Como diferenciar mosaico comum de deficiência nutricional no trigo
Doença é causada, na maior parte dos relatos em cereais de inverno
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O mosaico comum do trigo, uma virose importante em regiões produtoras de clima mais frio como o Sul do Brasil, tende a se manifestar com maior intensidade em lavouras estabelecidas entre outono e inverno, com risco elevado de erro de diagnóstico justamente entre junho e agosto, período em que os sintomas costumam ser confundidos com deficiências nutricionais. O alerta é direcionado a produtores que observam manchas amareladas na lavoura nesse intervalo e precisam distinguir se o problema é causado por falta de nutriente ou por uma infecção viral sem controle curativo.
Segundo a Embrapa Trigo, a doença é causada, na maior parte dos relatos em cereais de inverno, pelo Wheat streak mosaic virus (WSMV), transmitido principalmente pelo ácaro eriofídeo Aceria tosichella, extremamente pequeno e invisível a olho nu. O vírus infecta preferencialmente gramíneas, incluindo trigo, milho voluntário, outras poáceas daninhas e plantas tigueiras, e sobrevive em hospedeiras vivas durante a entressafra. Com a multiplicação do ácaro vetor nessas plantas e a ação do vento, os ácaros migram para as plântulas de trigo recém-emergidas ou em perfilhamento, inoculando o vírus, que se movimenta internamente pelo sistema vascular e provoca redução de crescimento, falhas na fotossíntese e o típico padrão de mosaico e clorose em listras. Como o vírus se instala de forma sistêmica nos tecidos, a planta não consegue eliminar a infecção — o máximo que pode ocorrer é uma recuperação parcial do aspecto visual em condições climáticas favoráveis, mas geralmente com redução de produtividade.
De acordo com Ribeiro e Prestes, na Revista Brasileira de Fitopatologia, a intensidade dos danos depende de três fatores principais: o momento da infecção, já que quanto mais cedo a planta é infectada — na fase de plântula e início de perfilhamento — maiores são as perdas potenciais de rendimento; a suscetibilidade da cultivar, com materiais mais sensíveis apresentando maior amarelecimento, baixa estatura e redução no número de espigas; e o nível de inóculo e a população do ácaro, já que áreas com alta presença de trigo voluntário e gramíneas hospedeiras tendem a ter infecções mais severas. Em situações graves, a virose pode provocar falhas no estande visualmente perceptíveis em manchas irregulares, redução acentuada do número de perfilhos férteis, espigas menores e com menos grãos, e menor peso de mil grãos.
O diagnóstico visual da doença começa pela observação da lavoura em escala de talhão e depois pela avaliação detalhada de folhas individuais. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o mosaico comum geralmente se manifesta em reboleiras de formato irregular, que podem começar pequenas e se expandir ao longo das linhas, acompanhando a direção do vento predominante e a movimentação do ácaro, com transição relativamente brusca entre plantas sadias e doentes ao passar pela borda da mancha — um padrão associado a áreas de entrada de vento ou de plantas voluntárias, como bordas de talhão e cercas com gramíneas. Nas áreas afetadas, as plantas tendem a apresentar porte reduzido, menor perfilhamento e coloração geral amarelada, o que pode gerar a impressão de deficiência generalizada de nitrogênio, ainda que com padrão distinto nas folhas.
Ao se aproximar das plantas nas reboleiras suspeitas, alguns sinais foliares chamam atenção: o desenho em mosaico, com áreas verde-escuras alternadas com faixas verde-claras ou amareladas dando aparência marmorizada à folha; listras cloróticas longitudinais, finas e contínuas ao longo da nervura central, por vezes mais intensas próximo à base; folhas enrugadas ou ligeiramente deformadas, principalmente em infecções precoces; e a persistência do sintoma em folhas novas, já que, diferente de alguns estresses nutricionais que podem ser parcialmente corrigidos, o mosaico viral tende a se manifestar também nas folhas emitidas após a infecção.
