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Déficit de trigo no Paraná pode chegar a 1,6 milhão de toneladas

Mercado de trigo no Paraná entra na safra 2026/27 diante de um desequilíbrio


Foto: Pixabay

O mercado de trigo no Paraná entra na safra 2026/27 diante de um desequilíbrio histórico entre produção e demanda. O Estado deve colher 2,2 milhões de toneladas, enquanto seus moinhos processam cerca de 3,85 milhões de toneladas por ano, abrindo uma necessidade de aproximadamente 1,6 milhão de toneladas para atender a indústria.

O cenário ganha peso porque o Paraná concentra o maior parque moageiro brasileiro e responde por 30% da produção nacional de farinha. A redução da oferta estadual ocorre justamente em um momento de margens pressionadas na indústria, aumento dos custos do cereal e dificuldades para que a valorização do trigo seja repassada na mesma proporção aos preços da farinha.

A combinação desses fatores estará no centro das discussões da 9ª edição do Café Moageiro, promovida pelo Sindicato da Indústria do Trigo do Paraná (Sinditrigo-PR) em 11 de agosto, a partir das 8 horas, na Sociedade Rural do Paraná, em Londrina. O encontro reunirá representantes de moinhos, cooperativas, entidades do setor e especialistas, em um momento próximo ao início da colheita do cereal no Estado.

Segundo a presidente do Sinditrigo-PR, Paloma Venturelli, o atual ciclo exige atenção especial da indústria diante das pressões que atingem tanto os custos quanto a rentabilidade.

“A subida do preço do grão sem o correspondente repasse para a farinha comprime as margens e afeta diretamente a rentabilidade dos moinhos. Some-se a isso o enfraquecimento do mercado de farelo de trigo, um dos principais coprodutos da moagem. É um momento que exige do setor atenção redobrada e medidas que preservem a competitividade e a eficiência operacional, sem abrir mão da qualidade", afirma.

A redução da produção paranaense faz parte de um quadro mais amplo de retração da triticultura brasileira. O analista da Safras & Mercado Élcio Bento, que participará do Café Moageiro, aponta que a estimativa nacional, inicialmente calculada em 7,2 milhões de toneladas no começo do ano, foi revisada para 5,9 milhões de toneladas.

A diminuição está relacionada ao menor estímulo ao plantio, à seca no Cerrado e às perdas já consolidadas em lavouras de Minas Gerais e Goiás.

No Paraná, a área destinada ao cereal caiu 13,5%, passando de 855 mil hectares no ciclo anterior para 740 mil hectares nesta temporada. Além da redução da área, o setor trabalha com a perspectiva de menor produtividade.

O encarecimento de insumos importados, principalmente fertilizantes nitrogenados como a ureia, reduziu o investimento tecnológico nas lavouras. A expectativa é de que a produtividade média recue 9,5%.

Com menos área e menor rendimento, o potencial de produção de trigo paranaense deve cair 21%. Na safra anterior, o Estado havia produzido 2,8 milhões de toneladas. Agora, a projeção está em 2,2 milhões.

A menor disponibilidade doméstica também deverá aumentar a necessidade de trigo estrangeiro. Segundo Bento, o Brasil pode alcançar um volume recorde de compras no mercado internacional.

“Como consequência direta, a projeção é que o Brasil caminha para registrar a maior importação de trigo de sua história, com volume estimado em quase 9 milhões de toneladas", afirma o analista.

A busca pelo cereal fora do país, porém, encontra obstáculos relacionados a preço, disponibilidade e qualidade.

A Argentina continua sendo a origem mais competitiva para o Brasil, favorecida pela proximidade logística e pelas condições comerciais dentro do Mercosul. O trigo argentino disponível para abastecer o mercado até novembro, entretanto, apresenta baixo teor de proteína e de glúten úmido.

O problema é associado ao menor uso de fertilizantes nitrogenados nas lavouras argentinas. Para a próxima colheita do país vizinho, a estimativa é de uma produção próxima de 20 milhões de toneladas. Na avaliação de Bento, esse volume seria suficiente para reduzir as preocupações com abastecimento, desde que venha acompanhado da qualidade necessária.

A alternativa de recorrer a outros fornecedores aumenta os custos para os moinhos. O trigo dos Estados Unidos pode chegar ao Brasil custando cerca de R$ 300 por tonelada a mais que o produto argentino.

O mercado norte-americano também enfrenta restrições. Conforme a série histórica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o país registra a menor safra desde 1970 e o menor saldo exportável desde 1960.

Outra possível origem, a região do Mar Negro, também enfrenta encarecimento logístico. O recrudescimento dos conflitos entre Rússia e Ucrânia, incluindo ataques a navios cargueiros e graneleiros no Mar de Azov e no Mar Negro, elevou despesas com fretes e seguros marítimos.

O Paraguai, fornecedor tradicional de trigo ao Paraná, também deve ter menos produto disponível para exportação. O saldo exportável, que alcançou 600 mil toneladas no ciclo passado, deve ficar limitado a no máximo 350 mil toneladas.

Nesse ambiente, o câmbio aparece como um dos poucos fatores capazes de reduzir parcialmente a pressão sobre as importações. Com o dólar próximo de R$ 5, o trigo cotado na moeda norte-americana se torna relativamente mais barato quando convertido para reais.

Esse efeito, porém, não tem sido suficiente para compensar a valorização internacional. A alta dos preços externos superou o benefício proporcionado pelo câmbio, elevando o custo de importação nesta temporada.

Além das restrições já projetadas para a oferta, o comportamento do clima permanece como fator de risco para a qualidade do trigo. Embora as condições atuais sejam consideradas favoráveis, Bento alerta para as incertezas relacionadas à possível confirmação de um El Niño de forte intensidade.

Segundo o analista, historicamente não há registros de safras submetidas a episódios de El Niño de alta intensidade que tenham escapado de perdas qualitativas.

Caso esse cenário climático se confirme, o impacto poderá se somar à menor produção brasileira e às dificuldades encontradas no mercado internacional, aumentando a pressão sobre a disponibilidade e os preços do trigo no mercado interno.

Para a cadeia paranaense, portanto, a safra 2026/27 começa marcada por um desafio que vai além da quantidade produzida. Com uma demanda industrial muito superior à oferta estadual, importações potencialmente recordes e restrições de qualidade entre fornecedores externos, garantir matéria-prima adequada aos moinhos será um dos principais pontos de atenção do setor nos próximos meses.

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