Dois em cada três cortes prime dos EUA vêm do cruzamento entre Angus e gado leiteiro
O cruzamento une duas exigências que, à primeira vista, parecem opostas
Foto: Sabrina Gabana
O Programa Carne Angus Certificada, da Associação Brasileira de Angus, chegou à Agroleite 2026, em Castro (PR) e apresentou o método Beef on Dairy ao produtor de leite. A proposta, chancelada pela Carne Angus desde 2024, consiste no cruzamento entre touros Angus e vacas leiteiras para gerar cortes premium certificados, agregando renda extra à propriedade sem comprometer a atividade leiteira.
O cruzamento une duas exigências que, à primeira vista, parecem opostas: a segurança reprodutiva do rebanho leiteiro e a qualidade de carne de um animal de corte. Segundo Maychel Borges, gerente nacional do Programa Carne Angus Certificada, esse equilíbrio começa pela própria genética do Angus. "O Angus é uma raça que já nasce pequena, o que traz mais segurança nesse tipo de cruzamento. Como o principal ativo do produtor de leite é a vaca, é preciso ter atenção redobrada ao peso ao nascer e à facilidade de parto, para não causar nenhum problema no rebanho leiteiro", explica. É justamente para orientar essa escolha que a associação criou os selos Beef on Dairy, que identificam touros com genética voltada à facilidade de parto e a bezerros mais leves ao nascer, reduzindo o risco de partos difíceis nas vacas leiteiras.
Sobre a sanidade dos bezerros resultantes do cruzamento, Borges descarta um aumento de mortalidade. "Não temos nenhum relato de aumento de mortalidade. O bezerro leiteiro, por si só, já é um animal mais delicado e exige atenção especial, assim como o Beef on Dairy, que, por serem duas raças taurinas, também precisa desse cuidado sanitário. Mas o produtor de leite já tem um know-how muito grande em sanidade e criação de bezerro, é quem melhor cria bezerros dentro da pecuária como um todo. Por isso, não acredito que esse seja um desafio para eles", afirma.
Já em relação ao desempenho produtivo, o gerente do programa destaca que os animais resultantes do cruzamento têm apresentado ganho de peso compatível com o do gado comercial comum, sem prejuízo em relação a outros cruzamentos. É na qualidade da carne, porém, que o Beef on Dairy se destaca. "Nos Estados Unidos, a cada três dos melhores cortes do país, os chamados prime, dois vêm desse tipo de cruzamento", afirma Borges. Segundo ele, o resultado se explica pela ausência de genética zebuína nesses animais, já que são só raças taurinas, combinada às características de cada raça leiteira. "A Holandesa e, principalmente, a Jersey trazem uma genética muito boa para entrega de marmoreio e qualidade de carne, mesmo sem terem sido criadas para produção de carne. O que falta a essas raças é musculosidade e área de olho de lombo, e é justamente isso que o cruzamento direcionado, com touros selecionados pelo nosso selo, consegue agregar, unindo o marmoreio das duas raças à musculatura que o Angus imprime, para chegar a uma carcaça de alta qualidade", explica.
O ganho financeiro é outro argumento citado por Borges para o produtor de leite considerar o cruzamento. "O produtor pode ficar seguro quanto a esse cruzamento, muito por conta da qualidade que o produto entrega. O mercado de carne de alta qualidade nunca esteve tão aquecido, e existem parceiros que já fazem contrato para dar ainda mais segurança. Esse animal recebe a mesma bonificação do selo de carne Angus, seja puro ou cruzado com zebuínos. Com a Cooperaliança, nossa parceira, esse prêmio pode chegar à arroba mais 9%", diz.
Na prática, o produtor consegue aliar a produção de leite ao cruzamento com o uso de sêmen sexado, tecnologia que permite direcionar a inseminação apenas às melhores vacas do plantel. "O produtor pode escolher, por exemplo, repor 30%, 40% ou 50% do rebanho com sêmen sexado, usando as vacas de maior carga genética e produtividade. As demais, com algum problema ou menor produtividade, são direcionadas para o cruzamento de corte. Assim, ele repõe o rebanho leiteiro só com o que há de melhor e ainda gera uma renda à parte com o Beef on Dairy", afirma Borges.
A escolha do touro ideal, segundo ele, também é facilitada pelos selos da associação, que funcionam como filtros técnicos adaptados a cada raça leiteira. "Holandesa e Jersey são morfologicamente muito diferentes, então a demanda de uma raça para outra também muda. Na Jersey, por exemplo, é preciso imprimir mais tamanho e musculosidade. Já na Holandesa, que já é um animal grande, o objetivo é o contrário: equilibrar o porte para não formar um animal muito grande ou exigente. É um verdadeiro quebra-cabeça genético para entregar o Angus ideal para cada raça", explica Borges, lembrando que o acesso aos selos Beef on Dairy Holandês e Beef on Dairy Jersey é feito diretamente pelo catálogo das centrais de genética parceiras.
Borges também destaca a sustentabilidade do processo. "O Beef on Dairy evita o descarte do bezerro leiteiro dentro da propriedade e ainda aproveita subprodutos que hoje seriam perdidos, como o leite de vacas medicadas, que não pode ser comercializado, mas pode alimentar esses bezerros. Isso recicla todo o ambiente produtivo. E, junto com a sustentabilidade, vem a rentabilidade: o cruzamento traz um sobrepreço, um ganho extra dentro da porteira", afirma. Para o gerente, ampliar essa prática também é estratégico para a cadeia da carne como um todo. "Hoje há mais demanda por carne de qualidade do que oferta desse produto. Para acelerar esse processo, precisamos fazer o que os Estados Unidos já fizeram muito bem: produzir carne de alta qualidade a partir do que hoje é, muitas vezes, um problema na pecuária leiteira", diz.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca que a qualidade da carne gerada pelo cruzamento depende diretamente do cuidado com a genética utilizada, o que justifica a existência dos selos de seleção. Já o diretor executivo da associação, Mateus Pivato, explica que a obtenção desses selos segue critérios técnicos rigorosos, com foco em peso ao nascer, ganho de peso em diferentes fases, área de olho de lombo e conformação de carcaça.