. Esses processos podem resultar em casas atingidas, interrupções de estradas, destruição de pontes, isolamento de comunidades, soterramentos e, no cenário mais grave, perda de vidas. A previsão não significa que todos esses impactos ocorrerão, mas oferece uma janela de oportunidade para que os danos possam ser reduzidos caso o evento se materialize.
O momento exige atenção, não pânico. É importante acompanhar os avisos atualizados da Defesa Civil, pois as previsões meteorológicas e hidrológicas trabalham com probabilidades e são atualizadas à medida que novos dados de radar, satélite, estações e modelos numéricos se tornam disponíveis. Em razão de novas previsões, o cenário pode mudar, mas essa incerteza não justifica a falta de ação antecipada pois, na gestão de riscos, preparar-se com antecedência costuma ser menos custoso econômica e socialmente do que uma reação tardia.
As previsões indicam para os próximos dias um período mais crítico, entre o sábado (18) e domingo (19), com possibilidade de que esta instabilidade continue após este período. Neste período são esperadas tempestades severas, rajadas de vento que podem superar 90 km/h, granizo, possibilidade de tornados, chuva muito intensa em curto intervalo e acumulados de precipitação que podem ultrapassar 250 mm em regiões do Oeste e Centro do estado. Como resultado, é esperado que o nível dos rios Quaraí, Ibirapuitã, Rosário do Sul, Ibicuí, Jaguari, Vacacaí e Jacuí tenham elevação significativa. Já para a região do baixo Jacuí e Taquari-Antas, os acumulados devem ficar abaixo dos 200 mm, sendo esperadas cheias ordinárias para estes rios e, também, para os rios Caí, Sinos, Gravataí e Guaíba.
Mesmo fora das tempestades, podem ocorrer ventos persistentes entre 70 e 90 km/h, especialmente entre a madrugada de sexta-feira e o sábado, e as previsões indicam que as condições de chuva e tempestades severas podem continuar após o período inicialmente indicado. Assim, o risco inicial é maior para alagamentos, enxurradas, quedas de árvores, destelhamentos e cheias de pequenos cursos d’água, pois os rios de maior porte encontram-se, em geral, com níveis dentro da normalidade, com estabilidade ou declínio – isso significa uma condição inicial favorável, mas não elimina o risco. A elevação dos rios maiores tende a aparecer posteriormente, à medida que a água precipitada se concentra na rede de drenagem. É importante esclarecer que qualquer previsão de cheia nos rios é passível de se alterar, visto que a previsão meteorológica pode sofrer variações tanto de magnitude do fenômeno, quanto de distribuição espacial.
Da chuva ao desastre
Chuvas intensas são fenômenos naturais, e o desastre surge quando a ameaça encontra pessoas, infraestrutura e serviços expostos e vulneráveis. A ocupação de planícies de inundação, encostas instáveis e áreas com drenagem insuficiente, somada à fragilidade de pontes, estradas, diques e redes de serviços, transforma um evento meteorológico em uma crise social e econômica.
Nas últimas décadas, a expansão urbana e viária avançou sobre áreas suscetíveis, muitas vezes acompanhada por uma falsa sensação de segurança. Como os eventos mais graves eram pouco frequentes, parte da população passou a tratar o risco como remoto. Ao mesmo tempo, a prevenção estrutural e territorial — como zoneamento efetivo, realocação de famílias, construção/recuperação de sistemas de proteção como diques, adequação de travessias — não avançou na velocidade necessária. Muitas dessas medidas são indispensáveis, mas não podem ser concluídas nos poucos dias que antecedem uma tempestade.
Por isso, quando a previsão aponta para um episódio potencialmente severo, a prioridade imediata é a preparação para a resposta. Preparar não significa aceitar que o desastre seja inevitável; significa usar as horas disponíveis para reduzir exposição, acelerar decisões e proteger vidas.
Do ponto de vista hidrológico, não basta perguntar “quanto vai chover?”. É preciso saber onde a chuva cairá, com que intensidade e sobre quais condições prévias de solo e de nível dos rios. Um acumulado significativo, mas distribuído ao longo de vários dias pode produzir resposta muito diferente do mesmo volume concentrado em duas ou três horas – e esta é uma das principais preocupações com relação à previsão para os próximos dias, especialmente na região Oeste e Centro do estado.
Nas pequenas bacias e áreas urbanas, a resposta pode ocorrer em minutos ou poucas horas. Nesses locais, tempestades convectivas são capazes de provocar alagamentos, enxurradas, erosão intensa e movimentos de massa antes que os grandes rios apresentem elevação relevante. Já nas bacias maiores, a onda de cheia se propaga mais lentamente; o nível máximo pode ocorrer horas ou dias após a chuva cessar, quando a percepção pública de perigo já começou a diminuir.
