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Como o carvão comum do milho se instala, persiste e cresce safra após safra

Pressão da doença tende a crescer justamente nas áreas de maior intensidade


Foto: USDA

O carvão comum do milho, causado pelo fungo Ustilago maydis, está presente em todas as regiões produtoras do Brasil e tende a se agravar nas áreas de maior intensidade produtiva — especialmente onde o milho é cultivado em sucessão ou na safrinha. Considerada no Brasil como doença de importância secundária em razão da sua baixa incidência até hoje, a doença é diferente de todas as demais do milho, pois as espigas infectadas não produzem grãos e são perdidas integralmente. Com o estresse hídrico se tornando cada vez mais frequente nas principais regiões produtoras, a questão exige atenção crescente do setor. Embrapa

O fungo se dissemina de forma silenciosa e persistente. O U. maydis sobrevive em restos culturais, no solo e em sementes na forma de teliósporos, podendo se manter viável por muitos anos. Os esporos são facilmente disseminados pelo vento, respingos de chuva e água de irrigação. Dentro da lavoura, o ciclo se fecha rapidamente: as galhas aparecem em torno de sete dias após a infecção e, entre uma e duas semanas, as hifas nas galhas iniciam o processo de gelatinização, quando se inicia a formação de teliósporos. Após sofrer desidratação, os teliósporos são liberados e servem como fonte de inóculo para as safras posteriores. 

O período entre maio e agosto representa uma janela estratégica para quem quer reduzir essa pressão antes da próxima safra. O princípio central é diminuir a quantidade de esporos que permanecem nos restos da cultura. De acordo com a Embrapa, não adotar o manejo de entressafra causa uma série de problemas, entre eles ataques mais severos de doenças e pragas na lavoura nas safras seguintes. A trituração ou incorporação dos restos culturais, aliada à rotação com culturas não hospedeiras do fungo, reduz diretamente a fonte de inóculo disponível no solo — já que Ustilago maydis infecta apenas dois hospedeiros: o milho (Zea mays) e o teosinto (Zea mexicana). 

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A pressão da doença tende a crescer justamente nas áreas de maior intensidade produtiva. Sistemas com milho em sucessão contínua, comuns em Goiás, Mato Grosso e Paraná, acumulam inóculo safra após safra sem dar ao solo tempo para reduzir a carga fúngica. A monocultura, ou mesmo o sistema contínuo de sucessão como soja-milho safrinha, pode ser prejudicial à sanidade da lavoura ao longo dos anos. Para o produtor, isso se traduz em custos crescentes de monitoramento, eventual descarte de espigas infectadas e possível redução da produtividade, já que cada espiga com carvão representa produção zero naquele ponto da planta. 

A escolha do híbrido é uma das ferramentas preventivas mais relevantes, mas ainda subestimada no momento da compra de sementes. Com o avanço do melhoramento genético, é natural observar híbridos de milho com tolerância ou resistência a certas pragas e doenças. A escolha e o posicionamento de cultivares podem ser vistos como uma ferramenta de manejo para o controle de doenças do milho. Ao interpretar os catálogos, o produtor deve priorizar informações de desempenho sanitário em ensaios regionais — não apenas dados de produtividade em condições ideais — e privilegiar materiais com histórico de menor incidência de galhas nas condições do seu ambiente de cultivo. Ao longo dos anos, o uso consistente de híbridos mais tolerantes é capaz de reduzir a pressão da doença de forma acumulativa.

Para o produtor que está começando a enfrentar o problema agora, o caminho mais realista nos próximos dois ou três anos passa por um manejo integrado e progressivo. O carvão comum é mais frequentemente observado em plantas que enfrentam condições de estresse, sendo o estresse hídrico e altas doses de Nitrogênio causas que resultam em maior suscetibilidade. Portanto, o equilíbrio nutricional — especialmente no manejo do Nitrogênio — é parte do protocolo, ao lado da rotação de culturas, da trituração de restos culturais e da escolha de sementes certificadas e tratadas. A combinação dessas práticas não elimina o patógeno do solo, mas reduz progressivamente o inóculo disponível e diminui a frequência com que a doença se manifesta em níveis visíveis. 

O cenário climático adiciona uma camada de complexidade ao problema. Considerando que o país sofre com alta temperatura e falta de chuvas nos últimos anos, o aumento da doença pode estar relacionado com o estresse hídrico durante o cultivo do milho. Os impactos das mudanças climáticas sobre a agricultura brasileira são reais e estão se intensificando, e eventos extremos de seca nas regiões onde está concentrada a produção agropecuária do país, causados pelo aquecimento global, podem afetar a segunda safra de milho. Como o U. maydis encontra condições favoráveis justamente em situações de calor e baixa umidade relativa — exatamente o perfil que tende a se repetir com mais frequência na safrinha —, a tendência é de que a doença ganhe relevância nos próximos anos e deixe de ser tratada como secundária em determinadas regiões produtoras. O manejo preventivo, iniciado já na entressafra, será cada vez mais parte do planejamento sanitário de quem produz milho no Brasil. 

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