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El Niño deve trazer seca no Centro-Oeste e chuva em excesso no Sul

Especialistas alertam para efeitos do fenômeno na próxima safra


Foto: Pixabay

A chegada do El Niño para o ciclo 2026/27 deve impactar as lavouras brasileiras não apenas pelas mudanças no regime de chuvas, mas também pela combinação com um cenário econômico de custos altos e crédito mais restrito. Técnicos do setor defendem que os produtores antecipem ajustes no manejo para reduzir perdas diante do fenômeno climático. O alerta reforça a necessidade de planejamento técnico já nas próximas semanas, antes do início efetivo do plantio.

O setor agropecuário brasileiro encara o novo ciclo produtivo sob pressão dupla: de um lado, os efeitos climáticos do El Niño; de outro, um ambiente macroeconômico mais apertado. De acordo com o relatório Visão Agro 2026, elaborado pelo Itaú BBA, o agronegócio nacional entra na safra convivendo com juros altos, maior rigor na concessão de crédito, preços pouco favoráveis para várias commodities e custos produtivos ainda elevados. O documento aponta o El Niño como uma das principais ameaças à produtividade de culturas como soja, milho, trigo, café e citros, reforçando que as condições climáticas seguirão como fator determinante para o desempenho das lavouras neste ciclo.

Para o coordenador de Excelência Técnica da Vitalforce, Felipe Crepaldi, apesar de o clima ser uma variável fora do controle do produtor, existem formas de tornar as lavouras mais resilientes aos seus efeitos. Segundo ele, a resposta da planta ao estresse climático é determinada por decisões tomadas com bastante antecedência, envolvendo fatores como estrutura do solo, desenvolvimento radicular, atividade microbiológica, cobertura vegetal e acompanhamento constante da área.

Crepaldi elencou cinco frentes que merecem atenção redobrada no planejamento da safra 2026/27.

A primeira delas diz respeito ao preparo do solo antes mesmo do plantio. A capacidade de infiltração e retenção de água, segundo o especialista, está diretamente relacionada às condições físicas do solo, enquanto a atividade biológica influencia a disponibilização de nutrientes e o crescimento das raízes — fatores que ganham peso adicional em safras marcadas por maior instabilidade climática.

O segundo ponto envolve o destino dado à palhada após a colheita. Segundo Crepaldi, é comum que o produtor volte sua atenção rapidamente para a cultura seguinte, sem avaliar os riscos sanitários deixados pelos resíduos da colheita anterior. Pesquisas conduzidas pela equipe técnica do professor Erich Reis, do Núcleo de BioSoluções de Bandeirantes (PR), unidade ligada ao Biocentro da Vitalforce, apontam que cerca de 93% das doenças presentes em uma área permanecem associadas ao solo e à palhada — o que torna essa etapa uma oportunidade concreta de reduzir riscos sanitários antes do novo ciclo. Crepaldi destaca que a palhada pode atuar como reservatório de patógenos e defende que o conhecimento da real situação sanitária da área deve anteceder a definição de qualquer estratégia de manejo. Essa lógica embasa a iniciativa Blitz do Patógeno, promovida pela Vitalforce, que propõe a coleta de amostras de palhada para análise laboratorial, permitindo mapear os patógenos predominantes antes das decisões de manejo e tornando o processo menos dependente da avaliação visual da lavoura.

O terceiro aspecto levantado por Crepaldi é a necessidade de adequar o manejo às diferenças regionais, já que os efeitos do El Niño não serão uniformes pelo país. Regiões como Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste devem registrar temperaturas mais altas, estiagens em fases críticas do desenvolvimento das culturas e maior pressão de pragas, como o percevejo da soja e a cigarrinha-do-milho. Já no Sul, a expectativa é de excesso de chuvas, o que deve favorecer o encharcamento dos solos e elevar a incidência de doenças ligadas ao excesso de umidade.

Como quarto ponto, o especialista chama atenção para a importância do sistema radicular na resposta das plantas a períodos de estresse hídrico. Raízes mais profundas ampliam o volume de solo explorado pela planta, o que aumenta a disponibilidade de água em períodos de seca e contribui para maior estabilidade fisiológica da cultura. Em contrapartida, em áreas sujeitas a excesso de umidade, solos bem estruturados favorecem a drenagem e diminuem o tempo de contato da água com as raízes.

Por fim, Crepaldi defende que o monitoramento das lavouras deixe de ser tratado como rotina e passe a ser encarado como ferramenta de gestão de risco. Segundo ele, em safras marcadas por maior instabilidade climática, pequenas variações ambientais podem acelerar a proliferação de pragas e doenças, tornando essencial intensificar o acompanhamento desde o início do ciclo da cultura. A identificação precoce de problemas, argumenta, permite decisões mais assertivas e reduz o risco de perdas econômicas ao longo da safra.

Para o especialista da Vitalforce, decisões baseadas apenas na experiência ou na observação visual tendem a perder eficácia diante da crescente complexidade da produção agrícola. Análises de solo, diagnóstico das condições físicas da área, identificação de patógenos na palhada e monitoramento das condições climáticas são, segundo ele, ferramentas que ajudam a direcionar estratégias mais eficientes e a otimizar o uso de tecnologia ao longo da safra. "O clima continuará sendo uma variável impossível de controlar. O que está ao alcance do produtor é preparar o sistema produtivo para responder melhor aos desafios que surgirão ao longo da safra. Em um ano de maior risco, essa preparação poderá fazer toda a diferença", conclui Crepaldi.

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