Dano de lagarta na espiga abre porta para giberella no milho
Giberella se manifesta na espiga por meio de um crescimento fúngico
Foto: Nadia Borges
Ferimentos causados por lagartas e outras pragas abrem caminho para o fungo Fusarium graminearum colonizar a espiga, com impacto direto na produtividade, na qualidade dos grãos e no risco de micotoxinas nas lavouras de milho de BA, GO, MG, MS, MT, PI, PR e RS entre abril e agosto de 2026.
O controle de insetos na espiga do milho tem ganhado espaço como estratégia central contra a podridão giberella, doença causada principalmente pelo fungo Fusarium graminearum, cuja fase sexuada é conhecida como Gibberella zeae. Segundo publicações técnicas da Embrapa milho e sorgo, o problema afeta lavouras em estados como Bahia, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Piauí, Paraná e Rio Grande do Sul, com maior atenção exigida entre abril e agosto, período que concentra as fases finais de enchimento de grãos e a colheita das safras de verão e safrinha.
A giberella se manifesta na espiga por meio de um crescimento fúngico de coloração rosada a avermelhada, que compromete sabugo e grãos, deixando-os chochos ou mal formados. Além da perda direta de rendimento, a doença está associada à produção de micotoxinas como deoxinivalenol (DON) e zearalenona, substâncias com limites máximos estabelecidos para uso em alimentação humana e animal, o que torna o problema uma preocupação que vai além do campo e chega à comercialização dos lotes.
O fungo pode infectar a espiga por duas vias principais: pelos estigmas, os chamados "cabelos" do milho, sobretudo em condições de maior umidade durante a polinização, ou por ferimentos em grãos e sabugo, muitas vezes causados por lagartas e outros insetos que atacam a espiga. É essa segunda via que ganha destaque em sistemas de alta pressão de pragas, comuns nas regiões produtoras citadas, já que qualquer dano físico na espiga expõe tecido suculento e amido, criando porta de entrada para os esporos do fungo, que com frequência já estão presentes na palhada ou no próprio ambiente da lavoura.
Estudos conduzidos pela Embrapa, mostram que áreas com altos níveis de dano por lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea) e por lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda, quando atinge a espiga) registram maior incidência e severidade de podridões, incluindo a giberella, em comparação com áreas onde o controle de insetos é bem conduzido. Além do ferimento em si, os próprios insetos podem carregar esporos do fungo aderidos ao corpo, contribuindo para espalhar a doença dentro da lavoura.
Entre os insetos mais associados ao problema nas regiões produtoras, a lagarta-da-espiga se destaca por atacar diretamente a ponta da espiga, consumindo grãos em formação e abrindo galerias que acumulam umidade e resíduos — condição especialmente favorável ao surgimento de podridões rosadas na região apical. Já a lagarta-do-cartucho, mais conhecida por danos em folhas, também pode atingir espigas mais novas, abrindo caminho para o fungo a partir da base, muitas vezes de forma pouco visível externamente. Percevejos de espiga somam-se a essa lista ao perfurar grãos em desenvolvimento para se alimentar, gerando microferimentos que, em altas populações, também têm efeito cumulativo relevante sobre a incidência da doença.
O impacto econômico dessa combinação entre dano de inseto e avanço da giberella aparece em diferentes frentes. Grãos mal formados ou parcialmente consumidos pelo fungo reduzem diretamente o rendimento por hectare, enquanto o aumento de grãos quebrados e deteriorados prejudica a classificação comercial dos lotes. Um percentual maior de grãos ardidos ou danificados também pode resultar em deságio de preço junto a compradores, e o risco de contaminação por micotoxinas pode levar à rejeição de lotes ou à necessidade de diluição, o que encarece o processo para o produtor. O material técnico destaca ainda que o problema não depende apenas da presença do fungo isoladamente, mas da combinação entre dano de inseto, condições ambientais favoráveis e tempo até a colheita: quanto mais cedo ocorre o ferimento na espiga e mais longo o período até a colheita, maior tende a ser a deterioração observada.
Diante desse cenário, a decisão de manejo é apontada como dependente de monitoramento sistemático, e não de aplicações programadas por calendário. O acompanhamento deve começar ainda no pré-pendoamento, com inspeções de plantas e uso de armadilhas para estimar a pressão de lagartas que podem chegar à espiga, ganhando atenção redobrada durante o florescimento, fase em que a espiga está mais suscetível tanto à infecção por Fusarium quanto ao ataque de lagartas em busca de grãos em formação. A previsão de chuva e umidade nesse período, somada ao histórico de incidência de podridões e micotoxinas em safras anteriores, deve orientar o nível de atenção dado a cada talhão, sempre em conjunto com engenheiro ou engenheira agrônomo responsável pela recomendação técnica.
O manejo integrado de pragas aparece como a principal ferramenta para reduzir a participação dos insetos na entrada da giberella, combinando diferentes frentes de ação. Híbridos de milho com tecnologia Bt podem reduzir de forma significativa o dano de lagartas na espiga, mas a manutenção de áreas de refúgio é indispensável para retardar a evolução de resistência, e que mesmo em milho Bt o monitoramento continua sendo necessário, já que falhas de controle ou populações resistentes podem gerar danos expressivos. O controle biológico, por meio de parasitoides como Trichogramma spp. ou de bioinseticidas à base de Bacillus thuringiensis e fungos entomopatogênicos, complementa essa estratégia ao reduzir a população de lagartas antes que atinjam a espiga. Quando necessário, o uso de inseticidas químicos deve ocorrer com as lagartas ainda pequenas, antes de penetrarem profundamente nas brácteas, sempre seguindo rótulo, bula e receituário agronômico, com rotação de modos de ação para conter o risco de resistência.
Práticas culturais também entram na equação. O escalonamento do plantio pode diluir a concentração de florescimento em épocas de maior pressão de pragas, enquanto a eliminação de milho voluntário na entressafra e a rotação de culturas ajudam a reduzir tanto a população de insetos quanto o inóculo de fungos presente na palhada. A escolha de híbridos menos suscetíveis a podridões de espiga, o equilíbrio nutricional da planta — com atenção especial a potássio e micronutrientes — e o ajuste de densidade de plantio para evitar excesso de umidade na zona da espiga completam o conjunto de medidas preventivas. O momento da colheita é tratado como etapa crítica: evitar deixar espigas maduras expostas no campo por longos períodos, especialmente em anos chuvosos, e garantir secagem adequada logo após a colheita, ajuda a conter o avanço do fungo e a formação de micotoxinas na fase de pós-colheita.