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Do campo ao carrinho: por que o preço cai para o produtor, mas nem sempre cai no mercado?

Com mais oferta no mercado, preços podem cair


Foto: Ivan Bueno/APPA

O Brasil caminha para uma safra recorde de grãos em 2025/26, mas volume alto não garante renda maior ao produtor. Com mais oferta no mercado, preços podem cair; com armazenagem limitada, parte dos produtores precisa vender no pico da colheita; e, com custos dolarizados, a margem depende tanto da produtividade quanto do câmbio, que voltou a subir depois de sua queda em maio deste ano.

Produção e renda não são a mesma coisa. A receita do produtor depende de três variáveis: quantidade colhida, preço recebido e custo de produção. Em uma safra alta, o volume sobe, mas o preço pode cair justamente porque há mais produto disponível. Quem tem armazém, capital de giro, acesso a hedge ou programas para minimizar riscos consegue esperar melhores preços; quem precisa pagar financiamento ou liberar espaço vende mais cedo e pode capturar menos valor.

A Conab estima safra total de grãos de 358,6 milhões de toneladas em 2025/26, novo recorde se confirmado. A soja deve alcançar 180,3 milhões de toneladas, com incremento de 8,8 milhões de toneladas sobre a safra anterior.

O IBGE informou que a capacidade disponível de armazenagem agrícola era de 233,8 milhões de toneladas no segundo semestre de 2025. Comparada à safra projetada pela Conab, isso mostra uma diferença de cerca de 124,8 milhões de toneladas entre produção estimada e capacidade estática disponível, embora a capacidade não precise armazenar toda a safra ao mesmo tempo. No mercado da soja, o Cepea apontou em junho que a demanda externa e a depreciação do real ajudavam as cotações no Brasil, mas a ampla oferta global limitava altas mais fortes.

Na prática, a "supersafra" também encarece o caminho entre a fazenda e o comprador. No pico da colheita, milhares de produtores precisam escoar soja ao mesmo tempo, enquanto armazéns cheios reduzem a possibilidade de esperar por preços melhores.

A disputa por caminhões aumenta, filas se formam nas rotas de escoamento e o frete deixa de ser apenas um custo operacional: vira um fator decisivo na margem. Em algumas rotas, produtores e transportadores relatam que o valor pode até dobrar no período mais apertado da safra. Quem já travou parte dos custos e da venda por meio de barter tende a atravessar essa variação com mais previsibilidade. Já quem deixa para vender tudo no mercado físico em março ou abril fica mais exposto ao preço baixo da colheita, ao frete caro e à falta de espaço para armazenar.

Mas na prática, uma "supersafra" ajuda a baixar alimentos ou aperta a margem do produtor?

Ela pode fazer as duas coisas. Para o consumidor final, mais oferta tende a aliviar preços de itens ligados a grãos, como óleo, ração e carnes, mas esse efeito depende de indústria, varejo, câmbio e exportações. Para o produtor, a supersafra pode significar receita maior só se o preço não cair mais do que o ganho de produtividade.

 

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