A diferenciação em relação a deficiências nutricionais passa por três critérios práticos, conforme a Embrapa Trigo. Na distribuição pela área, a deficiência nutricional costuma ter padrão mais uniforme, acompanhando diferenças de solo, falhas de aplicação de adubo ou relevo, enquanto o mosaico comum forma reboleiras de formato irregular, muitas vezes não alinhadas com o sentido das operações mecanizadas. No desenho da folha, a deficiência de nitrogênio provoca amarelecimento mais homogêneo, iniciando nas folhas mais velhas e normalmente sem o padrão típico de mosaico, enquanto a deficiência de enxofre causa clorose mais intensa em folhas jovens, também de forma mais uniforme — já o mosaico comum apresenta listras claras e escuras alternadas, com limite relativamente bem definido em relação ao tecido verde-escuro. Na resposta a correções nutricionais, as deficiências tendem a melhorar visivelmente após adubação de correção em poucas semanas, enquanto plantas com mosaico continuam apresentando o padrão característico nas folhas subsequentes e mantêm porte reduzido nas áreas infectadas, mesmo após a correção.
O texto do Ministério da Agricultura também orienta a diferenciação em relação a outras viroses e doenças foliares. Outras viroses em cereais podem produzir mosaicos e cloroses, mas tendem a apresentar maior variação na intensidade e localização dos sintomas, sendo o histórico da área e a presença do ácaro vetor e de plantas voluntárias reforços importantes para a suspeita de mosaico comum por WSMV. Manchas foliares fúngicas, por sua vez, geralmente apresentam lesões delimitadas, muitas vezes com halo mais escuro e centro necrosado, progredindo em função da umidade e ficando mais visíveis em folhas mais velhas e inferiores. Já a fitotoxidade por herbicidas pode causar cloroses e deformações foliares, mas normalmente com padrão associado às faixas de aplicação ou bordaduras, diferente das reboleiras irregulares típicas da virose.
Como não existem produtos capazes de eliminar o vírus da planta, a decisão de manejo diante da suspeita de mosaico comum gira em torno de confirmar o diagnóstico, ajustar expectativas de produtividade e direcionar ações preventivas para as próximas safras. A confirmação pode envolver registro fotográfico das folhas afetadas, consulta a assistência técnica com envio de amostras e, quando disponível, diagnóstico laboratorial específico, especialmente em áreas novas sem histórico consolidado da doença. Uma vez reconhecida a virose, o produtor pode dimensionar a área afetada percorrendo o talhão e registrando os limites das reboleiras, monitorar se essas manchas se expandem ou se estabilizam ao longo das semanas, e avaliar o impacto sobre o estande e o perfilhamento por meio de amostragens simples. A Embrapa Trigo reforça que é importante evitar aumentar doses de nitrogênio ou outros nutrientes apenas com base em sintomas localizados de mosaico e clorose, sem análise de solo e sem avaliação técnica ampla, já que a virose não responde a adubações extras.
Para reduzir o risco nas próximas safras, o manejo integrado recomendado passa pela redução máxima da presença de trigo voluntário, milho tiguera e gramíneas hospedeiras na entressafra, que servem de ponte verde para o vírus e o ácaro, pelo respeito a eventuais janelas de vazio sanitário local previstas por órgãos oficiais, pela escolha de cultivares com melhor comportamento frente a viroses registradas na região, em conjunto com a assistência técnica, e pelo ajuste da época de semeadura para evitar janelas de maior pressão do vetor e de hospedeiros alternativos, conforme indicado por pesquisas regionais. Qualquer intervenção envolvendo produtos químicos para o manejo de plantas voluntárias, como herbicidas, deve seguir estritamente as recomendações de rótulo e bula, a emissão de receituário agronômico por profissional habilitado, o uso correto de Equipamentos de Proteção Individual e as normas ambientais de descarte de embalagens.