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Déficit de armazenagem se agrava com mudanças climáticas, alerta professora da UFMT

Segundo Ruffato, o problema da armazenagem no país não é pontual, mas estrutural


Foto: freeimages

A professora associada da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Solenir Ruffato, engenheira agrícola formada pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), com mestrado, doutorado e pós-doutorado em pós-colheita pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), afirma que o déficit de capacidade estática de armazenagem no Brasil vem crescendo há décadas e ganhou contornos ainda mais críticos neste ano, com chuvas atípicas que atingiram grãos armazenados a céu aberto em Mato Grosso. A especialista concedeu entrevista ao Portal Agrolink às vésperas do II Simpósio Internacional do Silo Bolsa (II SISB), evento que reunirá armazenistas, pesquisadores, indústria e produtores para debater soluções para o setor.

Segundo Ruffato, o problema da armazenagem no país não é pontual, mas estrutural. "A situação crítica da armazenagem já vem de décadas e só vem piorando", afirma a professora, que tem acompanhado a evolução da capacidade de armazenagem, da produção e do déficit correspondente ao longo dos anos. De acordo com ela, esse cenário se soma agora aos efeitos das mudanças climáticas, tornando ainda mais urgente o debate sobre o tema.

Um exemplo citado pela pesquisadora é a prática comum no norte de Mato Grosso de armazenar milho a céu aberto, adotada historicamente em razão da seca típica da região entre a colheita e o mês de setembro, período em que as chuvas costumavam ser praticamente nulas. Neste ano, no entanto, a professora relata que a região registrou ao menos quatro chuvas de surpresa sobre toneladas de milho armazenadas dessa forma, um comportamento climático que classifica como inédito.

Ruffato detalha que o volume acumulado de chuva já ultrapassava 70 milímetros nos meses de junho e julho, período que normalmente seria seco na região. Segundo a professora, essas chuvas atípicas não afetaram apenas o produto que já estava armazenado a céu aberto, mas também atrasaram significativamente a maturação do milho, prolongando o tempo necessário para a redução da umidade dos grãos antes da colheita. Como resultado, a colheita reuniu lotes de milho com qualidade bastante heterogênea, incluindo grãos avariados.

É nesse contexto que a professora destaca o papel do silo bolsa como ferramenta de gestão da qualidade do grão. Segundo ela, uma das funções mais importantes do equipamento é permitir a segregação de produtos de diferentes qualidades provenientes da mesma lavoura — recurso que, segundo a professora, se tornou ainda mais relevante diante da safra heterogênea observada neste ano em Mato Grosso. A pesquisadora cita ainda relatos semelhantes recebidos do Paraná, estado em que chuvas e frio também atrasaram a maturação do milho, levando alguns produtores a armazenar temporariamente soja com umidade elevada em silo bolsa, prática que, segundo ela, também é adotada em Mato Grosso.

Para a professora, o cenário reforça a necessidade de repensar a prática de armazenagem a céu aberto, que, segundo ela, tende a se tornar mais arriscada e provavelmente será evitada com o avanço das mudanças climáticas.

Ao explicar a proposta do II SISB, Ruffato afirma que reunir diferentes experiências sobre silo bolsa é fundamental para o avanço do setor. "Muitas vezes a gente só enxerga a ilha quando a gente sai da ilha", diz a professora, ao defender a importância de ouvir visões externas para identificar soluções ainda não pensadas localmente. Como exemplo, ela cita a experiência argentina, onde, segundo a professora, iniciativa privada, governo, pesquisa e demais instituições do agronegócio se reuniram para discutir conjuntamente o futuro da armazenagem, o que teria permitido resolver grande parte dos problemas do setor no país vizinho.

A professora afirma também que o simpósio busca dar voz a diferentes elos da cadeia produtiva no Brasil — produtores, indústria e pesquisa — que enfrentam o mesmo desafio da armazenagem sob perspectivas distintas. Segundo ela, essa troca de experiências entre diferentes setores gera sinergia e amplia o repertório de soluções disponíveis.

Sobre as expectativas para o evento, Ruffato diz estar otimista após meses de preparação do simpósio. Para a professora, as soluções para os problemas de armazenagem surgem a partir de questionamentos, e o encontro entre armazenistas, pesquisadores, indústria e produtores deve gerar tanto perguntas quanto ideias ainda não exploradas. Ela pondera que cada região do país enfrenta desafios particulares — cita como exemplo as diferenças entre o norte e o sul de Mato Grosso — e defende que aproximar esses diferentes contextos em uma mesma discussão tende a gerar soluções aplicáveis a realidades diversas. "A gente quer melhoria, a gente quer reduzir perdas, a gente quer continuar conservando a qualidade do produto produzido pelo produtor", resume a professora.

Sobre o evento

O 2º Simpósio Internacional sobre Silo Bolsa reunirá especialistas, produtores, pesquisadores e empresas do agronegócio em três dias de programação técnica e estratégica, com palestras, debates e demonstrações práticas sobre inovações e tendências do setor de armazenagem. Entre os temas abordados estão conservação de grãos, silagens, resíduos agroindustriais, logística, gestão do armazenamento e tecnologias inteligentes aplicadas ao campo.

O evento contará ainda com demonstrações práticas de silo bolsa e silagem, vitrines tecnológicas com empresas e startups do setor, além da apresentação de soluções digitais e ferramentas de monitoramento para armazenagem agrícola. A programação é voltada a produtores rurais, cooperativas, tradings, indústrias, usinas, pesquisadores, profissionais e estudantes ligados ao agronegócio, e prevê espaço para networking e geração de negócios. 

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