Como monitorar broca-da-cana e cigarrinhas na reta final
De dezembro até a colheita, o foco do manejo deve estar concentrado na broca-da-cana
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No estádio reprodutivo da cana-de-açúcar, quando a planta já atingiu o fechamento de entrelinha, o máximo crescimento vegetativo e pode ou não emitir inflorescência, qualquer ataque de pragas passa a ter impacto direto na produtividade e no teor de açúcar. De dezembro até a colheita, o foco do manejo deve estar concentrado na broca-da-cana (Diatraea saccharalis) e nas cigarrinhas, especialmente Mahanarva fimbriolata, além de outras pragas de parte aérea e de solo que permanecem ativas no final do ciclo, em talhões espalhados por regiões canavieiras de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo. Segundo Dinardo-Miranda (2008), na cana-de-açúcar o estádio reprodutivo corresponde à fase em que a planta já completou a maior parte do crescimento em altura e biomassa, ocorre a maturação dos colmos e pode haver emissão da inflorescência, a depender da variedade e das condições ambientais.
Na prática de campo, para fins de manejo de pragas, considera-se esse período o intervalo intermediário-final do ciclo, em que o dossel está fechado, dificultando a visualização das pragas, os colmos já estão formados e acumulando sacarose, e o foco do manejo passa da formação de perfilhos para a manutenção de colmos sadios até a colheita. É justamente nesse período, nos meses que antecedem o corte, que a broca-da-cana e as cigarrinhas podem causar perdas significativas em produtividade e qualidade tecnológica, além de favorecer a entrada de patógenos causadores de podridões de colmo.
A broca-da-cana é uma das pragas-chave da cultura em todas as fases, mas seu dano é particularmente crítico no reprodutivo. De acordo com dados divulgados pela Embrapa, as lagartas perfuram e escavam galerias no interior dos colmos, consumindo tecidos e interrompendo o fluxo de seiva, com a intensidade de ataque expressa em percentual de colmos broqueados ou em número de internódios danificados por colmo. Na fase de maturação, essas galerias reduzem o peso do colmo, o acúmulo de sacarose, a qualidade industrial — com aumento de impurezas, fibras e fermentações — e a resistência mecânica da planta, o que dificulta a colheita mecanizada e aumenta o tombamento. As perfurações da broca ainda facilitam a entrada de fungos causadores de podridões vermelhas e outras doenças, agravando a perda de qualidade.
A cigarrinha-das-raízes (Mahanarva fimbriolata) também pode afetar o canavial no fim do ciclo, principalmente em anos chuvosos e com alta umidade, segundo Gallo et al. (2002). Adultos e ninfas sugam seiva e liberam toxinas que comprometem o sistema radicular e a parte aérea da planta. No reprodutivo, os principais efeitos incluem redução da área foliar funcional, com folhas amareladas, secas e com manchas, menor fotossíntese justamente na fase de acúmulo de sacarose, e facilitação do tombamento por desbalanço entre parte aérea e raízes danificadas — além da exsudação de espuma ao redor das ninfas, que dificulta o monitoramento visual da praga. Dependendo das condições climáticas e do histórico da área, outras pragas também podem estar presentes nessa fase, com relevância variável, como cupins, que favorecem falhas e tombamento ao atacar raízes e parte basal dos colmos, percevejos e sugadores de colmo, e formigas cortadeiras, que persistem atacando folhas até próximo à colheita.
Estudos da Embrapa e de instituições parceiras indicam que a broca-da-cana pode causar perdas de várias toneladas de cana por hectare, além de reduzir de forma significativa o açúcar total recuperável (ATR), dependendo do percentual de colmos broqueados e do número de internódios atacados por colmo. Mesmo níveis moderados de infestação próximos à colheita geram menor rendimento industrial de açúcar e etanol por tonelada, maior presença de colmos quebrados, moles ou com podridão, e aumento de custos na indústria com clarificação, filtração e controle de fermentações indesejáveis. Levantamentos regionais citados pela Embrapa também mostram perdas importantes de tonelada de cana por hectare (TCH) quando não há manejo adequado de cigarrinhas em áreas com histórico da praga, especialmente em safras chuvosas — e, segundo Garcia et al. (2005), se o canavial chega à colheita com alta infestação, há risco de aumento de inóculo de doenças e pragas na área para os ciclos seguintes, elevando o custo de manejo na cana soca e nos próximos plantios.
