Clima úmido pede ajustes no controle fitossanitário do trigo
Chuva favorece novos ciclos da doença
Foto: Seane Lennon
Invernos mais chuvosos aumentam a atenção para a mancha salpicada nas lavouras de trigo. Causada principalmente pelo fungo Parastagonospora nodorum, a doença encontra condições favoráveis quando há mais umidade, noites frias e períodos prolongados de folhas molhadas. Nessas situações, pode avançar das folhas inferiores para as partes superiores da planta e chegar à espiga.
O avanço da doença reduz a área verde das folhas, comprometendo a fotossíntese e o enchimento dos grãos. Quando alcança as espigas, também pode prejudicar a formação dos grãos e afetar a qualidade industrial do trigo. A preocupação aumenta principalmente entre julho e outubro, período em que a cultura passa por fases importantes do desenvolvimento. Em anos com maior frequência de chuvas, estratégias adotadas em safras mais secas podem não oferecer a mesma proteção, especialmente quando envolvem intervalos maiores entre aplicações ou programas voltados principalmente para ferrugens.
Chuva favorece novos ciclos da doença
O fungo pode permanecer em restos culturais de trigo infectados da safra anterior. Com chuva e períodos prolongados de orvalho, ocorre a produção e a liberação de esporos, que podem ser espalhados por respingos de água e pela combinação de vento e chuva. A infecção é favorecida quando as folhas permanecem molhadas por várias horas e as temperaturas estão amenas, normalmente entre 15 e 25 °C.
Depois que surgem as lesões, o fungo pode produzir novos esporos e iniciar outras infecções. Por isso, anos mais chuvosos permitem maior número de ciclos da doença dentro da mesma safra, aumentando a pressão sobre a cultura, principalmente entre o perfilhamento e o enchimento dos grãos. Os sintomas aparecem como pequenas ou médias lesões nas folhas, geralmente com formato angular ou elíptico e coloração que varia do castanho-claro ao castanho-escuro.
Folhas superiores precisam de atenção
Em invernos mais secos, a mancha salpicada pode permanecer concentrada nas folhas inferiores e causar menor impacto. O cenário muda quando as chuvas são frequentes. Com maior período de molhamento das folhas, a doença pode avançar para a parte superior da planta. A perda de área verde na folha bandeira e nas folhas próximas reduz a capacidade de fotossíntese justamente durante uma fase importante para a formação dos grãos.
A folha bandeira merece atenção especial no manejo porque tem participação importante na fotossíntese durante o enchimento dos grãos. Por isso, manter essa folha protegida é um dos pontos destacados no planejamento das aplicações em períodos de maior pressão da doença.
Monitoramento deve orientar o momento de controle
O início do controle não deve ser definido apenas por uma data no calendário. A decisão precisa levar em conta o histórico da área, a cultivar utilizada, as condições climáticas e os sintomas observados na lavoura. Áreas com trigo em sucessão, grande quantidade de palhada ou histórico de manchas foliares exigem atenção. Cultivares mais suscetíveis também podem precisar de acompanhamento mais próximo. Outro sinal importante é a presença de lesões nas folhas inferiores e no terço médio da planta. Quando essas lesões aparecem junto com previsão de uma sequência de dias chuvosos e temperaturas amenas, o risco de avanço aumenta.
Em invernos chuvosos, a primeira aplicação pode precisar ocorrer mais cedo do que em anos secos, principalmente quando há condições favoráveis à doença. O acompanhamento semanal entre o perfilhamento e a emissão da folha bandeira ajuda a evitar atraso na tomada de decisão.
Intervalos entre aplicações podem precisar de ajuste
A maior pressão da doença também interfere na programação das pulverizações. Em anos menos chuvosos, algumas lavouras conseguem manter o controle com menor número de aplicações e intervalos mais longos, especialmente quando são utilizadas cultivares com melhor resistência. Já em períodos mais úmidos, intervalos menores podem ser necessários para manter a proteção da cultura. A decisão depende das condições climáticas, da pressão da doença e das orientações previstas na bula do produto utilizado.
O planejamento pode abranger o período entre o início do alongamento das plantas e a fase inicial do enchimento dos grãos, com atenção especial para a proteção das folhas superiores.
Não existe, porém, um número único de aplicações ou intervalo que possa ser adotado em todas as lavouras. Esses ajustes devem considerar a situação observada no campo e respeitar os limites estabelecidos para cada produto.
Segurança deve ser mantida mesmo com maior pressão da doença
A necessidade de aumentar a atenção às pulverizações em períodos chuvosos não altera as exigências de segurança e de uso correto dos produtos. O preparo da calda, a aplicação e a lavagem dos equipamentos devem ser realizados com os equipamentos de proteção individual indicados. Dose, volume de calda, intervalo entre aplicações e período de segurança também precisam seguir as orientações da bula.
A aplicação deve contar com receituário agronômico emitido por profissional habilitado. Também é necessário adotar cuidados para evitar deriva e contaminação de áreas vizinhas, matas, corpos d'água e residências, além de realizar corretamente o descarte das embalagens vazias.
Com invernos mais chuvosos, o manejo da mancha salpicada passa a depender ainda mais da combinação entre previsão do tempo, monitoramento da lavoura, escolha da cultivar, histórico da área e posicionamento das aplicações. A estratégia deve ser ajustada às condições observadas em cada safra e acompanhada por um engenheiro agrônomo.