De 23 a 25 de julho, Chapecó, a maior cidade do Oeste Catarinense, se transformará na capital brasileira da Agricultura Familiar. Nesses dias, o município deverá receber a visita de pelo menos quinze mil agricultores e agricultoras familiares de diversas localidades que participarão do V Encontro da Agricultura Familiar da Região Sul, da II Feira Nacional da Agricultura Familiar e da I Festa Nacional da Agroindústria Familiar. Estes três eventos acontecerão no Parque de Exposições Tancredo Neves (Parque da EFAPI), promovidos pela Frente Sul da Agricultura Familiar e Prefeitura Municipal de Chapecó. A Frente Sul da Agricultura Familiar é formada pela Fetraf-Sul/CUT – Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul -, Sistema Cresol (de cooperativas de crédito solidário), cooperativas de produção e comercialização, ONG’s da Agricultura Familiar e pastorais sociais.
A Agricultura Familiar é um segmento representativo da atividade agropecuária e consegue reunir propostas para fazer acontecer o desenvolvimento social e econômico do Brasil, baseados em sustentabilidade e solidariedade. São considerados agricultores familiares aqueles trabalhadores rurais que exploram parcela de terra como proprietários, assentados, posseiros, arrendatários ou parceiros e que obedecem a alguns critérios: empregar seu trabalho ou de sua família, podendo complementar esse trabalho com até dois empregados permanentes e contar com a ajudar de terceiros esporadicamente, em caso de necessidade, sob risco de prejuízos na lavoura; não possuir área superior a 4 módulos fiscais; ter, no mínimo, 80% de sua renda familiar anual originada da atividade agropecuária, pesqueira ou extrativa e morar na propriedade ou em aglomerado rural ou urbano próximo da área.
Na região Sul do Brasil, mais de 1 milhão de famílias trabalham no campo em regime de economia familiar. Destas, 720 mil estão organizadas em sindicatos de trabalhadores rurais e de trabalhadores na Agricultura Familiar, que fazem parte da base de atuação da Fetraf-Sul/CUT. Os agricultores e agricultoras familiares se organizam no Sul do Brasil em torno da produção de alimentos para a qualidade de vida; tanto de quem produz, quanto de quem consome estes alimentos. Estes homens e mulheres trabalhadoras buscam no desenvolvimento local uma forma de combater a fome e a exclusão social, de diminuir a dependência da população a políticas compensatórias e de evitar o inchaço das cidades, fazendo do campo um gerador de emprego e renda. A Agricultura Familiar também é o espaço da conscientização agroecológica, da ocupação racional do território, da preservação dos recursos naturais e da prática da agrofloresta. Mais críticos quanto ao que se propaga como tecnologia para incremento da produtividade, os agricultores e agricultoras familiares organizados em grupos e produção, desenvolvem seus próprios experimentos e suas pesquisas. Delas, resultam, por exemplo, o conhecimento para a produção e troca de sementes crioulas nas comunidades – prática natural e que não gera dependência econômica para a aquisição de insumos. A juventude rural organizada também contribui para esse retrato da Agricultura Familiar. A organização dos jovens em coletivos sindicais, de produção e em pastorais sociais tem contribuído para combater o êxodo no campo. Hoje, a juventude rural elabora, em encontros e oficinas temáticas como os que acontecerão em Chapecó este mês, propostas para uma educação voltada à vida rural e para sua participação ativa na sociedade. Em mais de 80 municípios do Sul do Brasil, os jovens elaboram e cobram da administração pública políticas sociais voltadas para a juventude rural.
“Programão” – Na programação do V Encontro da Agricultura Familiar, as oficinas temáticas que acontecerão, retratam bem a amplitude do projeto alternativo de sociedade, com base em um desenvolvimento sustentável e solidário, construído pelas famílias campesinas da Região Sul do Brasil.
No dia 23 de julho, acontecerão a abertura oficial do V Encontro, às 18h, e, em seguida, a abertura oficial da II Feira Nacional da Agricultura Familiar e da I Festa Nacional da Agroindústria Familiar.
Sendo 2002 um ano de eleições, no dia seguinte (24/07), os participantes do Encontro em Chapecó discutirão a realidade e elaborarão propostas para o Brasil, divididos por temas em 13 grupos:
- Produção, agroindustrialização e mercado;
- água e meio ambiente;
- previdência social;
- geração de energia;
- ALCA e Organização Mundial do Comércio (OMC);
- crédito;
- agroecologia, biodiversidade e transgenia;
- acompanhamento técnico e pesquisa;
- juventude e relações de gênero;
- educação;
- habitação rural;
- política fundiária e
- papel do Estado – políticas institucionais.
O segundo dia de encontro é encerrado com uma programação cultural que está sendo denominada de “Baile de Integração Campo e Cidade”, animada pelo Grupo EcoSul, Osvaldir e Carlos Magrão e pela Banda Reprise.
As discussões ocorridas nas oficinas temáticas voltarão no último dia do V Encontro da Agricultura Familiar (25/07), sob a forma de um amplo debate intitulado “Eleições 2002 – Um Projeto Para o Brasil”. O documento que reunirá todas as propostas dos agricultores e agricultoras familiares do Sul do Brasil será entregue para os candidatos à Presidência da República, para que fiquem atentos aos anseios desse setor. O encontro de Chapecó terminará com o encerramento da Feira Nacional e da Festa da Agroindústria Familiar, animada pelos artistas populares da tradição gauchesca: Antônio Gringo, Leonardo e Dante Ramón Ledesma.
A Frente Sul da Agricultura Familiar e a Prefeitura Municipal de Chapecó pretendem atrair para as atividades no Parque de Exposições da EFAPI mais de 30 mil pessoas. Chapecó é um município com aproximadamente 150 mil habitantes. Cerca de 90% da circulação de renda local é oriunda da produção de alimentos e das atividades industriais de transformação dos produtos e dos serviços derivados da agropecuária.