Esses diferentes processos territoriais implicam em diferentes tempos de resposta. Municípios em pequenas bacias precisam de alertas e protocolos de ação rápidos. Municípios situados a jusante de grandes rios precisam acompanhar a elevação do nível dos rios, mesmo que a chuva local seja pequena ou já tenha terminado. Nas ilhas e áreas baixas do Delta do Jacuí, por exemplo, a vigilância deve considerar não apenas a chuva metropolitana, mas também a contribuição acumulada das bacias a montante.
O que fazer enquanto as medidas definitivas não são implementadas:
Parte das medidas de longo prazo não pode ser executada antes deste evento. Ainda assim, há um conjunto de ações imediatas que pode reduzir significativamente os impactos:
• Garantir redundância, padronização e compartilhamento dos dados: estações convencionais, radares, telemetria e observações de campo devem ser disponibilizados em plataformas múltiplas que operem em conjunto, evitando que uma falha isolada interrompa o monitoramento.
• Integrar previsão meteorológica e hidrológica: não basta informar que choverá; a população e os gestores precisam saber onde, quando e quanto os rios podem subir, quais áreas podem ser afetadas e qual é a incerteza associada.
• Revisar e ativar os planos de contingência: as Defesas Civis municipais e estadual, bombeiros, saúde, assistência social, concessionárias e responsáveis por estradas devem operar de forma coordenada, com papéis definidos.
• Pré-posicionar pessoas e recursos: as equipes de resgate, veículos, embarcações, geradores, medicamentos, água, alimentos e materiais para abrigos devem ser deslocados antes de eventual interrupção das vias.
• Verificar estruturas temporárias e serviços essenciais: as barreiras móveis, bombas, diques provisórios, hospitais, sistemas de abastecimento e telecomunicações precisam de planos de instalação, pessoal treinado e testes prévio de forma a garantir a efetividade.
• Comunicar com clareza e combater a desinformação: os alertas devem usar linguagem simples, indicar o que fazer e ser atualizados com regularidade. Informações falsas ou contraditórias reduzem a confiança e atrasam a resposta.
• Apoiar decisões em conhecimento técnico: os órgãos públicos devem consultar instituições, especialistas, universidades, associações científicas e grupos de pesquisa que atuam em meteorologia, hidrologia, geotecnia e gestão de riscos.
Um alerta tecnicamente correto pode falhar se não chegar à população certa, no momento certo e com uma orientação compreensível. Expressões como “risco alto”, “chuva volumosa” ou “elevação significativa” precisam ser acompanhadas de consequências práticas como: quais bairros, pontes, estradas ou comunidades devem ser monitorados; quando a retirada preventiva deve começar; onde estão os abrigos; e quais rotas devem ser evitadas.
Também é importante comunicar a incerteza sem transmitir indecisão. Dizer que uma previsão pode mudar não irá reduzir sua importância, mas mostrará o porquê os boletins precisam ser acompanhados continuamente. A população, por sua vez, deve priorizar canais oficiais, cadastrar-se nos sistemas de alerta disponíveis e evitar atravessar áreas inundadas. Em situações de chuva intensa, uma lâmina aparentemente rasa pode esconder buracos, correnteza, estruturas danificadas ou redes elétricas comprometidas.
Registrar o evento também é uma medida de prevenção. Cada evento deve ser documentado desde as primeiras previsões, devendo ser registrados, por exemplo, quais alertas foram emitidos, quando as equipes foram mobilizadas, quais decisões funcionaram, onde houve falhas e quais impactos ocorreram. Fotografias georreferenciadas, marcas de cheia, registros de interrupção de pontes e estradas e relatos de moradores são dados valiosos para reconstruir o evento e aprimorar o planejamento. Esse registro precisa ser padronizado, e permanecer acessível mesmo quando houver renovação das equipes técnicas. Sem documentação, cada município tende a reaprender as mesmas lições a cada emergência. Com dados organizados, a experiência pode orientar mapas de risco, projetos de infraestrutura, sistemas de previsão, protocolos de evacuação e investimentos futuros.
O episódio previsto para os próximos dias deve ser acompanhado com seriedade e serenidade. O cenário meteorológico pode mudar de posição e magnitude, mas já há elementos suficientes para justificar a preparação antecipada, especialmente no Oeste e Centro do Rio Grande do Sul. Pequenos cursos d’água e sistemas urbanos podem responder rapidamente; os rios maiores exigirão vigilância prolongada durante e após a passagem das tempestades.
A ABRHidro, por meio de seus associados e da comunidade técnico-científica que representa, coloca-se à disposição para colaborar com o enfrentamento do evento, a interpretação de dados, a previsão hidrológica e a avaliação posterior dos impactos, em fase de recuperação e prevenção.
Daniel Gustavo Allasia - UFSM - Docente do PPGECAM
Fernando Dornelles - UFRGS - Vice-diretor do IPH
João Francisco Carlexo Horn - UFSM - Coordenador do curso de Graduação em Engenharia Ambiental
Rutineia Tassi – UFSM - Docente do PPGECAM - Membro do conselho fiscal da ABRHidro