Fusariose exige atenção ao colmo da cana-de-açúcar
Doença pode afetar brotação, perfilhamento e qualidade da cana
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Falhas de brotação, redução de vigor, menor perfilhamento e amarelecimento das folhas podem indicar problemas fitossanitários na cana-de-açúcar, mas esses sinais, sozinhos, não são suficientes para confirmar a ocorrência de fusariose. A doença afeta principalmente o colmo e exige a abertura da planta para uma avaliação mais segura.
A fusariose é associada a Fusarium moniliforme, atualmente reconhecido como Fusarium verticillioides, e pode comprometer o pegamento das mudas, o perfilhamento, o estabelecimento do canavial e o acúmulo de sacarose.
O fungo pode sobreviver em restos culturais, no solo e em mudas infectadas. A entrada na planta pode ocorrer por gemas, raízes jovens e ferimentos provocados durante a colheita ou por danos mecânicos. Depois da infecção, o patógeno pode colonizar tecidos internos do colmo e permanecer como fonte de inóculo para novas áreas.
Entre setembro e dezembro, a atenção tende a aumentar em áreas onde temperaturas elevadas coincidem com maior umidade, chuvas, irrigação, rebrota de soqueiras, novos plantios e operações de colheita. Ferimentos no colmo, compactação, alternância entre seca e chuva e utilização de mudas de origem duvidosa estão entre as condições associadas a maior risco de infecção ou expressão dos sintomas.
Externamente, a fusariose pode provocar falhas no estabelecimento de áreas recém-plantadas, touceiras menos vigorosas, menor quantidade de colmos, canas finas e desuniformes, amarelecimento das folhas, encurtamento de entrenós e morte de gemas.
O problema é que vários desses sintomas também podem ocorrer por deficiência nutricional, compactação do solo, seca ou outras doenças. Por isso, a inspeção interna do colmo torna-se importante para diferenciar as causas.
Quando o colmo é cortado longitudinalmente ou em discos, podem aparecer alterações próximas aos feixes vasculares, com coloração que varia de esbranquiçada a amarronzada, além de manchas internas irregulares e áreas de necrose.
A podridão associada à fusariose tende a apresentar aspecto relativamente seco ou pouco úmido, normalmente sem o odor intenso observado em algumas podridões bacterianas. Gemas também podem apresentar escurecimento e ressecamento. Em estágios avançados, pode ocorrer presença de filamentos brancos a rosados nos tecidos afetados.
A diferenciação de outros problemas é um dos desafios do diagnóstico. Podridões bacterianas costumam apresentar tecidos mais úmidos, aspecto viscoso e odor forte.
Já nos casos relacionados à broca-do-colmo, a abertura da planta pode revelar galerias e excrementos escuros. O fungo pode ainda colonizar tecidos previamente danificados pela praga, fazendo com que danos de insetos e sintomas de doença ocorram ao mesmo tempo.
Estresses hídricos também podem provocar plantas menos vigorosas, falhas de brotação e amarelecimento. Nesses casos, porém, a avaliação interna do colmo ajuda na distinção. Na ausência do patógeno, os tecidos podem permanecer íntegros, enquanto a fusariose está associada a áreas localizadas de necrose e colonização dos tecidos.
Prevenção começa na escolha das mudas
Os impactos podem alcançar tanto a quantidade quanto a qualidade da cana produzida. Falhas de brotação reduzem o número de plantas por área, enquanto menor perfilhamento e colmos mais finos podem diminuir a massa produzida.
Colmos afetados também podem acumular menos sacarose e apresentar maior quantidade de impurezas na moagem. A doença ainda pode causar desuniformidade de maturação e deixar tecidos enfraquecidos mais suscetíveis à entrada de outros patógenos.
O manejo é essencialmente preventivo. Não é apresentada uma estratégia curativa simples baseada na aplicação de fungicidas em larga escala no campo. Por isso, a principal atenção recai sobre a qualidade das mudas e sobre práticas que reduzam as oportunidades de entrada e desenvolvimento do fungo.
O uso de material de plantio proveniente de viveiros certificados ou campos de multiplicação acompanhados tecnicamente é uma das medidas indicadas. Canas-semente com podridões, baixo vigor, manchas atípicas ou danos severos de pragas devem ser descartadas.
O preparo das mudas também deve evitar ferimentos desnecessários nas gemas e no colmo. Quando houver indicação de tratamento físico ou químico, a aplicação deve seguir a legislação, o rótulo, a bula e a orientação de profissional habilitado.
As condições do solo também interferem no manejo. A manutenção da fertilidade equilibrada, a redução da compactação e a prevenção de encharcamentos prolongados favorecem o desenvolvimento das plantas e reduzem situações de estresse.
Quando viável, a rotação de culturas pode ser utilizada em áreas com elevada pressão de inóculo.
O controle da broca-do-colmo faz parte dessa estratégia integrada, já que os ferimentos provocados pelo inseto podem facilitar a colonização por Fusarium. Na colheita mecanizada, a regulagem da altura de corte e da velocidade das máquinas também pode reduzir rachaduras e exposição dos tecidos internos.
Em áreas onde há suspeita da doença, a inspeção pode começar pela identificação de pontos com falhas de brotação ou menor vigor. A coleta de colmos em diferentes partes do talhão e a abertura das plantas permitem comparar os padrões internos.
Durante essa avaliação, a presença de galerias pode indicar participação da broca, enquanto odor intenso e podridão úmida podem direcionar a investigação para problemas bacterianos.
Quando o diagnóstico permanece incerto, especialmente em ocorrências recorrentes, o encaminhamento de amostras para análise fitopatológica é indicado.
Talhões com maior incidência também podem ser mapeados para orientar decisões futuras. Em áreas muito comprometidas, pode ser considerada a antecipação da renovação do canavial, desde que a decisão seja sustentada por avaliação técnica e econômica.
A prevenção da fusariose depende, portanto, de um conjunto de medidas que começa antes do plantio e continua durante o desenvolvimento e a colheita da cana. A utilização de mudas sadias, a redução de ferimentos, o manejo do solo, o controle de pragas e a abertura periódica de colmos suspeitos são pontos centrais para identificar o problema e reduzir sua disseminação.