No estádio reprodutivo, o tempo entre a decisão de manejo e o retorno econômico é curto, o que exige critérios bem fundamentados para evitar intervenções desnecessárias ou tardias. Entre esses critérios estão o monitoramento sistemático do canavial, com caminhamento em zigue-zague e avaliação de colmos, folhas e espuma de cigarrinhas, a definição de áreas prioritárias, como talhões com histórico de alta infestação ou variedades mais suscetíveis, a avaliação da idade da cana e da distância até a colheita — já que quanto mais próximo do corte, menor a janela para que o controle gere retorno econômico —, e a consideração da presença de inimigos naturais na área. Para a broca, o procedimento básico envolve selecionar pontos de amostragem no talhão, avaliar o número de colmos identificando perfurações, orifícios com serragem e galerias, e calcular o percentual de colmos broqueados; o nível de controle a partir do qual a intervenção se justifica deve ser definido de acordo com o material técnico mais atualizado e com o engenheiro agrônomo responsável, já que varia com produtividade esperada, custo de controle e preço do produto. Para as cigarrinhas, a amostragem costuma envolver a contagem de ninfas por metro de linha ou por touceira, a contagem de adultos por batida de redes ou inspeção visual, e a avaliação de sintomas na lavoura, como amarelecimento e seca de folhas.
O controle biológico é uma das principais ferramentas no manejo da broca-da-cana, inclusive na fase reprodutiva. Segundo Garcia et al. (2005), o parasitoide Cotesia flavipes é amplamente utilizado para reduzir populações da praga ao longo do ciclo, e lançamentos planejados e contínuos, iniciados em fases vegetativas, ajudam a manter a infestação abaixo do nível econômico no final do ciclo. Outros agentes biológicos, como fungos entomopatogênicos do gênero Metarhizium, podem ser aplicados em condições de umidade favorável para reduzir as populações de ninfas e adultos de cigarrinhas. No reprodutivo, o foco não é iniciar o controle biológico, mas garantir a continuidade de liberações já planejadas, evitar o uso indiscriminado de inseticidas de amplo espectro que eliminem inimigos naturais presentes, e ajustar o manejo cultural — rotação, cobertura de solo e manejo de palhada — para favorecer o equilíbrio biológico da área.
Mesmo em fase reprodutiva, algumas práticas culturais seguem tendo impacto sobre as pragas. A manutenção adequada da palhada na superfície, em áreas de colheita mecanizada sem queima, ajuda a regular temperatura e umidade, influenciando a dinâmica de cigarrinhas e inimigos naturais, conforme aponta Dinardo-Miranda (2008). A boa uniformidade de estande reduz a presença de plantas dominadas ou enfraquecidas, mais suscetíveis a ataques, e evitar estresses hídricos e nutricionais na fase final também é importante, já que plantas estressadas tendem a ser mais atraentes ou menos tolerantes ao dano das pragas. Em áreas com histórico muito alto de cigarrinhas ou broca, a escolha varietal e o planejamento da época de corte em safras futuras são apontados como medidas estruturais complementares ao manejo químico e biológico.
O uso de inseticidas no estádio reprodutivo precisa ser avaliado com critério, já que a proximidade da colheita reduz o tempo para retorno do investimento, muitos produtos têm períodos de carência que precisam ser rigorosamente respeitados, e há risco de impacto negativo sobre inimigos naturais e polinizadores. Em termos gerais, a intervenção química só deve ser considerada quando o monitoramento indicar populações acima do nível de controle, ainda houver tempo suficiente até o corte para que a redução da infestação gere ganho em TCH e ATR, e houver produto registrado para a praga e a cultura, com modo de ação adequado à fase em que a praga se encontra. A escolha do inseticida, a dose e a modalidade de aplicação devem seguir estritamente rótulo, bula e receituário agronômico, além de considerar a rotação de modos de ação para manejo de resistência.
O estádio reprodutivo também é o momento de planejar a colheita mecanizada ou manual em articulação com o manejo de pragas. Entre as orientações práticas estão priorizar a colheita de talhões com alta pressão de broca ou cigarrinhas quando o controle químico já não for economicamente viável, ajustar a altura de corte e a regulagem das colhedoras para reduzir perdas de colmos e acúmulo de impurezas vegetais, e registrar, para cada talhão, o histórico de infestação, o uso de produtos e o resultado do controle, de forma a embasar as decisões de manejo nas safras seguintes. Esse trabalho deve estar articulado também com o manejo de plantas daninhas, que podem servir de abrigo ou alimento alternativo para algumas pragas, com os programas de adubação e irrigação, evitando estresse em fases críticas, e com a escolha de cultivares de maior tolerância ou menor atratividade a pragas-chave.
Qualquer intervenção química na cultura, inclusive no estádio reprodutivo, exige atenção às normas de segurança do trabalho e à legislação de agrotóxicos, com uso obrigatório de Equipamentos de Proteção Individual durante o preparo e a aplicação de caldas, respeito às normas de transporte, armazenamento e descarte de embalagens, e observância estrita das instruções de rótulo e bula quanto a dose, modo de aplicação, intervalo de segurança e culturas registradas — sempre sob orientação de um engenheiro agrônomo responsável pela emissão do receituário.